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Ópera sobre Giordano Bruno em estreia mundial no Porto

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A ópera estreia amanhã na Casa da Música

Casa da Música recebe criação com libreto construído a partir de textos originais do filósofo queimado na fogueira pela Inquisição

Este sábado, a partir das 21h, e a inaugurar o ciclo “Transgressões”, acontecerá na Casa da Música, no Porto, a estreia mundial de “Giordano Bruno”, uma ópera em duas partes e 12 cenas.

Com música do italiano Francesco Fideli e libreto assinado por Stefano Busellato, esta criação, escrita para ensemble, coro e quatro solistas, além de outras 12 vozes solistas, “Giordano Bruno” pretende constituir uma viagem por um tempo negro, de esmagamento de consciências livres.

O ponto de partida é o percurso do filósofo, escritor e monge dominicano queimado na fogueira por ordem da Inquisição a 17 de fevereiro de 1600. Acusado de defender posições que punham em causa alguns dogmas da fé católica, como a tese do universo infinito, Bruno quis romper fronteiras e acabou por penar durante vários anos às mãos dos inquisidores.

O libreto é construído a partir de alguns dos mais importantes textos escritos por Giordano Bruno, em particular as teorias sobre os corpos celestes, os Quatro Elementos ou a Transformação Contínua, com tudo a culminar no processo construído a propósito das suas posições, o julgamento e a execução.

A ação é dividida a partir da cronologia do processo de Giordano Bruno (desde a denúncia até à fogueira em Veneza) e em cenas inspiradas na sua filosofia. Cada cena é composta segundo uma nota da escala cromática: o ponto de partida é fá sustenido (primeira cena, preâmbulo) e a partir daqui, explica o programa, “as cenas ligadas ao processo compõem-se com cromatismos descendentes, enquanto os ligados à filosofia são em direção ascendente a partir da nota sol”.

Numa entrevista incluída no programa de sala, o compositor Francisco Filidei explica a estrutura em doze cenas, em que se alternam momentos mais ligados à filosofia com outros centrados no julgamento, com uma opção musical. As doze cenas, diz, “estão interligadas através de uma escala cromática, que sobe nas cenas de filosofia, as cenas pares, e desce nas cenas do julgamento, as cenas ímpares. Essa interligação também é estabelecida através da utilização das vozes femininas nas cenas de filosofia, enquanto nas cenas de julgamento são utilizadas as vozes masculinas. Na ópera, cada cena corresponde a uma nota que eu mantenho durante toda a cena. Devido a um princípio sinestésico, cada nota tem a sua cor. Por conseguinte, ficamos muito tempo num único tom, numa única atmosfera”.

Segundo Filidei, “este sistema está na linha dos princípios mnemotécnicos de Giordano Bruno, que escreveu muitas obras sobre a magia e a memória. Em ‘De umbris idearum3’, por exemplo, Giordano Bruno desenvolveu métodos para recuperar facilmente uma ideia através de um princípio de associação de imagem. Ele inventava lugares de memória onde se podiam recuperar as ideias. Concebi as doze cenas da ópera como lugares de memória, cada uma associada a uma imagem, a uma cor. É preciso esperar pela décima primeira cena, a cena da fogueira, para redescobrir todas as notas das cenas anteriores, onde todas as cores se misturam, onde, finalmente destruímos tudo aquilo que construímos. Para mim, se não houver destruição no meu trabalho, não se pode falar de uma música que quer fazer arte. Ao tornar a matéria agressiva, quero ir além da estética e transformá-la em algo que seja interessante, que levante questões”.

A ópera em estreia é uma produção do Théâtre & Musique-Paris, em coprodução com a Casa da Música, Festival Musica Strasbourg, T2GCDNCC, Théâtre de Caen, Fondazione I Teatri di Reggio Emilia; com o apoio do Fonds de Création Lyrique/SACD e Arcadi Île-de-France.

Peter Rundel terá a direção musical em mais um importante momento para o Remix Ensemble Casa da Música. Os principais intérpretes são o barítono Lionel Peintre (Giordano Bruno), o tenor Jeff martin (1º Inquisidor), o baixo Ivan Ludlow (2º Inquisidor) e o contratenor Guilhem Terrail (Papa Clemente VIII).

Cantada em italiano e legendada em português, a ópera tem a duração de 1h45 sem intervalo e éapresentada nos próximos dias 19 e 20 no Festival Música, de Estrasburgo, França, a 26 no Teatro Valli, em Regio Emilia, Itália, e a 7 de novembro no Picolo Teatro Strehler, de Milão, Itália. A carreira prosseguirá no próximo ano, com récitas em abril no Théâtre de Gennevilliers e no Théâtre de Caen, em França.

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