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11 de Setembro. O dia em que o Teatro D. Maria II deita abaixo a tradição e dá vivas ao teatro

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"Agamémnon" é uma das tragédias que Tiago Rodrigues escolheu para a abertura da temporada

Filipe Ferreira

Três tragédias gregas reescritas, uma a cada dia, e um programa que dá para toda a família, de entrada gratuita. De hoje até domingo não há desculpas para não ir ao teatro. Até mesmo para quem não gosta de ficar sentado

Abram-se as portas de par em par, espante-se o pó e os fantasmas, e dê-se início à festa. Não há dourados, engalanados ou veludos que pretendam assustar ou afastar alguém. Tiago Rodrigues agendou um início de temporada que não vai deixar ninguém de fora, e que quer transformar o Teatro Nacional D. Maria II, num agregador, o epicentro por excelência da cultura da capital. Um lugar de partilha e cruzamento que atraia todos os tipos de público, até aqueles não-espectadores que normalmente gostam de dizer que o teatro português não existe.

A nova temporada do Teatro Nacional D. Maria II inicia-se num tom festivo, e ao mesmo descontraído, contrariando a habitual gala das aberturas de temporadas teatrais um pouco por toda a Europa. Não se pense, porém, que o programa de três dias não exclui o teatro, na sua fonte mais clássica. Acrescenta-lhe é muito mais: concertos, leituras, homenagens, oficinas de teatro para crianças e famílias, excursões teatrais ou caminhadas exploratórias pelas imediações do edifício. Não há de facto razões para não aproveitar, até porque a partir de hoje e até domingo todas as entradas são gratuitas.

A proposta de Tiago Rodrigues como diretor artístico do Teatro D. Maria II, começa hoje, sexta-feira, dia 11, com uma das três tragédias clássicas que decidiu reescrever, "Ifigénia". Segue com "Agnaménnon", no sábado, dia 12, e termina com "Electra", dia 13 no domingo. As peças de Eurípedes e Ésquilo surgem aqui reescritas pelo próprio Tiago Rodrigues, que as leva a palco com o elenco residente do Teatro D. Maria II, alguns atores que costumam participar nos seus espetáculos e ainda com jovens alunos da Escola Superior de Teatro e Cinema. A iniciativa de ir aos clássicos é também uma tentativa de trazer à discussão a importância do valor da moral nas sociedades, criando como escreve João Carneiro, amanhã na Revista E (depois de ter visto os ensaios destas três peças), a possibilidade de acreditar "que temos com esses textos e com as pessoas de outras épocas coisas em comum".

O grande desafio passará por saber o que é os mais novos fariam se mandassem, ou se "É bom mandar?". Trata-se de uma oficina para crianças e adultos onde será possível experimentar várias formas de governo, um tema que vem mesmo a calhar em véspera de eleições (a oficina tem lugar todos no sábado, 12, e no domingo 13, às 11horas e a direção é de Catarina Requeijo e Inês Barahona)

O passado voltará também de outras formas, com leituras, como a de "Ricardo III", de William Shakespeare, coordenada por Tónan Quito, encenador que prepara a apresentação desta peça no D. Maria II, ou com a exposição, com curadoria de David Cranmer, de partituras, utilizadas em produções realizadas no próprio teatro.

Eunice Muñoz será homenageada (no domingo, 13, às 19h) numa iniciativa comovente: 74 atrizes de várias idades dirão textos que Eunice já disse naquele mesmo palco e verão a suas palavras completadas pelo lançamento do livro de Vítor Pavão dos Santos sobre a atriz. 73 será também o número de razões que Raquel André nos dará para olhar para a prova do encontro que teve com 73 desconhecidos. As fotografias reunidas sob o título "Colecção de Amantes" darão conta de uma fração do que aconteceu ao longo de uma hora de relação construída entre Raquel André e esse estranho.

Nas propostas musicais o destaque vai para Bruno Pernadas. O músico e compositor fará um concerto hoje, dia 11, às 23 horas, e o seu lado cerebral não fica oculto, desde logo. no título que escolheu "How can we be joyful in a world of full knowledge". Mas também haverá DJs (Alx & Riot), amanhã, sábado, dia 12.

Os livros não irão faltar em formato de feira a realizar na própria fachada do teatro, e para quem não gosta muito de ficar sentado fica o convite à descoberta da Baixa Pombalina que acabará por acontecer por via do Teatro de Compras, uma caminhada/espetáculo que já teve outras edições, nomeadamente no Festival Todos, coordenada como habitualmente por Giacomo Scalisi.