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“Não estou a fazer sapatos nem salsichas - há mais qualquer coisa nisto.” O cinema independente não está morto

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O Cinema Ideal, um dos mais antigos cinemas de Lisboa, reabriu em setembro do ano passado, cinco meses depois da data prevista e anunciada

DR

O cinema já foi dado como morto várias vezes. O número de espectadores diminuiu 30% numa década, as receitas de bilheteira caíram 12% e houve várias salas que fecharam. Mas há duas histórias paralelas a esta, a do Cinema Nimas e a do Cinema Ideal, em Lisboa, que reabriu em agosto do ano passado. Este é o quinto artigo da série “30 Retratos” que o Expresso vai publicar diariamente. São 30 temas, 30 números e 30 histórias que ilustram o que Portugal é hoje em vésperas de eleições

Helena Bento

Jornalista

"Serviço público." Ouvimos a expressão uma vez e depois outra vez e depois outra vez. Não a usa com o deslumbramento de alguém que acaba de juntar duas palavras pela primeira vez e rejubila com a invenção. É uma luta que já tem barbas. Mas que nem por isso perde força. "Não estou a fazer sapatos nem salsichas. Há mais qualquer coisa nisto". Refere-se ao Cinema Ideal, na Rua do Loreto, em Lisboa. E acrescenta: "Os sapatos e as salsichas não tornam as pessoas mais felizes, não tornam as pessoas melhores. A cultura, sim, torna as pessoas melhores. E mais felizes, e para sempre".

Parece um queixume cuspido ao deus-dará, mas não é. É um apelo, e é dirigido aos "poderes públicos". O que os números do ICA (Instituto de Cinema e Audiovisual) mostram é que, numa década, o número de espectadores nos cinemas portugueses desceu 30%. As receitas também caíram 12% se compararmos 2004 e 2014 diretamente, ainda que ao longo da década se tenha registado oscilações – em 2010, por exemplo, as receitas ascenderam a 82 milhões de euros, o que significa que, desde então, nos últimos quatro anos a quebra foi mais acentuada (-24%).

"Vendemos bilhetes mas funcionamos numa lógica diferente. Uma sala de cinema cria um valor que não é mensurável, mas gera animação no bairro e traz pessoas que, de outra forma, não iriam ter uma atividade lúdica e formativa como têm aqui." Palavra de Pedro Borges, produtor e distribuidor da Midas, que detém o Cinema Ideal.

Está a pensar nos turistas que todos os anos visitam a capital. "Eles não vêm cá para ver fábricas de conservas nem a Autoeuropa." Vêm, por outro lado, "para ver a cidade e a vida que ela tem e essa vida tem muito que ver com os espaços de cultura". É por essa, e também por outras razões, que faz falta uma política para o cinema, sobretudo quando "há um QREN e políticas para fazer criação de galinhas e todas essas coisas que, em geral, servem apenas para a bandidagem".

E agora? Lembra-me (do que é estar aberto)

O Cinema Ideal, um dos mais antigos cinemas de Lisboa, reabriu em agosto do ano passado, cinco meses depois da data prevista e anunciada. Uma série de questões burocráticas, nomeadamente algumas autorizações municipais, obrigaram a adiar a reabertura da sala. Pedro Borges recorda esses meses como um “pesadelo”, que só teve fim quando as obras de recuperação do espaço finalmente tiveram início. A 29 de agosto, a sala abriu ao público com a estreia do filme “E agora? Lembra-me”, do realizador português Joaquim Pinto, que esteve presente na sessão.

O espaço, de resto, tinha mesmo de ser aquele. Porque fica no centro da cidade e porque foi "o único" a conseguir resistir à "destruição do centro histórico" a que se assistiu ao longo dos últimos anos. "Foi tudo destruído, tudo fechado", diz. Tinha-o debaixo d'olho há meia dúzia de anos, desde 2009, mas o valor das rendas comerciais impedia-o de avançar. Com a nova lei do arrendamento aprovada pelo Governo em 2012, a Casa da Imprensa, proprietária do espaço, conseguiu negociar com os anteriores inquilinos de uma forma que Pedro Borges considera "não muito desvantajosa". Eles saíram e a Midas pôde, finalmente, entrar.

"Mostrar um certo tipo de filmes"

Marcos Borga

Cerca de 40% dos filmes exibidos no Ideal são distribuídos pela Midas. Mas esse é apenas um detalhe de uma história bem maior. Pedro Borges decidiu recuperar a antiga sala de cinema para "mostrar um certo tipo de filmes" - filmes portugueses independentes e outras produções independentes que, de outra forma, dificilmente chegariam ao público a não ser através da televisão ou festivais de cinema - não para exibir e privilegiar aqueles que a Midas produz e distribui.

Chegados a este ponto, recorda aquela que considera ter sido uma das "experiências mais significativas e importantes" que fez este ano: a exibição do documentário "Outro País" (1999), realizado por Sérgio Tréfaut. O número de espectadores que teve – cerca de 1000 – veio dar força a esse velho preceito, que defende com afinco, segundo o qual assistir a um filme numa sala de cinema é "completamente diferente" ("é outra coisa") de o ver em casa. "Isso para nós é o mais importante de tudo. É preciso fazer justiça a todo este trabalho."

Entre esses espectadores havia muitos jovens e isso acabou por ser uma surpresa. Estava à espera de encontrar sobretudo "nostálgicos" de um tempo ido (anos de 1974-75 em Portugal) e outras pessoas que iam ali para "ver o folclore da época". Os mais velhos são, no entanto, os que mais frequentam o Ideal. E o produtor descreve-os assim: "são pessoas que não gostam de ir para centros comerciais e, talvez por isso, tenham deixado também de ir ao cinema. Preferem uma sala com boas condições, como a que temos aqui".

“Quando se está muito preocupado começa-se a escolher mal os filmes”

José Caria

Se tivesse que escolher entre uma série de palavras aquela que melhor descreve a programação do Ideal, "alternativa" era a primeira a deixar de fora. Porque cria um "estigma e, às vezes, até uma barreira", mesmo que esta seja “abstrata”. “Dizer que há um cinema alternativo é como se houvesse ali um cantinho para pessoas com gostos esquisitos que deviam andar clandestinas”. A ideia era, e continua a ser, combinar ao longo do dia “diferentes tipos de filmes para diferentes tipos de pessoas”, explica.

O Ideal recebe, em média, entre 800 a 900 espectadores por semana. Pedro Borges prefere, no entanto, não levar este nem outros números muito a sério. "Não estamos preocupados. Quando se está muito preocupado começa-se a escolher mal os filmes. Quando só se pensa nos espectadores, começa-se a fazer asneira e a fazer más escolhas. Trabalhamos em função daquilo que é preciso mostrar, não em função das receitas que esperamos vir a ter."

Coisas esquisitas - e com público para elas

Pedro Borges não fala sobre o há de mau sem falar, logo de seguida, no que há de bom no meio disto tudo. Fazem falta mais apoios, já se imaginava. Aqueles que foram atribuídos pela Câmara Municipal de Lisboa ("a única instituição que se interessou") e pelo ICA e que representam entre 10 a 15% do valor total de investimento (cerca de 600 mil euros), não são suficientes.

Apesar disso, está satisfeito e elogia com vaidade, mas sem ponta de sobranceria, o trabalho que tem feito. Porque "não há nada que se compare" ao Ideal, essa sala única entre o Largo de Camões e a Calçada do Combro que consegue "misturar todo o tipo de filmes e estrear tantas coisas esquisitas" e, ainda assim, "conseguir público para elas". "O essencial é termos feito uma coisa que não se parece com outra. Ou seja, se nós não a tivéssemos feito, toda a vida pública da cidade teria perdido alguma coisa. Assim, acabou por ganhar."

Não cresceu, não morreu

Houve uma parte no percurso de Paulo Branco que foi de ascensão e queda. Nos anos 80, quando o cinema europeu "tinha praticamente desaparecido" e "grande parte filmes exibidos era de origem americana", iniciou a sua carreira de exibidor (e também a de produtor). Começou pelo Fórum Picoas, em Lisboa, depois veio o Cinema King, o Nimas (que abriu em 1975 e começou a ser explorado pela sua exibidora, a Medeia Filmes, em 1990), o Monumental e o Fonte Nova, na freguesia de Benfica.

Houve uma ascensão ("fui crescendo, crescendo, crescendo") e depois deu-se a queda. "Tentei criar um polo de exibição que tivesse uma dimensão capaz de resistir a qualquer tipo de modificação que houvesse no panorama audiovisual em Portugal, mas isso, por motivos vários, caiu."

Paulo Branco tinha a "pretensão" que diz terem os empresários, e que se traduz nisto: nesta coisa dos negócios, ou se cresce ou se morre. No seu caso, não se verificou nenhuma das duas hipóteses. Não cresceu, não morreu. Teve, por outro lado, de abrir mãos da maior parte das salas, reavaliar as opções, ordenar a retirada das tropas (por assim dizer) e reajustar o território, isto é, o seu circuito de exibição, aproximando-se do "núcleo central de trabalho sobre o cinema independente".

Mais pequeno, mas mais resistente

DR

Administrador da exibidora Medeia Filmes, explora atualmente o cinema Monumental, no Centro Comercial Dolce Vita Monumental, e o Nimas, os dois em Lisboa. Tem ainda programação no Cine Estúdio Teatro do Campo Alegre, no Porto, Auditório Charlot, em Setúbal, no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz, no Theatro Circo de Braga e no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.

"Neste momento, e no panorama atual da exibição de filmes em Portugal, sinto que cheguei à linha onde queria chegar, onde posso fazer um verdadeiro trabalho", diz. O polo que em tempos ambicionara erguer, gigante e vulnerável, deu lugar a outro, mais pequeno, mas ao mesmo tempo mais resistente.

A sala ideal era aquela

Para falar sobre uma das salas que a Medeia Filmes detém, é preciso falar sobre as outras. É isto que nos diz Paulo Branco quando o questionamos sobre o Nimas. Não é que as salas dependam umas das outras – ele garante que o Nimas é autosustentável – mas há uma harmonia entre elas.

Fundado em 1975, ano em que se inauguraram também outros cinemas, como o Quarteto e o Cinebolso, o Nimas começou a ser explorado pela Medeia Filmes em 1993. Vindo de uma época que "estava muito na moda", permitiu a Paulo Branco "jogar com as outras salas" e com o tamanho das mesmas. Mais tarde, as salas únicas, como é o caso do Nimas, tornam-se difíceis de rentabilizar e começam a ser necessários "números superiores" àqueles que normalmente se fazia.

Em 2009, abandona a sala, que fica à responsabilidade do filho, José Maria Branco, que organiza concertos e outros eventos na área da música. Entretanto, o Nimas ganha novamente "visibilidade" e Paulo Branco aproveita a saída do filho para Londres para voltar a gerir o espaço. Percebeu que ainda havia trabalho a fazer com as retrospetivas de filmes e que a sala ideal era aquela.

Combater a preguiça e a má-fé de algumas elites

André Carvalho/Medeia Filmes

No ano passado, e neste, os ciclos temáticos no Nimas chegaram ao fim da mesma forma como começaram - com a aura de acontecimento. Yasujiro Ozu, Satyajit Ray, Ingmar Bergman, Roberto Rossellini. Paulo Branco já tinha feito experiências anteriores com reposições de clássicos em cópias restauradas ("Vontade Indómita", de King Vidor, e "A Sede do Mal", de Orson Welles, por exemplo) e sabia que podia correr bem. Mas não esperava que as salas estivessem cheias sessão após sessão, dia após dia.

A única justificação que encontra para isto é o facto de não haver oferta suficiente para um público ávido de filmes e da história do cinema, criando um "vazio" que "nem a Cinemateca, sozinha, consegue preencher". "Uma coisa é ter a possibilidade de ir ver um filme e ter vários dias para o fazer, outra é ter apenas uma oportunidade, como acontece na Cinemateca."

Divide o público que assistiu a esses ciclos entre pessoas mais velhas "com um conhecimento cinéfilo do passado" que vêm redescobrir algumas obras e outras pessoas que as descobrem pela primeira vez, muitos deles estudantes, que considera ser o público mais recente.

Paulo Branco está entre essas pessoas que já viram os filmes mais do que uma vez mas querem revê-los. "A obra de Rossellini, por exemplo, foi uma das mais importantes que houve, mas às vezes esquecemo-nos porquê. Ver novamente é importante por causa disso, e também porque ajuda a relativizar o que há de grande falsidade em algum cinema moderno que pretende ser iniciático de alguma coisa."

São também os ciclos temáticos que permitem "alargar os públicos", mas é preciso dar continuidade a esse trabalho. É preciso que a "televisão pública comece a ter mais espaços culturais e de debate" e que se faça mais pela história do cinema.

É preciso, seja em relação aos ciclos seja em relação ao cinema em geral, "combater a preguiça e a má-fé de algumas elites que pura e simplesmente falam sobre cinema sem terem posto os pés numa sala nos últimos 15 anos". E é preciso "reconquistar o interesse de algumas gerações que deixaram de ir ao cinema, sobretudo em Portugal". Isso faz-se através de um trabalho de base nas escolas, à semelhança do que acontece em praticamente todos os países europeus, para que os jovens percebam que o cinema não é só o "zapping" ou a Internet, acrescenta.

Ninguém quis falar, ninguém ligou

André Carvalho/Medeia Filmes

Paulo Branco compara todos os estes anos à frente das salas a um acordeão. "Estica, encolhe, estica, encolhe." Os apoios do ICA à programação e da Câmara de Lisboa à remodelação dos espaços são recentes. "Durante dez ou 15 anos não havia sequer uma linha de apoio no ICA às salas independentes e a própria Câmara só agora começou a preocupar-se com a morte dos cinemas independentes em Lisboa."

Em 2013, o Cinema King (que a Medeia Filmes geria desde 1999) encerrou e dois anos depois, em maio deste ano, foi a vez das três salas no Centro Comercial Fonte Nova. Uma das razões que levaram a que um e outro fechassem foi a quebra no número de espectadores. Paulo Branco diz que a quebra de 30% no total de espetadores entre 2004 e 2014 podia ter sido evitada se há dez ou 12 anos tivesse havido algum interesse em perceber o que se estava a passar no sector do cinema, tanto por parte da comunicação social como dos poderes públicos. "Ninguém quis falar, ninguém ligou."

No meio disto tudo, o Nimas acaba por ser uma exceção, mas Paulo Branco prefere não lhe atribuir esse carácter. "As coisas existem, algumas morrem, outras sobrevivem e outras ainda renascem." O Nimas pode até ser autossustentável, mas só existe porque também existe o Monumental. Não por questões financeiras, mas porque o trabalho que desenvolve num - em torno da memória do cinema, no Nimas - permite complementar o trabalho que desenvolve no outro - mostrar o que há de “relevante” na cinematografia mundial atual, no Cinema Monumental. "Se alguma vez for obrigado a deixar de fazer este trabalho duplo, deixo de o fazer de todo."

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