Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Dentro do cinema amador cabe a palavra amor

  • 333

A Videoteca de Lisboa apresenta entre setembro e outubro uma mostra de filmes feitos a partir de arquivos caseiros. São imagens misteriosas, muitas delas de origem anónima, mas com uma ligação direta à arte do cinema, permitindo descobrir, através de histórias íntimas, a história dos portugueses e de Portugal

Regra geral, a vida de cada um acontece mais ou menos em privado. A rua é um intervalo que vai de uma casa a outra casa. Depois sobem-se alguns degraus, abre-se a porta, entra-se em casa e a porta fecha-se. A vida acontece entre paredes e talvez por isso as imagens resgatadas à intimidade carreguem sempre consigo uma certa magia. A magia dos segredos.

Por exemplo: numa zona rural começa a ser construída uma vivenda. Alguém filma as obras e depois os primeiros dias de vida na nova casa, assim como as flores que foram plantadas no jardim à volta. Vemos vários planos de pormenor de flores. A casa é filmada muitas vezes: faz-se uma festa, pessoas dançam e conversam no pátio, e logo depois uma peça de teatro representa-se noutra parte da moradia. A menina do capuchinho vermelho entra no quarto onde está o lobo mau, mas no fim é salva pelo caçador. Quem serão estas pessoas? E quem, há muitos anos, teria dinheiro para filmar tantos minutos em película? E aquele miúdo que faz de lobo mau, será filho da pessoa que filma? Estará vivo? Ninguém sabe.

Pela textura das imagens, será anos sessenta ou setenta. As imagens chegaram à Videoteca da Câmara de Lisboa há décadas, não têm bilhete de identidade e são agora notícia porque foram recicladas do esquecimento pela mão de oito realizadores portugueses. O convite partiu do próprio serviço municipal, que entregou a cada artista um bloco de imagens de uma hora com a condição que dali saísse uma curta-metragem de dez minutos.

Para o realizador José Filipe Costa, “o mistério” em torno do contexto das imagens foi essencial. “O meu filme tira partido desse primeiro impacto - quem são estas pessoas, onde estão, o que estão a fazer, como é que tinham acesso a uma câmara de filmar?” Na curta “Save project...”, o autor de “Linha Vermelha” - documentário de 2011 que revisita o célebre "Torre Bela", de Thomas Harlan, de 1975 - põe dois atores no lugar de realizadores a montar as imagens anónimas. José Filipe Costa gosta de brincar com clichés dramáticos e por isso as suas personagens adicionam sons, cortam cenas, misturam planos, provocam silêncios. Vemo-los refletidos no ecrã do computador onde o filme é montado. Ouvimo-los questionar: quem serão estas pessoas? Que obsessão é aquela com uma casa? É um mistério. Um mistério dentro de um mistério.

Já Margarida Cardoso dá uso à sua própria voz - “era o que tinha mais à mão” - para criar uma curta-metragem que é uma espécie de relato de notícias sobre o zoo de Lisboa, baseado em artigos concretos que encontrou no “Diário de Lisboa” online. No bloco de imagens que recebeu da Videoteca há muito material que remete para épocas específicas: um barco atracado no Tejo com a bandeira nazi (princípio dos anos 40), o parque Eduardo VII coberto de neve (grande nevão em Lisboa em 1954), os militares nas ruas da capital em maio de 1974.

Margarida andou algum tempo a ruminar as imagens e depois, em dois dias, montou o filme como se fosse uma “sinfonia musical triste e relativamente nostálgica”. O fio condutor são os animais do Zoo, essas “testemunhas silenciosas de momentos históricos às quais ninguém dá assim tanta importância”. A realizadora de filmes como “A costa dos murmúrios” (2004) e “Yvone Kane” (2014) chegou até a contactar a direção do Jardim Zoológico de Lisboa para saber quantos anos viveram determinados animais em cativeiro, mas não obteve resposta. “Tenho tendência a trabalhar sozinha: pesquiso, escrevo, faço câmara e som, monto, mas nos projetos maiores luto contra isso. Aqui fiz tudo sozinha.”

Na curta “O prazer de associar”, Jorge Cramez, realizador de “O capacete dourado” (2007), revela em cinco minutos o seu museu pessoal da história do cinema. “No bloco de imagens que me deram, eu encontrei sequências narrativas em que há uma ideia de montagem e uma ideia de enquadramento que me remetem para uma série de cineastas.”

Lumiére, Griffith, Renoir, Rossellini e Bergman são alguns dos realizadores mencionados por Jorge nesta curta-metragem feita a partir de excertos de filmes amadores. Antes de ir para a escola de cinema, tambem ele filmou horas e horas de filme em VHS e miniDV e por isso deixa a questão: terão sido estes autores de cinema amador só amadores ou até pessoas ligadas ao cinema em Portugal? “Muitas das sequências narrativas que vi são claramente de alguém que conhece a linguagem cinematográfica, não são imagens que acontecem aleatoriamente.”

Consciente do valor documental dos filmes amadores está a Videoteca Municipal de Lisboa, que tem em curso uma recolha de arquivos das famílias da capital, oferecendo em troca a digitalização dessas mesmas imagens.

Este ano, para realçar o valor documental e cinematográfico do espólio já reunido, a direção da Videoteca convidou os realizadores Catarina Alves Costa, Edgar Pêra, Jorge Cramez, José Filipe Costa, Manuel Mozos, Margarida Leitão, Susana Nobre e Margarida Cardoso a trabalharem as imagens caseiras do arquivo. O resultado pode ser visto em setembro no Fitas na Rua 2015 - uma programação de cinema ao ar livre que projeta filmes em diferentes espaços de Lisboa - e entre 10 e 11 de outubro na primeira edição da Traça - mostra de filmes de arquivos familiares.

Nessa altura, os realizadores estarão presentes nas sessões para debater com o público a importância dos filmes caseiros para o cinema profissional. Apesar dos mistérios que envolvem o arquivo da Videoteca, uma coisa é certa: dentro do cinema amador cabe a palavra amor, essa condição transversal ao cinema e à vida que tantas vezes acontece em segredo.