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O estranho mundo de Jacques Tati ocupa o Teatro do Campo Alegre

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Jacques Tati numa cena do filme “Playtime - Vida Moderna”

Ao longo do mês será apresentada toda a obra do mais icónico dos realizadores franceses, o que inclui seis longas-metragens e várias curtas

Umas vezes desconcertante, outras perverso, às vezes absurdo, de quando em vez reacionário, com frequência perdido na modernidade do tempo que lhe coube viver, Jacques Tati, autor, realizador e ator dos seus próprios filmes, é um dos nomes maiores da cinematografia mundial e, ao longo deste mês de setembro, toda a sua obra poderá ser revisitada no Teatro do Campo Alegre, no Porto, em cópias digitais restauradas.

Não deixou muitos filmes, mas os que lançou para o mundo constituíram marcos de um tempo muito particular do cinema, concebidos por um homem que era, ele próprio, uma espécie de personificação de uma certa ideia de espetáculo. Não por acaso, antes de chegar ao cinema andara pelo teatro musical e é a partir de 1949, com "Há Festa na aldeia", que abraça uma nova linguagem, a do cinema, embora sempre com escasso uso da palavra. A imagem, a desconstrução da realidade através do olhar e do silêncio, constituíam uma das suas marcas maiores.

O ciclo, com sessões às 18h30 e 22h, arranca hoje com "Trafic - Sim, Sr. Hulot", datado de 1971 e, por isso, uma das últimas obras de Tati. O ciclo prossegue quarta-feira com um programa de curtas-metragens e continua quinta-feira com "Parade", de 1974, o último filme realizado pelo homem que, tendo nascido Jacques Tatischeff em 1907, era descendente de nobreza russa e morreu em 1982. Neste último encontro com o cinema, Tati vai ao circo e apresenta-se como mestre-de-cerimónias.

Sexta-feira será tempo de "As Férias do Sr. Hulot", de 1953. Sábado é apresentado "O meu tio", de 1958, uma violenta sátira à sociedade de consumo que lhe valeu o Óscar para melhor filme estrangeiro. Domingo, com mais uma sessão às 15h30, chega "Playtime", de 1967, o filme que, ao ter constituído porventura a mais monumental das apostas do realizador, foi também, de alguma forma, o coveiro de muitas das suas esperanças devido ao fracasso de bilheteira.

“Playtime” leva à bancarrota

Tido como uma das obras de referência produzidas nos anos de 1960, "Playtime" levou o realizador a construir, com o arquiteto Eugéne Roman, uma miniParis em Saint-Maurice. Era uma estrutura pesada, com edifícios em aço e cimento, muitas fachadas, e dois anos de rodagens muito difíceis, iniciadas em outubro de 1964. Os problemas financeiros agravaram-se de tal ordem que a dada altura houve mesmo necessidade de recorrer à intervenção de Georges Pompidou, à data primeiro-ministro francês, para assegurar apoios á produção. Quando estreou, o filme, não obstante a sua tentativa de apresentar uma visão futurista, parecia falhar nesse propósito. Não teve os favores das audiências e nem conseguiu distribuidor nos EUA. O falhanço comercial deixou Tati na bancarrota, ao ponto de nunca mais ter tentado algo tão ambicioso.

Foi um filme marcante e que o marcou. De tal ordem que, numa entrevista dada nos anos de 1970, Jacques Tati dizia que "Playtime" tinha sido o seu último filme. Era uma afirmação factualmente falsa, mas metaforicamente verdadeira. Isto porque, em boa verdade, depois de "Playtime" nunca mais Tati teve a oportunidade ou a possibilidade de realizar um filme com a liberdade criativa de que até ali desfrutara.

Esta primeira fase do ciclo, que se prolonga com repetições até dia 21, termina com "Há festa na aldeia", de 1949, o primeiro filme com assinatura de Jacques Tati.

Os bilhetes custam €5, mas na compra de quatro entradas é oferecida a quinta.