Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Um fado coreano ou Canções do Norte

  • 333

Estreia esta quinta-feira o documentário da sul-coreana Soon-mi Yoo sobre a Coreia do Norte. Premiado em Locarno e em Lisboa, o filme entra agora em exibição comercial

Um par de trapezistas faz um bailado aéreo seguido por holofotes sobre um anfiteatro cheio. O bailado termina com um salto de cortar a respiração. Seguem-se imagens do lançamento de um satélite para o espaço. Crianças cantam e dançam num palco e uma pergunta olhando para o céu: “que estrela é aquela tão brilhante?”. A irmã mais velha responde: “É o satélite Kwagmyongsong 3 (Estrela brilhante)”.

O filme começa com esta sucessão de imagens, sem que nada as explique a não ser as próprias imagens, numa montagem abrupta que desconcerta o espectador e lhe permite um distanciamento que nos acompanha ao longo de todo o filme.

“Canções do Norte” ensaia uma nova visão do que é a vida na Coreia do Norte de uma forma objetiva. Nem distorcida pela propaganda ultranacionalista do regime do Norte, nem pelos olhos da sátira ou da paródia, muitas vezes também comprometida politicamente.

É este o ponto de partida da realizadora Soon-mi Yoo, nascida em Seul, mas com a omnipresença do Norte no seu crescimento. Tal como a maioria dos coreanos, não esconde o desejo da reunificação do país. “A separação entre o Norte e o Sul era considerada antinatural, como um ser humano partido ao meio. A reunificação era considerada o único remédio, um destino”, explica Soon-mi Yoo.

D.R.

Seria possível uma Coreia do Norte diferente?

Com grande habilidade, Soon-mi Yoo entrelaça o que lhe foi autorizado filmar durante as três viagens que pode fazer à Coreia do Norte (2010-12) com uma panóplia de material de arquivo. Filmes norte-coreanos, imagens de noticiários, circo, espetáculos oficiais, teatro e, sobretudo, canções permitem à realizadora construir um ensaio apaixonado, mas objetivo. É na montagem de todo este material que Soon-mi Yoo tenta responder à questão para a qual nunca conseguiu resposta enquanto esteve no Norte: “como é que conseguem sobreviver?”

Essencial para a narrativa são também as pequenas entrevistas que a realizadora vai fazendo ao pai, a quem dedica o filme. Bem como os, poucos, intertítulos que utiliza para situar o espectador e levantar questões essenciais para a narrativa. “Seria possível imaginar uma Coreia do Norte diferente? Podia-se começar por uns EUA diferentes”, são um bom exemplo disso.

Ver “Canções do Norte” torna-se ainda mais interessante se atendermos que a sua estreia comercial em Portugal coincide com três acontecimentos dignos de nota. Esta semana e pela primeira vez em quase onze anos, a guerra de altifalantes voltou a fazer-se ouvir na fronteira que separa os dois Estados. Há troca de tiros de artilharia, o que não acontecia desde outubro. E nas comemorações dos 70 anos da libertação do país do jugo japonês (15/08/1945), a presidente da Coreia do Sul, Park Geun-hye, foi surpreendida em Seul por um coro de estudantes que cantava “O nosso maior desejo é a reunificação”. A mesma canção que Soon-mi Yoo relembra da sua infância passada em Seul e com a qual começa o seu texto de apresentação do filme.

Coprodução EUA, Coreia do Sul, Portugal 2014
72m | Medeia Monumental | Sessões 19h15 e 20h45

D.R.

Leia este sábado na E a entrevista a Soon-mi Yoo feita por Francisco Ferreira