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Sem filtros nem tabus, Larry King conseguiu pôr Morrissey a falar: “Sou uma pequena coisa sensível”

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Karl Walter / Getty Images

Dez anos depois, a lenda dos The Smiths deu a sua primeira grande entrevista ao vivo. E fala, sem entraves, da política norte-americana (há críticas a Donald Trump e a Obama, que acusa de ser “branco por dentro”), da indústria musical e da sua vida pessoal, marcada por uma doença cancerígena e depressões que teimam em não o largar

Uma década sem grandes entrevistas. E, quando regressa, leva tudo atrás: fala sem tabus da política americana, da indústria musical, da depressão, doença e suicídio. Dramático, cético, no seu estilo ao mesmo tempo elegante e sombrio, Morrissey foi conversando com Larry King sem erguer, aparentemente, grandes muralhas. Por que motivo o decidiu fazer, passados tantos anos? “Por tua causa, Larry King.” A entrevista passou quarta-feira na Ora TV.

Foi também por causa do apresentador norte-americano que o ex-vocalista dos The Smiths falou sobre política. E mostrou apoio à democrata Hillary Clinton na corrida à Casa Branca (este “é o tempo certo para a Hillary”), criticando as candidaturas dos republicanos, “todos iguais”. Incluindo Donald Trump, garante. À superfície não parece igual, “mas no escuro é como todos os outros - é o mesmo tipo de fato e gravata”.

E nem o Presidente norte-americano, Barack Obama, escapa ao olhar crítico de Morrissey. “Dececionou muitas pessoas. Em casos como os de Ferguson não ajudou o seu próprio povo, ao insistir que a razão estava sempre do lado da polícia - o que todos sabemos que não é verdade.” Olhando para Ferguson e outros casos semelhantes que ocorreram nos Estados Unidos, questiona retoricamente: “Portanto, Obama é branco por dentro? É uma questão bastante lógica. Mas penso que provavelmente será”.

Da política para a indústria do “dinheiro fácil”

“Acho que ninguém gosta dela”, respondeu durante a entrevista. Poderia estar ainda a falar sobre política, mas os seus olhos estavam agora postos na indústria musical. “Porquê? Porque é muito difícil, muito brutal.” Para o antigo líder da banda que revolucionou o rock britânico, esta indústria mudou radicalmente nos últimos anos, estando apenas preocupada com o marketing, “não com as pessoas que cantam ou tocam”.

A “música parece estar a morrer”, diz. E, por isso, as grandes editoras procuram “agarrar o mais que conseguirem, o mais rápido que conseguirem”, com programas de talentos “horríveis” numa tentativa de fazer “dinheiro fácil”.

O cão negro, a doença e o suicídio

Já é conhecida a luta de Morrissey contra a doença. Em outubro passado, revelou ter recebido tratamento para uma doença cancerígena (Esófago de Barret, uma forma pré-maligna de cancro), sobre o qual fala agora abertamente. Mas garante estar, neste momento, bem de saúde. “Raspam e ocasionalmente tomo medicamentos, mas estou bem. Muitas pessoas têm isso e morrem, muitas pessoas têm e não desaparecem.”

Toma antidepressivos e luta contra uma depressão desde os 17 anos. “Para mim, nunca melhora”, confidenciou a Larry King. “Tive-a durante muitos anos. Chamo-lhe ‘o cão negro’. Nunca desaparece. É normalmente a primeira coisa que surge quando me levanto, não tem cura.” E confessa que o suicídio já lhe passou pela cabeça.

Para Morrissey, a explicação tem que ver com a sua sensibilidade. “Sou uma pequena coisa sensível, interesso-me muito por poesia e pelo lado poético da vida, e obviamente isso é difícil na vida moderna porque não existe poesia na vida moderna. Não existe nada de muito bom na vida moderna. É muito difícil.”

Felicidade? Felicidade é cantar, estar em cima do palco - sem obstáculos, álcool, sem reservas. “As músicas têm sido a minha vida. Eu pertenço-lhes.” E é assim que termina a entrevista. Com uma música. “Kiss Me a Lot.”