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Muitos falaram, muitos calaram, outros tantos protestaram e ele fez um disco a contar tudo

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Isto é um acontecimento: Dr. Dre, agora com 50 anos e um dos músicos mais bem pagos do mundo, tem disco novo. Daqueles muito americanos e que os americanos adoram - e nós, europeus, fomos ver como é

Helena Bento

Jornalista

No final dos anos 80, Compton, no sul de Los Angeles, Califórnia, era considerada uma das cidades mais perigosas dos EUA. Os crimes e os homicídios sucediam-se em catadupa, uns atrás dos outros. A violência empestara e entranhara-se de tal forma que um dia sossegado, se é que os havia, era um dia absurdo. Os gangues caíam uns sobre os outros e às vezes sobre a polícia e a polícia caía sobre todos, com disciplina admirável. Nada de novo, portanto.

Os que viviam na cidade viviam atarantados, querendo fugir, mas sem saber para onde se virar, até conseguirem, alguns deles, com uma sorte dos diabos, abandonar para sempre aquele lugar. Muitos falaram, muitos calaram, outros tantos protestaram e houve ainda quem fizesse disso tema de canção para chamar o mundo a si, à cidade, e pedir ao mundo para contar ao mundo.

Como os NWA, Niggaz With Attitude, um grupo de hip-hop surgido no final dos anos 80, em Compton, de onde eram oriundos. Algures em meados dessa década foram detidos em Detroit pela polícia depois de terem cantado a famosa "Fuck Tha Police" perante dezenas de adolescentes enfurecidos com vontade de dar cabo do couro aos polícias. "Fuck tha police coming straight from the underground, young nigga got it bad 'cause I'm brown and not the other color, so police think they have the authority to kill a minority". Era também essa a música que se ouvia em alguns carros no verão passado, em Ferguson, em honra de Michael Brown, o jovem negro morto a tiro pela polícia.

Ice Cube, o famoso rapper, era um dos membros dos NWA, assim como o rapper americano Eazy-E. E como Dr. Dre, pois claro. Mais de duas décadas depois de ter ajudado a dar corpo a essa valente malha (incluída no álbum "Straight Outta Compton", de 1988), e lançado dois álbuns que tanta história acrescentaram à história do hip-hop ("The Chronic" e "2001"), Dr. Dre, agora 50 anos e um dos músicos mais bem pagos do mundo, volta com um álbum que promete não fazer por menos.

"Compton: A Soundtrack" é a banda sonora possível de Compton, essa "cidade louca", 27 anos depois. Em "Animals", uma das últimas faixas do disco, Dr. Dre canta: "Alguns de nós foram desequilibrados, mas outros souberam usar os seus talentos. Nem todos somos criminosos, mas os polícias continuam a gritar 'stay back nigger'". Nada de novo, portanto.

"Compton" chega com aura de acontecimento. O último álbum de Dr. Dre, "2001", foi lançado há mais de dez anos, em 1999. Nos entremeios, foi responsável pelo lançamento de artistas como a rapper Eve ou, mais recentemente, Kendrick Lamar, tornando-se um dos produtores de hip hop mais bem sucedidos do mundo, com uma fortuna avaliada em cerca de 623 milhões de euros; fundou uma editora discográfica (a de 50 Cent e Eminem) e uma linha de headphones e equipamento áudio, a Beats by Dr. Dre, comprada em 2014 pela Apple, e prometeu e voltou a prometer e perante o desânimo dos fãs renovou a promessa, e voltou a renovar, de que ia lançar um novo álbum, "Detox", que nunca chegou a ver a luz. "O álbum não era bom, simplesmente. Não gostava dele. Deu-me muito trabalho, mas acho que não consegui obter um bom resultado e, para ser absolutamente honesto, não podia fazer isso nem aos meus fãs, nem a mim próprio", disse em entrevista, citado pela publicação digital americana Stereogum.

Mas este "Compton: A Soundtrack" saiu mesmo, a 7 de agosto, até ver em exclusivo na Apple Music: conta com a participação de vários músicos, desde Kendrick Lamar, Snoop Doog, Ice Cube, Eminem e Jill Scott, a Justus, King Mez e Anderson Paak (menos batidos nestas andanças), como um grupo de velhos amigos que se reúne ao fim de uma carrada de anos para assar chouriço e beber cerveja no pátio de um deles, num domingo à tarde, enquanto ali perto, talvez no mesmo quarteirão, quem sabe ao fundo da rua, o polícia branco continua a partir o canastro ao puto negro e o puto negro continua a partir o canastro ao puto negro e a quem tiver o azar de lhe aparecer à frente, sem que eles, os velhotes de copo na mão, precisem de ver para saber, porque já viram esse filme antes, exatamente o mesmo, muitas vezes, demasiadas, e sabem que muitos outros, a seguir a eles, também o irão ver. "Compton: A Soundtrack" é a banda sonora possível da cidade de Compton, essa "cidade louca" onde a realidade está longe de se ajustar às estatísticas, onde afinal pouco ou nada mudou.