Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

O nosso tio Tati, atrevido e corajoso

  • 333

Jacques Tati numa cena do filme “Playtime - Vida Moderna”

O "mestre da comédia" vai regressar aos nossos cinemas. E haverá inéditos entre nós

Helena Bento

Jornalista

Uma casa muito moderna e muito nova, muito "high-tech", num quarteirão muito arrumadinho. Tudo é novo nela: o jardim é novo, os eletrodomésticos são novos, os livros são novos. O sr. Hulot, o tio estouvado, toca à campainha e a porta abre-se para lhe dar passagem. Assim há de acontecer uma série de vezes, e de cada vez ele há de entrar desvairado virando tudo de pernas para o ar, ou não fosse também assim o cinema de Tati, atrevido e corajoso.

"O Meu Tio" (1958), de Jacques Tati, é um dos filmes que vão ser exibidos no âmbito do ciclo dedicado ao realizador francês de ascendência russa, nascido em 1907 em Paris. Depois do sucesso dos ciclos anteriores (Ingmar Bergman, Roberto Rossellini, Yasujiro Ozu, entre outros), que se traduziu em várias sessões esgotadas, a Medeia Filmes, produtora de Paulo Branco, volta à reposição de clássicos em versões digitais restauradas.

O ciclo arranca no mês de agosto em Lisboa (dia 20, no Cinema Nimas) e em setembro no Porto (a partir do dia 1, no Teatro Municipal Campo Alegre). Vão ser exibidas as seis longas-metragens realizadas por Tati, bem como sete curtas de exibição inédita em Portugal, escritas ou interpretadas pelo cineasta. O ciclo será acompanhado nos dois espaços de uma exposição de cartazes que ilustram cada um dos seus filmes, criados por ilustradores portugueses, entre eles André Letria, Madalena Matoso, Catarina Sobral, João Fazenda, Marta Monteiro e Sara-a-Dias, a convite da organização.

A iniciativa é justificada pela necessidade de "evidenciar a transversalidade artística do universo de Jacques Tati", que tem servido de inspiração a ilustradores, pintores e outros artistas, com trabalhos criados partir das personagens e cenários do conhecido "mestre da comédia", e a "relação estreita com a ilustração que a sua obra contém desde cedo, a qual se estende até aos dias de hoje", lê-se na nota de imprensa.

No ciclo, além de "Sim, Sr. Hulot", serão ainda exibidos "Há Festa na Aldeia", primeiro filme de Tati (1949) e protagonizado pelo próprio (vemo-lo interpretar François, um carteiro que não vê forma de se adaptar à aldeia e sonha atingir a velocidade do serviço postal americano na sua bicicleta decrépita), "As Férias do Sr. Hulot" (1953), exibido em Cannes e nomeado para os Óscares, e no qual surge pela primeira vez Hulot ("alter-ego" do realizador), um homem alto e estouvado que anda sempre a passarinhar de cachimbo na boca, "O Meu Tio" (1958), que lhe valeu em 1959 o Óscar de melhor filme estrangeiro, "Playtime - Vida Moderna" (1967), em que Tati filmou a vida moderna em Paris, para gaúdio da crítica e horror do público (o "flop" foi tal que o realizador francês passou o resto da vida a pagar dívidas) e "Parade", o filme com que se despediu na década de 1970, feito para a televisão sueca.

A eles juntam-se sete curtas-metragens "Procura-se Brutamontes" (1934), de Charles Barrois, "Domingo Animado" (1935), de Jacques Berr, "Cuida do Teu Gancho Esquerdo" (1936), de René Cleement, "A Escola de Carteiros" (1946), de Tati, "Aulas Nocturnas" (1967), de Nicoolas Ribowski, "Especialidade da Casa" (1976), de Sophie Tatischeff (filha, montadora e assistente de Jacques Tati), e "Força, Bastia" (1978), feito a meias entre pai e filha.