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Em Melgaço, o cinema transforma a vila e convida à memória da epopeia da emigração

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Neste fim de semana, em Melgaço, ouvem-se ao longe os foguetórios e o ritmo de cantigas de festas populares. Se agosto é, a norte do país, um espaço privilegiado para o reencontro de famílias com histórias de emigrantes, Melgaço transformou-se no epicentro dessas memórias.

Uma parceria entre a associação AO NORTE, de Viana do Castelo, e a Câmara local foi capaz de conceber um acontecimento cinematográfico diferente de outros existentes, nomeadamente de festivais.

Chama-se Filmes de Homem, um festival internacional de documentário, e já se impõe, nesta segunda edição de 2015, no panorama cultural do Alto Minho, na sequência da ação cultural e museológica no concelho. Tem por objetivo cativar os olhares, o interesse e a intervenção das populações e de cineastas e estudiosos de todo o país em torno das questões da memória. D nossa memória individual, da forma como ela se plasma com a memória do país de todo um povo. O conceito de fronteira, posto que Melgaço é terra umbilicalmente ligada à Galiza, é igualmente um tema maior do projeto.

De cariz antropológico, o que se quer é pugnar por tecer historicamente os percursos humanos, mormente este ano em que o tema central é o das migrações. Aproveita-se o facto de haver uma iniciativa destas para preencher outras lacunas: se o fenómeno migratório por estas paragens data já dos anos 50 de século passado, foi esforço deste último ano a investigação que recolheu depoimentos e imagens que são fundamentais para se perceber a saga dos portugueses em busca de melhores tempos, tendo que partir, então como agora, de uma terra sua que é madrasta por vida de governantes impiedosos. Uma exposição garante que a emigração se faz sobremaneira com o sofrimento da separação de famílias, com a ansiedade de quem não sabe o que o espera, com o desgosto do isolamento.

Mas a série de filmes programados nesta semana que amanha termina é o essencial da

iniciativa, traz às instalações à casa da cultura de Melgaço uma série de obras de vários países sobre o dilema das migrações com cineastas e críticos participantes em debates e colóquios, para além de uma residência fotográfica, workshops, seminários e mesas redondas. Uma exposição em torno da obras do cineasta Manoel de Oliveira, há anos ligado á atividade da associação AO NORTE é oportunidade para destacar o Museu de Cinema de Melgaço Jean Loup Passek. Um espaço museológico destinada á arte cinematográfica no extremo norte de Portugal? Exatamente porque este grande crítico, professor e investigador francês de cinema quis entregar a esta terra o seu espólio. Assim pôde acontecer uma surpreendente aposta: a criação de um espaço onde locais e forasteiros têm, muitas vezes pela primeira vez e de forma inesperada, contacto com a história do paradigma da imagem que moldou a nossa civilização há mais de um século.

O encerramento será com chave de ouro, amanhã, domingo, às 22h. No recinto da torre de menagem da fortificação da vila, preservada, será projetado um clássico essencial para melhor

compreendermos o esforço da nossa emigração clandestina da década de 60 do século XX: o filme “O Salto”, realizado pelo cineasta francês Christian de Chalonge em 1973. Narra o feito de um grupo de emigrantes em fuga de Portugal até França e da sua vida em Paris, á chegada. A sessão será apresentada e debatida pelo compositor e cantor Luís Cília – que viveu exilado por anos em Paris e conviveu intimamente com a nossa comunidade emigrante – e pelo produtor Henrique Espírito Santo. O filho deste, Octávio Espírito santo, conhecido diretor de fotografia de muitos filmes franceses e portugueses, trará o seu testemunho de emigrante da terrível “fase recente” do drama dos que têm que expatriar-se para não perecerem na terra-mãe.

*O jornalista viajou para Melgaço, a convite da associação de AO NORTE