Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A sua voz é “ampla, profunda, a memória dir-se-ia um conservatório de combates”. Para Ana Hatherly

  • 333

Júlio Almeida

Teve uma infância “severa”, “muito solitária e sem irmãos”, nem ninguém por perto para brincar. Mais tarde, há de sentir-se grata por essa severidade - “isso preparou-me para as agruras que vieram”. Ana Hatherly, artista plástica, poeta, romancista, ensaísta, realizadora e tradutora, morreu esta quarta-feira, aos 86 anos

Helena Bento

Jornalista

A sua voz é "ampla, profunda, a memória dir-se-ia um conservatório de combates, grito inaudível de um poeta-pintor que com a própria vida cria a sua arte de ver", escreveu Ana Marques Gastão, poeta e crítica literária, na revista brasileira "Agulha", em 2003. Ana Hatherly era fogo e tranquilidade na mesma medida, justa e equilibrada.

Integrada na corrente experimentalista dos anos 60 em Portugal, Ana Hatherly explorou as mais diversas possibilidades visuais da palavra e da caligrafia e a relação entre desenho e escrita. "Vejo que trabalhei imenso e acreditando no que estava a fazer. Apesar de ter sofrido bastante, trabalhei sempre com amor. O meu trabalho, quer nas artes, quer nas letras, foi o meu refúgio e o meu consolo, e quando vejo que é estimado, penso que talvez tenha valido a pena", disse a escritora e artista plástica em entrevista à revista brasileira "Via Atlântica", em 2007.

Ana Hatherly nasceu no Porto em 1929. A sua infância foi, nas suas próprias palavras, "muito solitária, sem irmãos", sem ninguém da sua idade com quem brincar, "numa época em que a educação era muito severa dentro da burguesia". Mais tarde, há de sentir-se grata por tamanha severidade - "isso preparou-me para as agruras que vieram" - e de recordar as histórias que a avó lhe contava e que ainda sabia de cor, a avó com quem entrava de mão dada na igreja das flores e do incenso e dos anjos que diziam adeus com a mão.

Licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, frequentou a London Film School, na área de estudos cinematográficos, e doutorou-se em Literaturas Hispânicas na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA).

Foi professora na escola de artes visuais Ar.Co, na Escola Superior de Cinema e no departamento de Literatura Portuguesa da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde ajudou a fundar o Instituto de Estudos Portugueses. Destacou-se como especialista do barroco.

Em 1958, iniciou a sua carreira literária com a publicação de "Um ritmo perdido" e "As aparências". Um ano depois, começou a dedicar-se à poesia concreta e experimental, sendo considerada uma das artistas mais relevantes das vanguardas literário-artísticas portuguesas da segunda metade do século XX. Esteve associada à revista "Poesia Experimental", organizada por Herberto Hélder e António Aragão, e da qual saíram dois volumes, o primeiro em 1964 e o segundo em 1966.

Na mesma entrevista à revista "Via Atlântica", por ocasião dos 50 anos de atividade literária, Ana Hatherly diz que o seu trabalho se sustenta na ideia de que a escrita é uma "pintura de signos" e "uma aventura física e mental que aspira a uma forma de conhecimento", a uma "forma de perceber, de sentir e comunicar através de signos, que podem ser palavras ou não".

Em 1976, a escritora e artista plástica participou na Bienal de Veneza (a mais importante bienal de arte do mundo), onde estreou o seu filme "Revolução", um retrato de Lisboa pós-25 de abril de 1974 construído a partir de imagens de paredes, murais e "graffitis".

Luís Miguel Oliveira, crítico de cinema do "Público", diz que durante um período dos anos 70, "o cinema foi uma preocupação artística central para Ana Hatherly, resultado daquilo que ela descreveu (…) como a necessidade de trazer à sua vida alguma 'novidade', alguma 'rotura'". Durante a sua estadia em Londres, produziu vários filmes de animação, tendo-se estreado no campo do documentário quando voltou a Portugal, a seguir ao 25 de abril, acrescenta o crítico, citado pelo mesmo jornal.

Em 1978, foi distinguida pela Sociedade Brasileira de Língua e Literatura e em 2009 foi condecorada como Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, tendo ainda sido premiada pela Associação Portuguesa de Escritores e pelo PEN Clube.

De acordo com a Fundação Calouste Gulbenkian (onde se encontra presente parte da sua obra), está em curso a tradução para língua francesa da novela "O Mestre", bem como um volume de homenagem publicado pela Universidade Federal Fluminense no Brasil e outro de ensaios, pela Theya, que completa uma trilogia sobre o barroco.

O funeral de Ana Hatherly realizou-se esta quinta-feira, pelas 17h, na Basílica da Estrela, em Lisboa. No dia seguinte, no mesmo local, celebra-se uma missa pelas 14h30, saindo depois o corpo para o cemitério dos Olivais.