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Os puzzles do André

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O cartoon “Ébola”, publicado originalmente no “Diário de Notícias”, foi galardoado com o Grande Prémio do World Press Cartoon 2015

André Carrilho

Ele, que é ilustrador e recebeu em julho o Grande Prémio do World Press Cartoon (a somar aos vários que já conta), diz que não é espontâneo (e quando lhe pedem para ser tem medo de falhar). Fazer um cartoon, uma caricatura, uma ilustração é para André Carrilho o mesmo que resolver um quebra-cabeças, na cabeça e no papel, até chegar a um resultado final

O puzzle está montado. Todas as pequenas peças, outrora soltas e confusas, encaixam de tal forma que permitem ver a composição que delas emerge. Não é fácil desmontar um puzzle quando o resultado está à vista e tudo parece óbvio. Mas esse “tudo” tem também um princípio: começa com um conjunto de ideias soltas, fragmentadas, com ou sem sentido.

“O cartoon é um puzzle que tenho que resolver”, diz ele, que é cartoonista, caricaturista, animador e ilustrador e, antes de mais, designer (pelo menos é esta a sua formação de base). “Para mim, é como entrar num processo de raciocínio. Vou buscar vários ângulos, ideias, e combino-os de forma simples numa ideia que é minha, que possa ser sintetizada numa imagem.” Uma imagem forte, daquelas que conseguem “ser apreendidas rapidamente – é preciso que sejam apreendidas rapidamente”.

Foi em agosto do ano passado que ele, André, conseguiu finalizar mais um puzzle. Na cabeça e no papel. Os ingredientes estavam à sua volta, na atualidade, como habitual (é isto, aliás, que faz semanalmente com os cartoons que desenha para o “Diário de Notícias”): a epidemia do ébola a alastrar; a forma como a comunicação social a noticia; os condicionamentos que ditam o que é ou não notícia. Trabalhadas, depuradas e relacionadas, as ideias deram forma a uma composição final. E o que vemos nesse puzzle é ao mesmo tempo óbvio e surpreendente. Camas geometricamente alinhadas, com pacientes nelas deitados. Dois repórteres, um único foco: no meio de fileiras de negros destaca-se um branco – os jornalistas encontraram a sua notícia.

“A epidemia do ébola durava já há algumas semanas em África, mas quase não era noticiada”, diz ao Expresso André Carrilho, explicando o contexto do cartoon que lhe valeu em o Grande Prémio do World Press Cartoon. “Só quando chegou a Dallas [Texas, EUA] e depois a Madrid – só quando começou a ameaçar o Ocidente – é que as notícias ganharam um outro tom, uma outra voz. Começou a haver uma histeria, cada vez mais artigos sobre o assunto.” E, em pouco tempo, o desenho – partilhado por si nas redes sociais – tornou-se viral.

Horas e horas a olhar para o teto

Embora simples e direto, o estilo de André (dos seus cartoons, caricaturas ou outras ilustrações) não é imediato. “Preciso de muito planeamento, o desenho não me sai tão espontaneamente como a outros ilustradores. Tenho um estilo demasiado depurado, muito tratado.” Assim, pode passar uma semana a pensar num cartoon, para depois o fazer durante quatro horas, servindo-se do lápis, papel, Photoshop. “Passo grande parte do meu tempo sentado ou deitado a olhar para o teto, a pensar no que vou fazer.”

António Lobo Antunes, New Yorker

António Lobo Antunes, New Yorker

André Carrilho

É então preciso pensar, pensar, combinar pontos de vista, formar ideias novas. É um processo que leva o seu tempo e André não tem jeito (ou pelo menos não gosta) de pedidos imediatos. “Quando, num jantar com amigos, me pedem para fazer uma caricatura de alguém fico sempre atrapalhado, com medo de falhar.”

Partindo do exterior, as suas viagens são mais interiores. Gosta de executar em casa (e por casa leia-se o apartamento onde vive nos Olivais, em Lisboa) e, como trabalha e comunica muito por email, não precisa de se deslocar a outro país – apesar do vasto currículo que já tem cá dentro e lá fora (desde 1996 que trabalha para publicações nacionais e internacionais e, quando em 2002, foi galardoado com o primeiro prémio na categoria de “Illustration Portfolio” pela Society for News Design, abriram-se-lhe muitas portas: a do “The Independent on Sunday” e a do “New York Times” foram duas delas). Já tentou, inclusive, viver “noutros sítios”, mas acaba sempre por regressar à base. “Sinto-me sempre acampado nos outros países… Para que é que hei de estar a gastar dinheiro a viver em Londres ou em Nova Iorque quando posso fazê-lo na minha cidade?”

Lisboa Que Amanhece, Editora Abysmo

Lisboa Que Amanhece, Editora Abysmo

André Carrilho

A sua cidade é Lisboa, mas foi Macau que lhe serviu de rampa de lançamento profissional, evitando assim que ficasse a desenhar para o boneco. Desde cedo começou a fazer caricaturas de familiares (incentivado pela mãe e pelo tio, que também desenhavam) e se apercebeu que as pessoas gostavam daquilo que fazia. “Até eu ficava surpreendido por estar tão parecido”, admite. E quando, no 12º ano, a mãe foi viver para Macau e o levou atrás, descobriu que afinal – e ao contrário do que lhe diziam algumas pessoas – era possível ganhar dinheiro com isso. Incentivado por dois amigos da mesma área, começou a trabalhar aos 17 anos para jornais em Macau.

E daí foi saltitando de jornal em jornal, nacional e internacional, conseguindo algumas bases sólidas. “Tive sorte.”

Bob Dylan, Word Magazine

Bob Dylan, Word Magazine

André Carrilho

A força de um cartoon

O que define a força de um cartoon? André não sabe. “É o mesmo que perguntar ‘qual a regra para que uma piada resulte?’.” Bem, a piada tem de ter graça, da mesma maneira que o cartoon tem que ter um ângulo humorístico, explica. “Às vezes pode parecer inesperado, mas quando o vemos quase parece óbvio.”

Por outras palavras: simplicidade e originalidade. As mesmas caraterísticas que já procurava em tantos outros antes de si. Quando era pequeno, recortava e colecionava o “Cartoon do António” que saía (e sai) todas as semanas com o Expresso. O António do Expresso, como lhe chama, é uma das suas referências, a par de outros, como o João Abel Manta, o Stuart Carvalhais… Mal sonhava em pequeno que se tornaria um dos ilustradores portugueses mais reconhecidos nacional e internacionalmente, com vários prémios no currículo. Na altura já queria seguir esta área, mas todos à sua volta lhe diziam ser impossível. Não foi e a sua vida já lhe provou isso mesmo, muito antes de receber o Grande Prémio do World Press Cartoon pelo seu “Ébola”.

Russell Brand & Vladimir Putin, Vanity Fair

Russell Brand & Vladimir Putin, Vanity Fair

André Carrilho

Agora é ele uma fonte de inspiração para muitos. Ilustrações fortes, ideias fora da caixa. Como aquela que, no início do ano, fez capa do “Diário de Notícias” (DN) após o ataque terrorista ao Charlie Hebdo, em Paris. “Tinha acabado de chegar de uma viagem ao Oriente, o DN pediu-me a capa logo no dia em que cheguei.” O desafio não era fácil: a tragédia já tinha sido retratada e replicada nos mais variados formatos. “Pensei inicialmente na raiva que sentia, na indignação que o ataque provocava… Mas depois decidi adotar um ângulo mais de esperança.”

Assim fez. E o pequeno lápis, estragado por um corte, manchado de sangue, mas de raízes profundas, passou uma mensagem que dificilmente será esquecida: por mais que nos ataquem, por mais que nos tentem silenciar, as raízes estão e vão continuar aqui. As raízes da liberdade de expressão.

Somos Todos Charlie, Diário de Notícias

Somos Todos Charlie, Diário de Notícias

André Carrilho


A exposição do World Press Cartoon “TOP 50”, com os melhores cartoons de 2015, pode ser visitada na Cidadela de Cascais até 27 de setembro