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Brando. Um homem assombrado pela memória

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Listen To Me Brando// Youtube

Estreia esta semana em Londres, Nova Iorque, Los Angeles e Melbourne o documentário “Listen To Me Marlon”. A vida do monstro do cinema narrada pela sua própria voz, num trabalho que pesquisou mais de 300 horas de gravações inéditas

Teve uma vida tumultuosa, conturbada, entre a glória e a perdição. Falamos de Marlon Brando, um dos grandes senhores do cinema americano, cuja carreira tocou várias gerações. Em 1954, quando Brando tinha apenas 30 anos, o filme “Há Lodo no Cais” de Elia Kazan, garante-lhe o primeiro de dois óscares como melhor ator principal. O segundo chegaria em 1972, pelo seu de desempenho em “O Padrinho” de Francis Ford Coppola. Brando estava no auge da carreira e os anos mais difíceis de um destino intranquilo só chegariam duas décadas depois quando, em 1990, o seu filho Christian assassinou Dag Droller.

Dag era o namorado de Cheyenne, a filha mais nova de Brando, que tinha então 25 anos. Assolada pelo desgosto, Cheyenne afasta-se da família mas nunca consegue recuperar. Suicida-se em abril de 1995.

Christian, o meio irmão que matara o namorado de Cheyenne, estava na prisão de Santa Mónica onde começou a consumir drogas. Sai em 1996 com vários problemas de saúde que haveriam de estar na origem da sua morte em 2008.

Esta tragédia familiar mexeu com os fantasmas de Brando, que enquanto criança foi abusado pelo próprio pai. Filho de uma mãe alcóolica, afeiçoou-se à empregada asiática da família; mais tarde ela também haveria de partir.

Depois da morte da filha e da prisão do filho, Brando inicia uma longa luta interior na na solidão da sua casa de Beverly Hills; procura desesperadamente a paz interior. É assim que começa a gravar horas e horas de monólogos sobre os seus fantasmas, memórias, projetos e desejos.

O documentário “Listen to me Brando” tem 1h45 minutos de duração. Mas o realizador Stevan Riley e o produtor John Battsek ouviram perto de 300 horas de gravações de Brando para Brando.

“O que tu és, não é desejado. Procuras uma identidade que te pareça aceitável”, mas para isso a “primeira pessoa que tens de enganar és tu próprio. Mentes para ter paz, mentes para ter tranquilidade, mentes por amor”. Brando procura assim aproximar-se daquilo que é “ser humano”.

O homem que os portugueses quiseram ver em pleno desabrochar da democracia pela seu desempenho em “O Último Tango em Paris” - o primeiro filme erótico a passar nas salas de cinema portuguesas depois do 25 de Abril de 1974, nasceu a 3 de abril de 1924 em Chicago.

Marlon por Marlon

Quando decidiram fazer “Listen To Me Brando” o produtor John Battsek e o realizador Stevan Riley, não esperavam ter tantas gravações de Marlon Brando, feitas pelo próprio. Foi nesse momento que decidiram explicar Marlon e a sua vida, usando apenas a sua voz.

“E se a história toda fosse contada pela voz de Brando? Foi um tiro num escuro” explica Riley ao L.A Times. Contudo Riley e Battsek receberam a bênção da família Brando e dos gestores do seu património, e puseram mãos ao trabalho, escolhendo e procurando pelas horas e horas de áudio pela história de Marlon Brando, como se viu, o que viveu.

O resultado chegou ao festival de Sundance em janeiro, e estreia esta semana em Melbourne, Nova Iorque, Los Angeles e promete oferecer uma experiência inesquecível, pelo menos para quem conheceu o ator.

Para Ava Douglas, gestora do espólio do ator, não era fácil prever como iria correr a experiência: “Não tínhamos a certeza se dava para contar toda a história através da voz de Brando... O Stevan desvendou uma forma de contar a história sem inserir qualquer outra pessoa, como podemos ver no documentário” disse ao L.A Times.

Também Rebecca Brando, uma das filhas mais velhas do actor, ficou emocionada pelo documentário. A filha do ator foi a primeira a sair da sala de cinema no festival Sundance, onde o filme foi estreado. Battsek reconta: “Saí à procura dela e encontrei-a sentada no exterior do cinema a chorar porque era demasiado emocional e difícil. Estava sentada na companhia do pai pela primeira vez numa década a ouvi-lo falar e contar as viagens pela sua vida”.

Um homem solitário

“Eu acho que ele sofria de falta de afeto” diz Riley, o realizador depois de ter terminado o filme. O realizador que durante horas analisou e ouviu a voz solitária de Brando diz que estava na presença de um homem “que não era mau, mas que estragou muita coisa. Sofria muito de egoísmo”.

“Era um homem à procura de amor. Não conseguia superar o abandono da mãe, da empregada. Perseguiu o amor do pai, mesmo no fim. Era um homem-criança, preso pela fama e solitário”, concluiu o realizador.

O herói de “Há lodo no cais”, e a sua inesquecível participação [ainda que secundária] em “Um elétrico chamado Desejo”, conduziram-nos aos grandes papéis dos filmes de Coppola “O Padrinho” e “ Apocalypse Now”.

Morreu a 1 de julho de 2004 na Califórnia. Tinha 80 anos, estava obeso e disforme. Mas a memória que guardamos é a do grande ator de Hollywood, que iniciou a carreira em 1950 com a sua participação no filme "O Desesperado" de Stanley Kramer.