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Jimmy Page: “Nunca me faltou motivação”

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Kevin Winter/ Getty

A propósito das reedições, no dia 31, de “Presence”, “In Through the Out Door” e “Coda”, dos Led Zeppelin, o Expresso foi até Londres e entrevistou, com Zé Pedro, dos Xutos & Pontapés e fã de longa data da banda britânica, o lendário guitarrista

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

Como se sente, agora que a campanha de reedições que lhe ocupou tanto tempo está a chegar ao fim?

Sinto-me muito bem, porque tem sido um sucesso e, felizmente, logo desde a reedição dos três primeiros álbuns, com todo o trabalho que fizemos — as sessões de escuta, a promoção junto da imprensa — as pessoas perceberam bem o que ali vinha. Em vez de ser mais uma banda a reeditar o seu catálogo, ou uns álbuns em vinil com uns extras, não: ia ser muito mais substancial. E o sucesso da empreitada, a forma como foi recebida pelo público, foi muito excitante, soberba! Também em relação à reedição [na próxima sexta-feira] destes três últimos álbuns, “Presence”, “In Through the Out Door” e “Coda”, tem havido muita expectativa. Como devem imaginar, isto envolveu muito trabalho: passei centenas de horas a ouvir velhas gravações para finalizar tudo. Por todas estas razões, sinto-me muito positivo, porque há dois mundos dos Led Zeppelin: o mundo dos concertos e o mundo dos estúdios, e este é tão representativo, devido à qualidade do material, que tem mantido o perfil da banda em alta junto dos músicos e das pessoas que gostam de música ao longo destes anos todos. Poder visitar os álbuns de estúdio e lançá-los com a melhor qualidade possível, neste século [deixa-me muito satisfeito]. Dantes havia nove álbuns, agora temos o dobro do material para ouvir. E era isso que eu queria.

Voltar a ouvir toda a música que os Led Zeppelin gravaram deve ter-lhe trazido muitas recordações. De que discos tem as melhores, e as piores, memórias?

Tenho sempre grandes recordações. É como quando me perguntam qual o momento mais avant-garde dos Led Zeppelin. É o “Led Zeppelin I”, claro! Se olhares bem para esse disco e para aquilo que representa, é realmente avant-garde: os vários tipos de música lá incluídos, as abordagens, o empenho... todas as nossas facetas, a elétrica, a acústica, os blues... boom! Tocar guitarra com o arco de violino, por exemplo, quebrou todas as tradições! E há outra coisa: foi o sucesso desse álbum, e do grupo, com os seus concertos e as suas gravações, que nos permitiu fazer o segundo álbum, o terceiro, o quarto... Quando me perguntam isso, digo sempre: tem de ser o primeiro, porque sem esse não havia mais nada!

Porque é que considera “Presence”, o penúltimo disco dos Led Zeppelin, um dos mais importantes da banda?

Pelas circunstâncias em que foi escrito, o “Presence” é um disco intenso. É profundo, é negro, e tem uma certa energia que poderá ter a ver com as condições em que foi escrito — se o Robert [Plant] não tivesse tido aquele acidente [de automóvel], que o obrigou a gravar as vozes de perna engessada, [talvez o disco fosse diferente]. Mesmo ele não sabia se ia conseguir voltar a andar, ou se ia ficar manco, ou se ia conseguir ficar de pé nos concertos sem se sentir complexado. Não sabíamos nada disto. O que sabíamos é que a música que estávamos a fazer refletia o momento que atravessávamos naquela precisa altura. Tal como todos os álbuns que o antecederam, de resto, mas muito concentrado, focado!
Manteve sempre essa vontade de trabalhar afincadamente — nunca lhe faltou motivação?
Não, nunca faltou. E, aliás, não mudei: ainda sou assim. Até podes perceber isso por este projeto: demorei muito tempo a ouvir aqueles álbuns todos, estava tudo em fita analógica. Mas agora, ao ouvires tudo, percebes que queria acabar em grande. Para deixar as pessoas a pensar: Oh, meu Deus, eles eram mesmo bons!

Tem uma guitarra portuguesa — chegou a tocá-la?

A afinação é diferente e eu perdi o livro que explicava como se afinava. Mas para mim não era muito complicado: se pensares em coisas como as que fiz no nosso terceiro álbum, como ‘That’s the Way’, com o dulcimer... Eu descobri a guitarra portuguesa muito tarde, porque se a tivesse conhecido na altura dos Led Zeppelin sem dúvida que a teria tocado nos discos! Não é heavy metal, mas são cordas na mesma! [risos]

Quando John Bonham, o baterista da banda, morreu, em 1980, não pensaram substituí-lo e continuar com outro músico no seu lugar?

Eu não, mas toda a gente no meio sim. Qualquer pessoa que, naquela altura, pudesse fazer dinheiro connosco, pensou fazê-lo. Mas seria desrespeitoso. Tomámos a decisão certa. Era a única forma de mantermos a nossa honra. Se qualquer um de nós tivesse a infelicidade de desaparecer, naquela altura, não íamos querer substituí-lo. Porque o faríamos? Estaríamos a manchar a memória de algo que era tão precioso e bom.

Foi muito complicado preparar o “Coda”, o vosso disco póstumo, sem John Bonham?

Foi difícil. Contudo, houve uma coisa que me fez continuar a trabalhar, concentrado, na maioria dos dias: o ‘Bonzo’s Montreux’ [faixa gravada em 1976 e incluída neste disco de inéditos]. Tínhamos uma misturazinha roufenha, feita nuns estúdios de Montreux, em 24 pistas. Mas aquilo tinha tanta coisa que o engenheiro de som já estava pelos cabelos. O tema precisava de ser misturado como deve ser, e foi isso que eu fiz. Queria muito fazer o melhor que conseguisse, em memória do John e do amor que tinha por ele. Foi complicado. Mas, quer fosse na altura da perda do John ou décadas mais tarde, o que temos ali é sempre uma celebração da forma como ele tocava. Põe-te um sorriso na cara. É uma completa maravilha.

Concorda que os Led Zeppelin estiveram para os anos 70 como os Beatles para os anos 60?

O que eu diria é que os Beatles, desde o seu primeiro álbum, “Please Please Me”... a forma como cresceram, evoluíram e amadureceram foi extraordinária. Isso é um facto. E os Beatles mudaram, também, todo o negócio da música, naquela altura. Quebraram um certo elemento da estrutura corporate. [Quando era adolescente, no início dos anos 60] toquei num belo grupo, os Neil Christian & The Crusaders. O que se fazia naqueles dias era pegar num cantor para ele gravar um single, com músicos de sessão. Punham os músicos a fazer versões de canções americanas, e pediam a um amigo ou a um produtor para escrever os lados B. Isto foi assim durante anos e anos! Quando os Beatles apareceram, eles escreviam as suas próprias canções e a indústria passou a perguntar às bandas: quem é que escreve as suas próprias canções? Mas a ironia é que também acabei por ser um músico de sessão, fazendo exatamente o que me acontecera em miúdo.

Como é que consegue ter um ar tão saudável e jovem aos 71 anos?

Hum... Tive uma vida interessante nos anos 60 e 70. Tive uma vida muito interessante nos anos 80. E nos 90. E há 15 anos tomei a decisão de deixar de beber. O que foi importante para mim, porque estava cansado de acordar de ressaca. Foi tão simples como isso: se calhar podia continuar a forçar o meu corpo, mas chegou a altura de parar. Por isso, se te pareço relativamente saudável ou em forma, é o resultado de ter deixado de beber. Keep drinking while you can, folks!