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Vidas cruzadas de um mestre com um aprendiz

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Rui Duarte Silva

Mário Cláudio é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de escritores (APE). Valdemar Cruz escreve sobre o romance premiado, “Retrato de Rapaz”, que explora a pulsão sexual existente na relação entre Leonardo da Vinci e o adolescente aprendiz Salai

Aos 74 anos, o escritor Mário Cláudio está cada vez mais interessado em observar as dinâmicas inerentes ao envelhecimento e às conexões inter-etárias, até pelo interdito que as convenções sociais têm vindo a colocar no relacionamento entre pessoas de idades distintas, sobretudo se está em causa uma acentuada diferença geracional. “Retrato de Rapaz”, o romance agora premiado - e apresentado por Alexandre Quintanilha na Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto quando foi lançado, em junho de 2014 -, faz parte de uma trilogia que inclui "Boa Noite, Senhor Soares" e “O Fotógrafo e a Rapariga.

A escolha das Belas Artes acaba por constituir uma homenagem ao local onde pode ser visto o único desenho existente em Portugal da autoria de Leonardo da Vinci, com o qual Mário Cláudio contactou pela primeira vez em março de 2012 durante a exposição “Cinco séculos de Desenho” na coleção daquela faculdade. Ver “Il Bagnetto” (a imagem de uma mãe a dar banho ao seu filho) foi o momento inicial, porventura o instante em que a si próprio o escritor lançou o desafio de escrever sobre uma figura única, um dos nomes maiores do Renascimento, adepto de um permanente questionamento dos saberes instituídos ou das verdades estabelecidas. Depois há a conjugação de algumas confluências, como a circunstância de, entre outras, ter lido a biografia de Leonardo intitulada “Leonardo Da Vinci: The Flights of the Mind”, de Charles Nicholl.

Acresce, depois, o fascínio pelos muitos mundos contidos naquela personagem singular, que em si mesma encerrava múltiplas personalidades, como a de cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, arquiteto, escultor, botânico, escritor e pintor, porventura a faceta mais reconhecida pelo grande público.

Rui Duarte Silva

A riqueza e diversidade projetada por uma figura sem paralelo tem motivado as abordagens mais absurdas e também destruidoras da consistência e da seriedade do trabalho de alguém que fazia da permanente insatisfação uma das suas ferramentas e, às vezes, uma das suas fraquezas. Mário Cláudio quis de alguma forma contrariar “o folclore ‘new-age’, dan-browniano, que tem vindo a fazer de Leonardo alguém ligado a tudo quanto havia de mais sinistro, sejam teorias da conspiração, sejam atos de bruxaria ou de exoterismo, que é tudo “o contrário do que foi” este génio renascentista. De tal ordem que, apenas 50 anos após a sua morte, já um dos seus primeiros biógrafos, Georgio Vasari, sublinhava a grandeza de alguém que ao proporcionar a Florença o maior dos presentes com o seu nascimento, do mesmo modo fez a cidade sofrer um infinito sentido de perda com a sua morte.

Trabalho oficial

Para construir este romance delicado, marcado por um imenso trabalho oficinal, Mário Cláudio recorreu a inúmeras fontes documentais e, sobretudo, visitou alguns dos locais da vida de Leonardo. Esteve em Vinci, em Florença ou Milão, onde o acaso lhe proporcionou a oportunidade de ver na Biblioteca Ambrosiana o “Codex Atlanticus”, um dos muitos produzidos pelo artista. Neste em particular, recorda o escritor, “é possível penetrar no universo deste homem, feito de uma estonteante curiosidade, de permanentes observações da natureza humana”. Esta peregrinação levou-o ainda a Vaprio d’Addda, na região da Lombardia, terra natal de Francesco Melzi, discípulo predileto do mestre florentino.

Rui Duarte Silva

“Retrato de rapaz” debruça-se sobre a relação entre o mestre e o aprendiz, aqui nomeado Salai, enviado com gosto pelo pai enquanto ainda criança para um atelier onde a cada instante se geravam infinitos momentos de espanto. O olhar profundo de Mário Cláudio proporciona uma viagem muito impressiva e pormenorizada àquele ambiente onde se ficcionam as relações entre um adulto e um jovem adolescente. Depois de em “Boa Noite Senhor Soares” ter refletido à volta das ligações entre Fernando Pessoa e um paquete, num relacionamento de onde estava ausente qualquer tentação sexual, nesta nova abordagem há uma relação ambígua entre mestre e discípulo, com uma pulsão sexual latente praticamente desde os primeiros instantes em que o aprendiz chega à oficina do mestre.

A seguir virá uma terceira novela para encerrar este ciclo. Já está quase concluída e colocará em cena a estranha intimidade estabelecida entre um fotógrafo e escritor e uma jovem rapariga, sua ninfa. Como diz o autor de “Camilo Broca”, trata-se de romances pelos quais perpassa o tema da pedofilia, “mas é tudo muito mais complexo do que isso”. Admite que no caso de Leonardo, e à luz dos padrões atuais, que não os da época, aquela parceria mestre/discípulo até pode ter uma leitura muito próxima da pedofilia, mas o mesmo já não sucede com a próxima novela. O retratado é uma personagem muito célebre do mundo da escrita infantojuvenil e o que ali se revela é antes de mais “o fascínio de um homem de meia idade por uma adolescente pré-púbere”.

A história de “Retrato de Rapaz” é contada na terceira pessoa. Sempre que há necessidade de recorrer a discurso direto, o escritor opta por uma linguagem “que não seja desconfortável para o leitor”, o que implica evitar um linguajar que tente reproduzir os modos de falar no século XVI, “mas que por outro lado não seja algo anacrónico”. Nesse sentido, diz o autor de “Amadeo”, “aplicar uma linguagem de hoje seria também falsear, colocar as coisas como não são”.

Viagem memorável

Rui Duarte Silva

Mário Cláudio teve sempre a preocupação do rigor em todo este processo de busca e documentação para a construção de um livro que, sendo breve, é de uma riqueza extraordinária, pelo retrato de época nele contido, e pelo modo como proporciona uma memorável viagem aos meios políticos e religiosos, sem esquecer as orgias no Vaticano. Esse rigor, porém, tem de ser doseado para não abafar a imaginação e a criatividade do escritor que não pode anular-se perante a avalanche de informações recolhidas.

Marguerite Yourcenar dizia que um ficcionista que vai para as bibliotecas consultar livros sobre livros sobre uma qualquer figura que pretenda retratar, acaba sempre por construir algo de insuportável. Foi outro o caminho de Mário Cláudio. Sem perder de vista a história, quis construir um rosário de estórias a partir do encontro, afinal comum, entre um mestre e um rapaz que quer aprender.

Artigo publicado originalmente no Expresso Diário em junho de 2014