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Mário Cláudio vence Grande Prémio de Romance da APE

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Rui Duarte Silva

Júri distinguiu “Retrato de Rapaz”, segundo de uma trilogia composta por “Boa Noite, Senhor Soares” e “O Fotógrafo e a Rapariga”

O escritor Mário Cláudio é o vencedor do Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de escritores (APE) com a obra “Retrato de Rapaz”.

Publicado em Maio de 2014, este curto romance de apenas 139 páginas aventura-se por um terreno à partida perigoso, mas tratado com uma rara sensibilidade por um escritor que, como poucos, consegue um poderoso domínio da linguagem.

O tempo do romance é o século XVI e a matéria ficcional parte de uma base credível ao explorar a possível relação, não apenas de mestre-discípulo, estabelecida entre Leonardo da Vinci (1452-1519) e Gian Giacomo Caprotti, um disponível varredor de oficina que subitamente passa a ser uma presença constante ao lado do mestre, seja como modelo, como ajudante, como amigo, mas eventualmente também como traidor.

Apesar da sua brevidade, “Retrato de Rapaz” não é apenas um mero exercício de linguagem e de capacidade inventiva. Mário Cláudio socorre-se de um vasto manancial de documentos, não apenas para nos introduzir na vida, nos pensamentos, nas descobertas, nos sonhos, nos delírios de Leonarda. Em simultâneo, e como bom conhecedor e intenso apaixonado por Itália e a sua cultura, não deixa de ser exímio na reprodução de ambientes. Cria fascinantes viagens no tempo até aos dias renascentistas em cidades como Florença, Roma, Milão.

É este mesmo saber, esta mesma aguda curiosidade, esta mesma capacidade de agarrar o detalhe e transformá-lo num profundo enunciado de muitos saberes e vivências que voltamos a encontrar nos outros dois livros da trilogia. No mais recente, “O Fotógrafo e a Rapariga”, a proposta materializa-se numa desconcertante deambulação pelas relações equívocas entre Charles Dodgson, isto é, Lewis Carrol, autor de “Alice no País das Maravilhas”, e Alice Lidell, a rapariga que claramente o seduziu pelo modo provocatório como posava para os seus retratos.

Com “Boa Noite, Senhor Soares” entra-se no universo pessoano, através de um jovem que passa a trabalhar no mesmo escritório de Bernardo Soares.

O júri que atribuiu o prémio foi constituído por José Correia Tavares, Ana Paula Arnaut, Isabel Cristina Mateus, Maria João Cantinho, Miguel Miranda e Miguel Real.

O escritor vencera já o Grande Prémio APE com “Amadeo”, de 1983, que retrata o percurso do pintor Amadeo de Souza Cardozo.