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Uma grande cidadela de beleza cujos muros de barulho dão acesso a paisagens intermináveis de melodia e emoção

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Fomos ao Alive ver os Jesus & Mary Chain, que vieram a Portugal apresentar "Psychocandy", o seu primeiro álbum. A vida começa aqui

O garoto permanece parado no meio sala enquanto o pai lhe veste um casaco grosso de tecido aos quadrados. O garoto é entregue a uma mulher que fica encarregada de tomar conta dele durante algumas horas enquanto os pais recuperam da ressaca da noite anterior.

O garoto despede-se do pai e a mulher agarra na sua mão e segue em direção a casa, nos subúrbios da cidade. Quando chegam, ela vai para a cozinha, ele aborrece-se e sai para o jardim. Ali vê outros três miúdos que o desafiam a bater numa porta de um barracão. Ele fá-lo e é atirado violentamente para trás.

Era uma partida, mas ele não tinha percebido (nem sabemos se virá a perceber). Os miúdos não se riram, não tinham qualquer interesse naquela ou noutra partida. Estavam apenas entediados e a distração ajudava-os a matar o tempo.

Há um dia em que a mulher e o garoto saem de casa e seguem em direção ao rio com os outros três miúdos atrás. Dentro do rio, a alguns metros da margem, está um pregador a cantar e a entoar hinos meio soturnos. A mulher dirige-se a ele e pede-lhe que reze pela mãe do rapaz, que sofre de uma maleita incurável. Encoraja o garoto a aproximar-se do velhote, que assim que o tem nos braços fá-lo mergulhar na água. Mais tarde, ainda o garoto está nos braços do velho no meio do rio, descobre-se que afinal não passou tudo de um mal-entendido embaraçante, porque a mãe dele não está doente, simplesmente bebeu demais na noite anterior.

“Uma grande cidadela de beleza cujos muros de barulho dão acesso a paisagens intermináveis de melodia e emoção”

A certa altura entram cinco tipos no palco e começam a tocar. Contámos aquela história do pai, da mãe, do garoto, dos três miúdos e do velho para nos esquivarmos a uma descrição mais ou menos pormenorizada e mais ou menos pitoresca do concerto e das canções e do ambiente e das pessoas neste último dia do Alive (11 de julho), com os Jesus & Mary Chain a poucos metros de nós.

Jim e William Reid, irmãos, formaram os Jesus and Mary Chain em 1983, três anos depois de se terem despedido do emprego para passar as noites acordados, com chá e biscoitos aos pés da cama, a sonhar com a banda perfeita. “Nessa altura éramos como dois irmãos gémeos muito bizarros que terminavam as frases um do outro. Tínhamos as mesmas ideias na cabeça.” E essas ideias passavam por criar uma banda que conseguisse fundir o noise dos Einstürzende Neubauten com a “doçura pop” dos Shangri-Las, conta Jim Reid, numa entrevista ao jornal britânico “The Guardian”.

A esta coisa de desejos meio destrambelhados juntou-se o álbum “Velvet Underground & Nico”, que ouviram num misto de terror e admiração. “Eram os Mary Chain antes de os Mary Chain existirem”, conta Jim. Viviam em East Kilbride, na Escócia. Jim tinha 21 anos e William 24.

Pouco tempo depois entravam num estúdio para gravar algumas demos (que viriam a tornar-se os primeiros singles da banda), “Upside Down” e “Never Understand”. Na hora de escolher qual dos dois ia cantar, já que nenhum queria fazê-lo, atiraram uma moeda ao ar e a sorte calhou a Jim.

Desde 1983 lançaram seis álbuns. “Psychocandy”, o primeiro e o mais relevante, foi lançado em 1985 pela Blanco y Negro Records, de Geoff Travis (fundador da conhecida editora Rough Trade). Há quem diga que o álbum os fez emergir como uma das bandas mais significativas desde os Sex Pistols. Na “New Musical Express” foi descrito como “uma grande cidadela de beleza cujos muros de ruído, uma vez escalados, dão acesso a paisagens intermináveis de melodia e emoção”.

Na história que contámos do pai, da mãe, do garoto, dos três miúdos e do velho e que não é da nossa lavra (tem como título “O Rio” e é da escritora americana Flannery O'Connor), o garoto volta no dia seguinte ao rio sem os pais saberem e pede ao rio que o acolha e à corrente que o leve. E é assim que parte. O abraço do pregador e o mergulho nas águas frias deram-lhe a descobrir outra coisa, seja ela qual for. “Psychocandy fez (e faz) o mesmo que o pregador. A vida começa aqui.