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“Vergonha! Vergonha! Vergonha!”

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Houve acontecimentos inesperados, batalhas sobrenaturais, sacrifícios impiedosos, houve gente a sofrer e a sobreviver, personagens a matar e outras que ninguém queria mortas a morrer. Mas a quinta séria da “Guerra dos Tronos”, que acabou há uma semana, tem de voltar a ser discutida, porque há uma cena que ficou para a história da série (e das séries?) que tem de ser devidamente examinada

Helena Bento

Jornalista

Cersei começa a descer as escadas diante do Septo (que é uma espécie de Igreja). Está nua. Assim que pisa o quarto degrau, outra mulher, uma religiosa, que segue atrás dela, grita a palavra "shame". Há de fazê-lo outras duas vezes, e depois sacudir o sino que leva na mão e depois gritar novamente ("shame! shame! shame") e depois sacudir o sino outra vez e assim sucessivamente, até ao fim. 

Continua a descer, a multidão cresce na rua, a raiva não cabe nos corpos. Atiram-lhe comida, atiram-lhe pedras, atiram-lhe tudo. Uma mulher cospe-lhe na cara. Cersei tem as costas e o rosto e os pés em sangue. Continua a descer, olha em frente, olha para baixo, olha em frente, olha para baixo, e assim sucessivamente, até perder a força e começar a chorar e não conseguir olhar para lado algum a não ser para dentro.  

No último episódio da quinta temporada da "Guerra dos Tronos", Cersei Lannister - rainha regente com habilidade para o orgulho e a traição - é submetida a uma humilhação pública nas ruas de Porto Real depois de ter confessado pecados (adultério com o primo) e de ter sido acusada de outros (incesto com o irmão).

Numa entrevista concedida em 2011, o autor dos livros a que deu origem a série, George R. R. Martin, explica que a cena, tal como aparece descrita no livro, foi inspirada numa figura histórica, Elizabeth Shore, amante do Rei Eduardo IV, que foi punida depois de o rei morrer, em 1483, acusada de conspiração e promiscuidade (foi também amante de outros homens que pertenciam à nobreza).

Percorreu as ruas de Londres em penitência e acabou na prisão. "O castigo nunca foi aplicado aos homens, estava reservado às mulheres e servia para quebrar o seu orgulho", explicou o escritor. Ao contrário de Cersei, foi permitido a Elizabeth Shore estar vestida durante o castigo. 

Contrariando as primeiras impressões, soube-se que não é Lena Headey (atriz que interpreta o papel de Cersei na série) que aparece na afamada cena. Ou que não é o seu corpo. Rebecca Van Cleave, de 27 anos, foi a escolhida entre 1000 candidatas para desempenhar o papel. A atriz, modelo e cantora disse ao "Entertainment Weekly" que foi uma das experiências "mais assustadoras, incríveis e gratificantes" que teve na vida. 

Lena Headey recusou-se a ficar nua perante centenas de técnicos e figurantes. Porque está grávida, dizem alguns, e porque tem o corpo tatuado, diz Hannah Waddingham, que desempenha o papel da tal religiosa que segue Cersei de perto durante a caminhada.

De resto, a violência a que a personagem é submetida deixou Headey indignada. "Não é difícil de imaginar o que sente alguém que está a ser humilhado pela população. Há uma parte de nós que está aterrorizada. Não consigo sequer imaginar uma pessoa a querer ver a outra em sangue. Cersei errou, mas não merecia isto."

A cena da humilhação pública foi filmada durante quatro dias em Dubrovnik, na Croácia. E foi preparada com a minúcia de um artesão. Lena Headey caminhou durante horas e horas atrás de Rebecca Van Cleave. "É assim que tens de caminhar, repara nos meus movimentos, braços, pernas, mãos, costas, é assim que tens de fazer", imaginamo-la a dizer. Além disso, foram gastos 50 mil dólares por dia (cerca de 44 mil euros) em extras, pedidos especiais e contratação de reforços para a equipa de segurança.