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Uma mão cheia de futuro para Saramago

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MISSÃO. Preservar a memória do escritor é uma das preocupações de Pilar del Río

ANA BAIÃO

Cinco anos passados sobre a morte do Nobel da Literatura português, Pilar del Río, viúva do escritor, faz da efeméride uma celebração em que se multiplicam os sinais de que a presença de José Saramago veio para ficar

Emocionada, Pilar del Río pega numa fotografia de João Francisco Vilhena: duas mãos abertas, cheias da terra escura de Lanzarote. A imagem serve de mote à evocação de José Saramago, desaparecido faz esta quinta-feira cinco anos. Durante todo o dia, a Fundação dedicada ao escritor abrirá gratuitamente ao público as suas instalações, na antiga Casa dos Bicos.

Logo pelas 10h, é inaugurada uma exposição com as ilustrações feitas por André Letria para “A Maior Flor do Mundo”, um livro infantil de Saramago publicado pela Caminho (e em vias de ser reeditado pela Porto Editora). Ao fim do dia, pelas 21h, haverá música (“Buganvília”, um concerto com João Afonso e Rogério Cardoso Pires) e leitura de textos saramaguianos pela atriz Maria do Céu Guerra. Pelo meio, acontecerá ainda a estreia do documentário “Um Humanista por Acaso Escritor”, do brasileiro Leandro Lopes, no auditório da Fundação.

Para ver como o Nobel
No final do documentário, Leandro Lopes filma várias pessoas que experimentam usar uma réplica dos óculos de Saramago, imaginando desta forma como seria observar o mundo através dos olhos do escritor. Ao ver o filme, Pilar del Río gostou tanto da ideia que decidiu “roubá-la”. Quem visitar a Fundação, também terá oportunidade de usar por momentos uma réplica dos óculos do Prémio Nobel, inclusive tirando com eles fotografias que podem ser partilhadas, em poucos segundos, nas redes sociais.

O esforço para que a memória do escritor não se dissipe é uma das missões a que Pilar del Río se entrega de corpo e alma, mas na verdade esse risco nem se coloca, porque as iniciativas, edições, homenagens, e manifestações artísticas relacionadas com o escritor, ou com a sua obra, multiplicam-se. Numa conferência de imprensa dada esta quarta-feira, a presidente da Fundação (ou “presidenta”, como gosta de ser tratada) enumerou várias dessas iniciativas, com destaque para o anúncio de que o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai acolher uma grande exposição multimedia sobre Saramago, na linha da que foi realizada em 2010 sobre Fernando Pessoa (“Fernando Pessoa, Plural como o Universo”)

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Grande exposição em 2016?
Numa visita recente a Lisboa, Antonio Carlos Sartini, diretor daquele que é um dos museus brasileiros mais visitados, confirmou a vontade de avançar com a exposição em 2016. “Ainda não há datas definidas, mas eu apontaria para novembro do próximo ano”, afirmou Pilar del Río, sublinhando que o projeto está por enquanto numa fase inicial, de constituição do colégio de comissários e procura de apoios financeiros junto de mecenas. Quanto à possibilidade de trazer posteriormente a exposição para Lisboa, como aconteceu com a dedicada a Pessoa, que passou pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2012, Pilar del Río mostrou-se otimista: “Faria todo o sentido, claro, e vamos trabalhar para que aconteça.”

Uma “Carta dos Deveres Humanos”
Noutra frente, a Fundação vai fazer-se representar num congresso internacional organizado pela Universidade do México, nos dias 24 e 25 deste mês, centrado numa proposta feita por Saramago para a criação de uma “Carta dos Deveres Humanos”, complementar da existente sobre Direitos Humanos.

Além da crescente bibliografia académica sobre Saramago, parte da qual editada pela Fundação (de que é exemplo “A Espiritualidade Clandestina de José Saramago”, de Manuel Frias Martins), Pilar destacou a importância da revista “Blimunda” (gratuita, com pdf disponível online) e uma série de adaptações dos livros. Só nos próximos tempos, está prevista uma ópera a partir do romance “As Intermitências da Morte”, a estrear em Itália, e versões teatrais de “Clarabóia” e “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, que serão levadas à cena pela Barraca.

“A mão continua cheia, verdade?”
Pilar volta a mostrar-nos a foto de João Francisco Vilhena, acompanhada pela frase “Contar os anos pelos dedos e encontrar a mão cheia” (variação de uma das frases d' “Os Cadernos de Lanzarote”: “Contar os dias pelos dedos e encontrar a mão cheia”). Passaram cinco anos sobre a morte de Saramago. Cinco dedos. “Mas a mão continua cheia, verdade?”

  • Ensaio de Saramago: Verdade e ilusão democrática

    Foi há cinco anos que o Nobel partiu. O Expresso associa-se à Fundação Saramago e publica na íntegra um texto inédito, lido numa conferência em Sevilha em 1991, aquando 
da comemoração do quinto centenário dos Descobrimentos. O texto de José Saramago, sobre a democracia e o poder político, mantém-se completamente atual