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Afogada na tormenta do meu país, não me posso impedir de ficar zangada com os alemães

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Ana Baião

No mesmo 2011 em que a troika regressou a Portugal para nova demanda de austeridade, a jornalista Christiana Martins assinava no Expresso uma rubrica onde desenvolvia memórias de verão de portugueses que sobressaíram. A prosa ia na primeira pessoa: os entrevistados não escreviam o texto, mas líamos como se assim fosse. Numa das histórias, Hélia Correia, agora distinguida com o Prémio Camões, relembrou um verão com 40 anos que tinha algo em comum (e igualmente fraturante) com estes dias de austeridade - alemães

Querido Tibur,

Não estranhes se este não for o teu nome. É húngaro e, por isso, pode passar a ser o teu. O que importa é o sentimento que nos une: um carinho além de línguas e países. Além do tempo. E da possibilidade de reencontro. Tenho pensado em nós. Já deves ter ouvido falar da tormenta que se abateu sobre Portugal. É verdade... Antes, diz-me se te lembras que eu era a única portuguesa naquele campo na Dinamarca... Mas já lá vamos. Primeiro, não quero que fiques triste por eu não recordar o teu nome. Também não me lembro do nome da cidade nem tenho a certeza do ano em que foi. Só sei, com absoluta certeza, que foi antes da explosão dos cravos... O que interessa está bem guardado na minha memória: tu - meu querido húngaro de cabelos e olhos escuros -, as imagens daquele castelo nórdico, os bosques de faias que o circundavam, as músicas que cantávamos e a intensa luz. Ah, e os alemães... É por eles que te escrevo.

Vieram desassossegar-me para que eu contasse um verão especial.

Logo um verão, eu que sofro tanto com o calor... Busquei em mim e encontrei-nos. Mas eles - os alemães - também lá estavam. Sabes como sou: não concordo com generalizações, luto contra classificações mesquinhas e bato-me por amplidões de espírito. Mas eles não saem da minha memória. Da tua também, certamente. Aqueles alemães eram grandes de tamanho e pequeninos de solidariedade. Eu sei que há alemães e alemães e, se me ponho a pensar, vêm à memória o doce grupo que conheci na Grécia ou a rapariga do Instituto Alemão de Lisboa. Voltando àqueles alemães da Dinamarca, bem, aqueles pareciam educados para cumprir os estereótipos. E, se por acaso te esqueceste, vou-te recordar. Estudantes de vários cantos da Europa rumaram à Dinamarca para ajudar a reconstruir o sistema de canalização de um antigo castelo. Franceses, suecos, holandeses, húngaros, uma portuguesa e os alemães. Ninguém entendia nada de canalizações, mas estávamos empenhados em viver a oportunidade de uma sociedade transnacional baseada no trabalho e na amizade.

No início, acordavam-nos muito cedo com o toque de uma trompa. Depois, o instrumento desapareceu. Acabou por ser encontrado no frigorífico. Lembras-te? Nós éramos assim, irreverentes e felizes. Eu tentei escavar, mas fui transformada em aguadeira. Tu e o teu irmão húngaro estavam sempre a dar as forças, agarrados às ferramentas. Os alemães? Planeavam e orientavam. Pareciam muito sabedores do que faziam. Nós aceitávamos. Não falávamos as línguas uns dos outros, o inglês ainda não era o idioma franco, mas cantávamos. Hoje diriam que era uma comunidade hippie.

Rotulem como quiserem: foi um espaço de felicidade. Uma vivência muito bonita. O problema surgiu quando testámos a canalização e aquilo não funcionava. Culpa de quem? Dos alemães. Dois rapazes e duas raparigas que fizeram uma vida à parte do grupo.

Nem eu, que faço amizades facilmente, tentei uma aproximação.

Os alemães ficaram furiosos com o fracasso e tivemos de permanecer mais uns dias para lhes consertar os erros. Afogada na tormenta do meu país, não me posso impedir de ficar zangada com os alemães. Nem de recordar aquele episódio. Ultrapassa o rigoroso controlo ético que exerço sobre os meus pensamentos. Daquele tempo não ficaram fotos, nem moradas. Mas ficou a vivência, a boa e a preocupante. Tão nítida nestes tempos de crise.

Um beijo nos teus cabelos escuros, 
Hélia Correia (escritora)

 

Texto de Christiana Martins com base no depoimento da entrevistada
artigo publicado na edição do Expresso de 23 de julho de 2011

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