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Fim anunciado para os cadeados na ponte das Artes em Paris. Amantes desconsolados

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CHARLES PLATIAU/REUTERS

Agarrar num cadeado, prendê-lo numa das barreiras laterais da ponte e atirar depois a chave ao rio. O ritual chegou ao fim. Os amantes estão de luto  

Helena Bento

Jornalista

Estamos tão apaixonados pelo amor, que estamos dispostos a matar-nos uns aos outros. Valorizamos tanto o amor que acabamos por amar o amor, em vez das pessoas. É assim o amor moderno, sobrecarregado de expetativas. Esperamos que o nosso companheiro seja perfeito. Que seja um pai, ou uma mãe, perfeito. Que seja um amante perfeito. Um trabalhador perfeito, com importância social. 

É isso que diz Pascal Bruckner, filósofo e escritor, quando questionado a respeito dos cadeados presos nas barreiras laterais da Ponte das Artes, em Paris, centenas de milhares (cerca de 93 toneladas), que começaram a ser retirados há bem pouco tempo pelas autoridades da cidade, por razões de segurança. "As pessoas podiam ter morrido de tanto amor", refere ainda, num artigo publicado no "New York Times".

Os amantes, esses, não encontram consolo. Porque é "muito triste", porque a ponte "estava na lista de coisas a fazer antes de morrer", porque é "melhor ter amado e selado do que nunca ter selado de todo". Querem continuar a prender cadeados (há também quem escreva neles) e a lançar depois as chaves ao rio Sena. 

Mas, ao que parece, não vão poder fazê-lo. No início deste mês, as autoridades francesas anunciaram o início de uma operação que visa retirar de forma faseada os chamados "cadeados do amor". Não se trata de um ataque aos amantes e às promessas de amor eterno, mas de zelar pela segurança dos transeuntes e pela preservação do monumento. No ano passado, duas das barreiras laterais da ponte cederam ao peso de milhares de cadeados e acabaram por cair (a estrutura teve, aliás, de ser temporariamente encerrada). 

"Nós reagimos porque um dos painéis não aguentou o peso dos cadeados. Ninguém ficou magoado, mas podia ter sido dramático. É por isso que estamos a retirá-los, não porque queiramos impedir as pessoas de expressar o seu amor", disse Bruno Julliad, do departamento de Cultura da Câmara Municipal de Paris, citado pelo "New York Times". 

A tradição dos cadeados na Ponte das Artes (que foi construída em 1804, durante o regime de Napoleão Bonaparte, e reconstruída no início dos anos 1980) teve início em 2008, diz-se que inspirada numa lenda sérvia, que data da Primeira Guerra Mundial, sobre uma professora, Nada, que se apaixona por um jovem oficial sérvio, Relja. Os dois começam a namorar. Relja é chamado para a guerra na Grécia. Apaixona-se por outra mulher, Nada vem a saber, fica perturbada, morre pouco tempo depois. 

E as raparigas da sua aldeia, que sabem da história e sonham com finais mais felizes, começam a escrever os seus nomes e os nomes dos amantes em cadeados e a fechá-los nas grades da ponte Most Ljubavi (em inglês, "The Bridge of Love"), em Vrnjačka Banja, na Sérvia, onde Nada e Relja normalmente se encontravam. 

Há também quem diga que a tradição é inspirada no romance do autor italiano Federico Moccia, "I Want You", publicado em 2006, em que é descrito o ritual. 

Ao fim de sete anos, eis que chega ao fim, para gáudio de alguns (que defendem o interesse do património da cidade) e desespero de muitos. As autoridades garantem, no entanto, que vão encontrar uma solução para os cadeados presos. Bruno Julliad defende que a remoção faz parte de um "plano maior" para dar às pessoas uma nova forma de "expressarem o seu amor". E garante: não se trata de uma política "anti-amor".