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Houellebecq: “Querem ver-me morto”

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Michel Houellebecq publicou um artigo no diário italiano “Corriere della Sera” onde lança críticas ao Governo de França, na sequência dos atentados terroristas em Paris

François Berthier/ Contour by Getty Images

É um dos mais geniais e controversos escritores franceses. “Submissão”, 
o seu último romance, lançado no dia do atentado ao “Charlie Hebdo”, colocou-o na mira dos extremistas. Desde então vive acossado porque sabe que tem a cabeça a prémio

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Na vida de Michel Houellebecq, que pode ter 56 ou 58 anos, há coisas que acabaram. A rotina de uma casa modesta num bairro de Paris dos que nunca estiveram na moda. Os jantares pré-cozinhados comprados no supermercado. As saídas e entradas na cidade sem que ninguém note. Uma ida a um restaurante, a uma exposição, a um café, a uma livraria. A liberdade, enfim. Michel Houellebecq é célebre como uma estrela rock, mais célebre ainda que o rocker Iggy Pop, que é um admirador e que fez um álbum baseado nas escritas de Houellebecq depois de lhe dizer que não conseguia ler outra coisa. A admiração é mútua e Michel Houellebecq raramente admira alguém ou alguma coisa. Antes da polémica de “Submissão” era famoso, muito, e perseguido, bastante, mas não viajava com proteção policial constante. Depois do atentado do “Charlie Hebdo”, cometido no mesmo dia em que o romance era lançado (para os que vivem no planeta Marte, aqui se esclarece que o romance trata de uma França onde um candidato muçulmano moderado ganha as eleições e trata de impor uma sharia suave à República, com a colaboração dos socialistas e dos vira-casacas), a proteção tornou-se obrigatória.

Embora a conversa seja em Saint-Germain-des-Prés, na sede da Flammarion no Odéon, ele nunca foi um intelectual de Saint-Germain, como o seu “inimigo público” Bernard Henry-Lévy, ou um prosador de café. Não frequentou o Café de Flore nem foi visto a vaguear nos corredores da La Hune dedilhando livros. Michel Houellebecq é um solitário que gosta de observar os outros sem ser reconhecido. E é uma criatura que se reconhece pela extrema fealdade, que os anos acentuaram por gosto próprio, visto que concede à aparência e aos cuidados com a roupa ou a beleza o mesmo desprezo que concede à comida. Quer isto dizer que come para se alimentar, pouco, com preferência pela charcutaria, e que não compra roupa. Beber é outra coisa. Nos anos verdes aparecia embriagado, mas agora parece ter reduzido os vícios ao tabaco. Fuma cigarros eletrónicos, uma novidade. Dantes fumava quatro maços por dia. Michel Houellebecq foi um mal-amado, rejeitado pelos pais, rejeitado pelos escritores. Não será para ele a solidariedade que rodeou Salman Rushdie depois da fatwa ou a reunião internacional do Pen Club com cartas dos confrades a defender a liberdade e a elogiar-lhe a prosa, a inteligência e sensibilidade. Houellebecq é definido como um anti-humanista, o que quer que isto signifique. Depois de “Submissão” e do “Charlie Hebdo”, só os amigos de Houellebecq apareceram a defendê-lo, e são poucos. Um deles é François Nourrissier, da Academia, que se bateu pelo Goncourt do autor. O outro é Frédéric Beigbeder, um típico parisiense elegante, definido como um dos que só usam caxemiras de triplo fio, e um dos raros que penetram no círculo restrito do escritor ameaçado e retirado de circulação. De resto, choveram as críticas e os ajustes de contas com um homem dotado de um talento raro e que sabe que o tem, o de escrever sem mácula. E pensar ainda melhor. É natural que ele tenha uma corte seleta, como todos os grandes escritores, mas ninguém dirá muitas palavras porque o medo impera. E nunca Houellebecq foi tão manso para com o Islão como neste livro, o que demonstra que ou não o leram ou não o souberam ler, ou aproveitaram o pretexto para lançar o homem às feras.

Gostar de pessoas parece não ser a sua especialidade mas nesta conversa o moralista é equivalente ao humanista. A ideia da Europa unida repele-o e acha que a França se dissolve molemente.

Há uma distância dos primeiros romances, “Extensão do domínio da luta” (95), “As Partículas elementares” (98), “Plataforma” (2001) e “A Possibilidade de uma ilha” (2005) em relação a “O Mapa e o Território” (2010) e “Submissão” (2015). Este Houellebecq, nascido na Ilha da Reunião de um casal de aventureiros que “rapidamente se desinteressou do filho” e o abandonou, viveu a infância na Argélia colonial com a avó materna e na França profunda com a avó paterna, comunista, que o criou. A mãe escreveu um livro aos 80 anos a atacar o filho, acusando-o de tudo e demonstrando um narcisismo e um sentimento antimaternal que valeram simpatias ao “órfão”. Foi a mãe que falsificou a data na certidão de nascimento, pondo dois anos a mais para o filho poder entrar na escola mais cedo e ultrapassar os colegas. Beidbeger diz do amigo: Michel vem de um lugar de extremo sofrimento, ninguém imagina o que ele sofreu. Tornou-se escritor, destino saudável dos infantes infelizes.

Amou a avó paterna, a mãe que nunca teve, e pouco mais. Quando Clément, o cão  dele, morreu, Michel Houellebecq chorou. Tem um filho adulto, Étienne, de que nunca fala, e duas ex-mulheres. Território proibido a jornalistas e críticos. O encontro não foi, ao contrário do que era costume, na casa ou numa brasserie de Paris. Vigiado, o homem está sentado numa sala cheia de livros e papéis, embora não se veja um único guarda. Fui avisada, ele é tímido e não gosta de falar. Um sol enevoado entra pela janela e ilumina metade da cara de Michel Houellebecq. É a cara de um pássaro assustado, que se levanta para apertar a mão, um aperto sem firmeza e distraído. A única coisa que parece interessá-lo é o cigarro eletrónico que parece um adereço despropositado num homem que se está nas tintas para a saúde.

Tenho à minha frente aquele que considero, sem esforço, o maior escritor europeu vivo, e bem vivo, e isto tem o seu efeito. Houellebecq  é gentil, fala baixo e fala pouco, e por vezes fala como se falasse para si, para dentro. Como se pensasse alto. O doido que uma vez disse à jornalista do “New York Times”, há muitos anos, que pusesse uma minissaia transparente e fosse com ele para a cama porque a única coisa que lhe interessava era o sexo, desapareceu. Houellebecq mudou porque a sua idade mudou e a sua vida mudou. Sempre quis ser célebre, porque isso lhe conferia imunidade a tudo. A tudo menos a ser morto por um terrorista.

Getty

Já googlou o seu nome? Sobre si escrevem-se milhares de coisas, muitas delas disparatadas, mas muito apaixonadas. Chama-se a isto uma reputação. Dá-se conta desta quase mitologia em torno da sua personagem?
Agora dou. Sim.

Há quem o acuse de ter construído, de ter querido esta mitologia. Mostrou-se no cinema, na música. Faz o seu teatro.
Seria difícil fazer isso, construir. Seria preciso escolher fazer isso. Seria muito difícil para mim fazê-lo, ou conseguir fazer isso. Compreendo a ideia mas não seria capaz. Não seria capaz.

Já googlou o seu nome? Foi ler o que dizem de si?
Neste momento, sim. Quero saber o que se faz quando se quer desaparecer da atualidade. Há coisas completamente nulas. É preciso que isto se reduza um pouco.

É demasiado célebre. Isso perturba a escrita?
Perturba a vida. A vida.

E os guarda-costas e polícias? Num certo ponto Salman Rushdie tinha uns quinze ou vinte a guardá-lo quando se deslocava a um país.
Não estou nesse ponto mas sim, perturba muito a vida.

Se quiser ir ver a cabeça do cão de Velázquez ao Grand Palais, digo isto porque quando o seu cão morreu teve um grande desgosto, ou beber um copo num bar, pode?
Sim, se for com pessoas, se tiver pessoas à minha volta.

Anda sempre com entourage? Pode caminhar na rua sem ser reconhecido?
Não, não posso. E tenho sempre pessoas comigo, sim, o que não é bom. Não é uma coisa que me agrade. Sou demasiado conhecido.

A celebridade pesa? Começou há muito, essa celebridade?
A partir de um certo ponto, pesa. Muito. Sempre houve a celebridade, há muito tempo que vivo com isso, mas só se tornou incómodo depois de “Submissão”.

Leio-o há muito tempo, e li a sua poesia. Acho que sacrificou o poeta ao escritor de romances...
É verdade.

Leio-o há muito tempo e quando publicou “Plataforma” disse coisas verdadeiramente violentas sobre a religião muçulmana. Disse-as em entrevistas e disse-as no livro. Escreveu que o Islão é “uma religião que só podia nascer num deserto estúpido no meio de beduínos sujos que não tinham mais nada do que fazer, perdoai, senão sodomizar camelos”. E isto em 2001, ano do 11 de Setembro. Foi perseguido nos tribunais e acusado de racismo, absolvido. Nunca sentiu perigo físico?
Não.

E agora, com um livro que é tudo menos islamofóbico, porquê a polémica?
Porque penso que este livro é pior do que isso. Huuuuummmmmm... É difícil explicar mas o livro põe o dedo num medo europeu. O medo de que a Europa se torne um continente muçulmano.

Isso é um medo real ou é um medo real em França?
Não somente em França. É real em países onde há presença muçulmana, real na Alemanha, real na Itália, na Espanha... e é real mesmo em países onde não leem o meu livro.

Isso estava na sua cabeça quando o começou a escrever?
Não, veio depois.

Mete-se com a religião, e não apenas o Islão. O catolicismo, o judaísmo. Este Islão parece por vezes simpático, se assim se pode dizer. Suave. Exceto na demografia.
Creio que fiz com que aparecesse como plausível que a sociedade francesa, europeia, se adapte a um chefe muçulmano que aparece como simpático. Fiz medo a muita gente.

E aconteceu “Charlie Hebdo”. Uma violência que não esperava. Perdeu um amigo, Bernard Maris, assassinado. O que é que isto lhe fez?
Foi uma coincidência impiedosa. E fez-me pensar que desta vez as coisas não iam compor-se.

Tem medo? Mesmo com guardas é fácil matar alguém.
Huuuummm... Não, não tenho medo. Não tenho medo porque a minha natureza é assim, despreocupada.

Uma vez disse que queria ser sempre um irresponsável. É assim?
Um pouco, sim.

Tornou-se um dos pilares da cultura francesa, um intelectual comparado a Gide, Camus, Sartre, uma linhagem de ilustres responsáveis. Como é que pode ser irresponsável? Pode continuar a ser uma criança enraivecida? Há quem diga que está demasiado velho para isso, uma coisa que normalmente se diz das mulheres.
Não é verdade. Pode sim, pode ser-se um intelectual agressivo e irritante até à náusea.

Pensa na morte? Nos livros, onde trata sempre dos grandes temas, o sexo, o amor, a morte não aparece tanto.
Não penso muito nisso, na minha morte. E ainda menos na dos outros. Mas a doença é pior do que a morte.

Muitos grandes escritores temem a perda de faculdades, o momento em que comecem a escrever mal. E não saibam que escrevem mal.
Não penso nisso e não posso dizer que isso me pese na consciência. Não penso nisso.

Teve uma infância difícil. O que é que lhe faz mal, na vida?
Muita coisa me fez mal. O sofrimento físico, sim.

E a estupidez humana, a parvoíce?
Não, já estou habituado.

Esse medo do sofrimento físico não é compatível com tantos cigarros. Ou a charcutaria.
Cigarros eletrónicos. Não fazem mal. Não tenho medo das grandes coisas. Não poder escrever não me parece muito grave.

Escrever todos os dias, com disciplina? Quando começa um livro interrompe?
Todos os dias, sim. Ou não. Não interrompo. Interromper é a catástrofe.

Começa com quê? Uma ideia?
Normalmente, é com frases. Não uma mas várias frases, uma série curta.

Um parágrafo? Um verso, como na poesia?
Sim. Um bom parágrafo seria bem bom.

Revê muito? É minucioso?
Muito minucioso. Revejo muito. Corrijo.

E o momento de entregar o livro, declará-lo terminado?
Passo mal. Mal quando entrego o manuscrito e mal quando corrijo as provas. É a última hipótese.

Bonnard ia corrigir o amarelo nos quadros que já estavam expostos. É um perfeccionista?
Isso pode ser feito com os quadros mas não com os exemplares. Sei ser razoável e ter um tempo de correção das provas igual ao de toda a gente. Mas é penoso, penoso.

E depois de publicado?
Sou bastante fatalista. Está feito. Nada a fazer. Não penso muito no que ficou escrito, no que ficou para trás. Raramente tenho ocasião de pensar nisso. Penso nisso quando a ocasião se oferece, quando me pedem para ler uma passagem dos meus livros.

Muitos escritores quando se leem ou ouvem ler em público surpreendem-se com o que escreveram anos atrás, olha isto não é nada mau, não está nada mal escrito.
Sim, sim, pode acontecer aquando se está contente consigo mesmo. Quando se começou a esquecer o que se escreveu e se redescobre, pode ser uma boa surpresa. É-se muito crítico quando se está na fase penosa do acabamento do livro, quando há que terminá-lo. Mas ao fim de alguns anos, habituamo-nos. Ça va.

Responde a gente que lhe escreva, leitores? Tem interação com os seus leitores, atendendo a que é um autor de culto, com clube de fãs?
Sim, fico contente que as pessoas fiquem contentes.

E agressões, teve algumas?
Raramente. 

Vícios. O escritor fumava quatro maços por dia. Agora rendeu-se aos cigarros eletrônicos. Mas não totalmente

Vícios. O escritor fumava quatro maços por dia. Agora rendeu-se aos cigarros eletrônicos. Mas não totalmente

Philippe Matsas/ Flammarion

Mistura na ficção os pensamentos de Pascal com pratos pré-cozinhados em microondas. Raro. Os leitores identificam-se com qual destes elementos? As ideias? Ou o quotidiano? A monotonia do quotidiano? O microondas?
Não sei. Penso que as pessoas se identificam com um cenário que reconhecem, elas identificam o seu próprio mundo. Claro que se identificam com uma personagem mas o mundo em que ela se move e que as pessoas reconhecem como seu é importante.

A vida dita normal é irrelevante. É preciso ser dono de um grande estilo para a tornar interessante em ficção. A vida é deprimente. E já agora, esse cigarro que está a acender não é nada eletrónico.
Não é não. Vou fumá-lo. Não sei se é preciso um grande estilo. Uma grande catarse.

Mas você trabalha a prosa como um estilista. Nada é deixado à solta ou está lá por acaso. E existe o trabalho da inteligência.
O estilo é demasiado confuso como tema. O que é necessário é uma grande atenção, a capacidade de atenção. O que falta a muitos autores é essa capacidade de atenção. Não veem nada à frente. Não veem nada do que se passa à volta deles.

Pode ser-se um autor sem nada ver?
Ah, sim, basta ver a quantidade de autores que há por aí. Autores que em vez de escreverem sobre coisas que existem encenam lugares-comuns. Pensam o mundo como um lugar-comum. Atapetar o mundo de atenção é importante.

A atenção extrema é uma qualidade dos infelizes e dos solitários. Quando se está muito entretido não se vê nada em volta.
Isso é muito certo. Quando se observa a vida das pessoas é preciso não estar a pensar na nossa. Não estou certo de que seja uma questão de solidão ou infelicidade. O essencial é não estar demasiado preocupado com as coisas pessoais. E não ter muitas preocupações. Coisas práticas para resolver. Chatices. Para se ser uma espécie de observador neutro não se pode estar enfiado em si mesmo. Não é muito bom ser-se infeliz. Quanto à solidão, há muita gente que me fala dos problemas deles, que me fala da sua vida para se fazerem viver como sujeitos de um romance. Como sujeitos de um autor.

E não é preciso saber pensar? Além da atenção? Você escreve romances de ideias.
Não. Muita gente consegue fazer isso, pensar. Não é o mais difícil. Muita gente desenvolve pensamentos a partir de ideias que foram buscar a outros. Ideias feitas. É fácil, há muitos livros escritos assim. Observar o mundo real é o que mete medo a toda a gente.

Vivemos num mundo mediático, mediatizado, que é um jogo de espelhos de ideias feitas.
Mas além disso fica a vida real das pessoas. E vê-la não é fácil.

Escrever a vida real no mesmo sentido em que Balzac escrevia sobre a vida real das pessoas?
Sim, Balzac fazia isso. Pode-se sempre teorizar, teorizar não é um problema, mas há que ter uma base real.

É um autodidata. Quando é que descobriu que era um escritor? Era adulto? Tinha já um emprego?
Não sei, escrevendo livros, acho. Era adulto, era ainda estudante, antes do emprego. É tudo um pouco vago.

Nos seus livros, vê-se que quando quer tratar um tema, a física de partículas, o turismo sexual, o mercado da arte, a vida académica, etc., que o estuda e investiga metodicamente. Até à exaustão.
Sim, faço-o de propósito. Investigo as coisas, os meios a que não tenho acesso direto. A polícia (em “O Mapa e o Território”) a universidade (em “Submissão”)...

Isso não o maça? Ou fá-lo com prazer?
É problemático. Porque estou a suportar ideias feitas. São zonas de ideias feitas que nada têm a ver com a realidade.

Os autores são atraídos por grandes ideias, não pela construção de sistemas burocráticos, saber como funciona a educação ou a polícia...
Há autores que se documentam muito, eu sou um deles.

Estudou Biologia. A sua inteligência é científica, se posso dizê-lo. Experimenta, usa o método científico para testar e negar a hipótese. E tem uma mente matemática, lógica. Tal como Coetzee, que é um matemático, e que é um escritor que admira.
Isso não sei. Não estou consciente disso.

É um escritor perigoso, que escreve no fio da navalha. O que podia tornar-se insuportável ou asqueroso é redimido pela forma. A forma exalta o conteúdo execrável. “Lolita”, de Nabokov, é um livro escrito assim. Perigoso. À beira do abismo. Disto tem consciência? Deste risco?
Sim, estou consciente do risco, quero o risco. É uma questão de disciplina que consiste em evitar a autocensura.

Lê enquanto escreve? Outros autores?
Sim, não me perturba nada. Ficção, o que quer que seja. Não me incomoda. O meu cérebro não se deixa perturbar. É outra zona. E mesmo que interfira, não me importa. O que é difícil é evitar autocensurar-me. Não se colocar em perigo, evitar recusar a zona de perigo. Este é o esforço.

Como leitora, há momentos em que penso que o livro vai descambar, perder-se. E depois você recupera, e recompõe, e é literatura pura. Podia ser a definição do génio, este efeito literário conseguido contra todas as convenções do género.
Sim, mas não é um esforço positivo. O esforço negativo consiste em não dar importância a tudo o que possa impedir-me.

Em “O Mapa e o Território”, um romance mais literário do que “Submissão”, encena a sua morte de uma forma brutal. Mata-se mas é um assassínio ritualístico. Violentíssimo. Gráfico. Quando li aquilo pensei que jamais conseguiria escrever aquilo sobre mim mesma. Foi difícil? E donde vem a ideia a Michel Houellebecq de matar Michel Houellebecq?
Não, não foi muito difícil. Huuummmm... Posso dizer que não sei de onde vem a ideia. A ideia seduzia-me mas não sei porquê. Não posso gabar-me de sonhar assim tantas vezes com isso, não é um pesadelo familiar. Posso dizer que gosto da ideia de me cortar em bocados. Diz-me qualquer coisa.

Eis uma novidade na história da literatura, um autor que se corta a si mesmo em bocados. Graficamente. Clinicamente.
Talvez. Efetivamente.

Se fosse pintor seria fácil. Um bocado Bacon. Você é um Bacon da literatura.
Talvez. Huuuuummmmm... Bacon...talvez. O ritual obrigava a que as cabeças ficassem intactas. As cabeças do homem e do cão.

Isso era importante?
Acrescenta o horror, deixar as cabeças intactas.

É o que faz o Estado Islâmico, deixa as cabeças das vítimas decapitadas sobre os corpos, graficamente, como prova. A cabeça dos reféns torna-se simbólica. Exceto quando estão em mau estado.
É horrível mas não sei porquê.

O Islão de “Submissão” é diferente. É apaziguador. E diferente do tal Islão dos beduínos no deserto estúpido. Penso que quando se escreveu sobre “Submissão” muitos críticos não reproduziram esta frase antiga, e outras, de propósito, para o protegerem depois de “Charlie Hebdo”. Mesmo os que o detestam.
É verdade, já não ousam. Não penso que seja para me proteger. Muita gente por aí ficaria muito feliz se eu fosse morto.

Tem a certeza? Você tem muita gente que gosta dos seus livros. No caso de Salman Rushdie tive a certeza de que havia muita gente que o queria morto. Assassinado.
Também tive. E no meu caso também querem ver-me morto.

Donde vem esse ódio? Você é apenas um escritor. Inventa palavras, mundos.
É o que eu digo. Mas esse ódio acho que sei donde vem. Sou perigoso. Perigoso para uma visão da sociedade que é defendida todos os quartos de hora por gente dessa sociedade em França.

Quando “Submissão” saiu já havia gente enraivecida com o livro, um tipo do “Le Monde” desfê-lo, acusou-o de tudo. Percebo, você mete-se com os bonzos, os do “Le Monde”, os jornalistas e comentadores de televisão, os políticos... a fauna. É natural que contra-ataquem. Isso é suficiente para odiar alguém?
Sim, sim, claro. Veem-me como um tipo perigoso.

Mas não para o Islão. Perigoso para os franceses.
Sim. A minha morte pode ser uma boa novidade para muita gente.

Estúpido, odiar alguém pelas ideias. Ou livros.
Talvez, mas é assim.

Mas também há muita admiração pelo escritor. Pela prosa.
As duas coisas. Mas há os que também nesse plano me denigrem.

Não será o velho pecado da inveja literária? A mesquinhez da falta de talento?
Pode ser simplesmente isso mas são verdadeiros inimigos. E há os que pensam que não existo e que não escrevo. Ou que seria preferível não existir e não escrever.

Disse numa entrevista que queria ser amado, como toda a gente. É verdade ou é uma daquelas boutades das entrevistas?
É verdade, não obteremos uma coisa se dissermos que não acontecerá.

Os escritores, os grandes escritores, são muito amados. E por isso tudo lhes é perdoado. Têm um ego brutal, idolatria, groupies como as estrelas rock. Não se podem queixar.
Não acho que me perdoem assim tanto. Em França, pelo menos. Não duvide de que sou detestado.

Não será uma consequência do elitismo do meio intelectual parisiense? Das regras desse meio que você infringiu? No resto do mundo não creio que o detestem.
Sim, é no nosso país que somos verdadeiramente detestados.

É uma tradição, quase. Os grandes escritores são detestados no seu país. Os Nobel, sobretudo. Saramago era detestado em Portugal. Coetzee saiu da África do Sul. Martin Amis saiu da Inglaterra. Ser detestado é melhor do que ser unanimemente celebrado. Só os medíocres amáveis são amados por todos.
Concordo. O que quer que seja não há nada que eu possa fazer.

Diz-se que é um anti-humanista. O que quer dizer que o Nobel nunca virá?
É uma consequência. O humanismo é um bocado curto como filosofia.

Neste momento egocêntrico da história do mundo, o que é o humanismo?
Uma lengalenga oca.

É fácil ser-se humanista mas não é fácil amar as pessoas.
É bem visto ser-se humanista.

As suas personagens são sempre homens sós, quase sem família, sem mulher nem filhos. Sente-se confortável com estes atores das suas ficções? São todos um pouco Houellebecq?
Sim, sinto. Mas não sei se é por isso. Creio que são mais personagens metafísicas. Mais dotados para a abstração.

Acha que as mulheres não são capazes disso? Da capacidade metafísica?
Não sei. Sei que lhes é dada uma ausência de história pessoal que os torna mais genéricos.

Mas eles têm uma história pessoal, é por isso que os seguimos.
Queria dizer que eles se envolvem pouco. Servem de modelo geral.

Nenhuma intensidade, é isso? Sobretudo nos sentimentos?
Não muita.

Você é assim? A falta de intensidade é uma arte. É mais fácil ser-se mobilizado, atraído pela intensidade.
Não sei. Eu gosto o suficiente para os imaginar assim, em todo o caso. Sem querer parecer-me muito com essas personagens, revejo-me um pouco nelas.

A personagem de “Submissão”, François, não é simpático. É lúcido, quase detestável. Mas tem qualquer coisa que faz com que nos identifiquemos com o que diz e faz. E pensa. Eu não gosto dele mas ele mobiliza-me, não o largo. Você consegue fazer isto naturalmente ou é trabalhado? Pensa no leitor?
Não penso no leitor.

Que relação tem com as suas personagens, incluindo o Michel Houellebecq de “O Mapa e o Território”?
Elas fazem-me companhia.

Vê-as fisicamente? São como você? François é mais novo.
Sim. Não são necessariamente como eu. Mais jovem. Mais belo do que eu. Não as vejo com precisão mas tenho uma visão.

Falou na beleza. A beleza é um tema literário, como a fealdade. Cyrano, Quasimodo... Quando os realizadores de “Experiência de Quase-Morte” disseram a Catherine Deneuve que iam fazer um filme consigo ela disse que era muito feio. Eles contaram isto à imprensa. E responderam a Deneuve, uma bela mulher, que para eles você não era feio. A fealdade deixou de ser um tema seu? Já foi. Defendeu que havia uma vida sexual para os feios e outra para os bonitos, o que é verdade.
Sim, em mim o tema desapareceu um bocado. Não sei porquê. Cyrano, Quasimodo, vêm de livros não muito conseguidos.

A beleza é um dom raro. A maioria das pessoas não é bela.
Não concordo.

Em Paris, as pessoas arranjam-se muito, cuidam-se, embelezam-se. O que você não faz. Mas a fealdade é a condição humana.
Não acho.

Por se achar feio? Por as outras pessoas dizerem, como Deneuve, que é feio? Os belos veem mais o feio do que os outros.
Quanto mais velho se fica mais feio se fica. Vi isso no meu pai. É por isso que com a idade o tema deixou de me parecer importante. Avancei na idade. A velhice é igual para todos.

E a pornografia também desapareceu? Pela mesma razão?
Sim. E porque há uma ausência de progresso nesse domínio.

Porque é que o sexo continua, apesar da sua condição vulgar e natural em qualquer animal, a ser o grande tabu? Porque é que as pessoas ficam tão chocadas com livros que descrevem sexo?
Huuuuummmm. Não sei, verdadeiramente não sei. Penso porque é que as pessoas pensam aquilo que pensam mas no fundo não sei nada. Absolutamente nada. Ou pior, não se trata de compreender, quando se tenta compreender para descrever acaba-se por não descrever nada. Não se descreve o que se compreende. Deve escrever-se sem compreender porque se tentarmos compreender não se pode escrever. E isto é importante, quando se começa a compreender o mundo para o descrever acaba-se por não escrever coisa nenhuma. É preciso descontar a missão da incompreensão.

Neste momento, a sua preocupação maior, o seu tema, acaba por ser a política, e a Europa, ou a política da Europa. Não era um tema seu e começa com “O Mapa e o Território”. Uma Europa na idade pós-industrial.
É verdade, começa. Neste momento, é o que me interessa. Mais do que uma Europa, uma França pós-industrial. É mais a França do que os outros países que não têm os mesmos recursos.

A França não tem problemas de ricos? Quando se olha para outros países, e basta olhar para o meu, Portugal, vemos problemas bem maiores do que os estados de alma franceses.
Não é verdade, não é nada verdade. Não, não!

Em França vive-se bem. Talvez não sejam felizes, os franceses, mas não vivem mal.
Não vivem nada bem. Pode viver em Paris, mas em França as pessoas empobreceram muito. Significativamente.

Velhos, novos, imigrantes... ou toda a gente?
Sobretudo os velhos. Dizer que a França tem problemas de ricos não é verdade, sobretudo se considerarmos a experiência vivida das pessoas. O que as pessoas vivem não é a quantidade de dinheiro que têm mas a evolução da situação. Estão à beira de serem engolidos, eliminados. Há muita gente no limite da pobreza. De ano para ano. Não é a mesma coisa ter a mesma quantidade de dinheiro quando se sobe ou quando se desce. E os velhos estão na linha descendente, e muita gente com eles.

E atribui isso a quê? À inépcia dos políticos?
Não sei bem, há imposições económicas que levariam muito tempo a explicar.

Não corremos o risco de tratar a política com cinismo? Porque, como dizem os americanos, “it’s a dirty job but somebody’s gotta do it”. Precisamos de políticos e de governantes.
Precisamos.

Acha que a União Europeia, com tudo o que se passa agora com a Grécia ou os países do sul, vai acabar mal?
Vai acabar, isso é certo. Espero bem que este pesadelo acabe.

Porquê pesadelo?
Porque é um pesadelo, uma ideia muito má.

Reuters

Durante anos, décadas, as pessoas acreditaram que a Europa em União ia dar-lhes uma boa vida. E agora têm medo. O que é que se pode opor à hipótese europeia no futuro?
A França. Este país.

Isso pode confundir-se com nacionalismo.
Sim, eu sou nacionalista.

Como o nacionalismo de Marine Le Pen?
Sim, pode ser igual. Estou-me nas tintas.

O que é a França? Com tantos árabes, africanos, imigrantes, etc. O que é hoje a França?
Esse é o nosso problema mas muito menos importante do que o outro.

Talvez o referendo britânico dê cabo da Europa. Ou alguém alguma vez vai dizer basta?
Talvez acabe aí. Alguém vai dizer basta.

Os gregos estão numa situação horrível.
Francamente, estou-me nas tintas para os gregos. Preocupo-me com a França.

E como é que a Europa pode acabar? Com violência ou democraticamente, com eleições e referendos?
Vai fazer-se molemente, pela dissolução progressiva.

Sempre pensou assim, foi contra a União Europeia? Bruxelas vai fazer os possíveis por manter-se, sobreviver.
Sempre fui contra, uma péssima ideia. Sim, Bruxelas... vai ser duro escavacar o sistema.

Pode dar-se cabo do sistema, nos dias que correm? Veja-se a crise da banca, a crise financeira, o sistema mantém-se inalterado. Não aprendeu, não corrigiu.
Não é impossível dar cabo do sistema.

É estranho ouvir um escritor dizer estas coisas. Pode dizer o que quer. Pode dizer a verdade. Um político não pode nunca dizer o que pensa.
Penso que os políticos pensam muito pouco.

Não há ninguém que admire em política? Nem Mitterrand?
Não, nada. Ninguém. Não me parece que algum deles tenha refletido sobre a História do seu país. Ou lhe tenha dado importância.

A religião. A sua atitude mudou. Acha possível ter uma sociedade coesa e coerente sem religião?
Dificilmente.

Resta o problema da fé, que é uma busca pessoal e não coletiva.
Mas aí precisamos de uma fé ligeira, uma fé que abarque muita gente. É preciso procurar.

Uma fé ritualística, litúrgica?
Sim.

Isso já existe, as pessoas casam-se pela igreja sem fé, pelo ritual. Podemos algum dia ver um Michel Houellebecq convertido?
Vamos ver.

 

texto publicado na edição de 23 maio de 2015 da E