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A noite da literatura dita em voz alta

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Este sábado, durante cinco horas, em dez espaços nas imediações do Príncipe Real (Lisboa), as palavras de uma dezena de escritores de vários países serão ditas por actores portugueses. É a terceira edição da 'Noite da Literatura Europeia', com entrada livre. Além de explicar o que pode ouvir, por quem e onde, o Expresso entrevistou um dos escritores: o alemão Thomas Melle

É uma espécie de caleidoscópio sonoro. Em cada paragem, um autor diferente. No final, quem fizer o périplo completo da 'Noite da Literatura Europeia' terá viajado pelo universo ficcional de uma dezena de escritores muito distintos, uma amostra singular da extraordinária diversidade da criação literária contemporânea, num continente atravessado por significativas assimetrias económicas e culturais. 

O evento, organizado pela representação portuguesa da EUNIC (European Union National Institutes for Culture), terá este ano representantes da Áustria (a prémio Nobel de 2004: Elfriede Jelinek), Espanha (Rafael Chirbes), Grécia (Maira Papathanasopoulou), Alemanha (Thomas Melle), Finlândia (Salla Simukka), França (Chantal Thomas), Itália (Chiara Gamberale), República Checa (Simona Racková), Roménia (Ion Es. Pop) e Portugal (Afonso Reis Cabral, vencedor do Prémio LeYa em 2014, com o romance de estreia: “O Meu Irmão”).

As leituras de excertos, feitas por dezena e meia de actores, terão uma duração entre dez e 15 minutos, repetindo-se de meia em meia hora, para que o público possa circular entre os vários espaços e assistir às sessões que lhe interessarem, durante as cinco horas previstas para a duração do evento, com início às 18h00 deste sábado, dia 6.

KARSTEN THIELKER

Finalista do Prémio do Livro Alemão em 2014, o romance “3000 Euros”, ainda não traduzido para português, oferece um panorama da sociedade germânica que foge às ideias feitas sobre o país de Angela Merkel. À semelhança de tantos europeus do Sul da Europa, os protagonistas do livro vivem existências precárias, de mera luta pela sobrevivência. Antigo estudante de Direito, Anton é um músico que teve vários azares e se encontra às portas da indigência, com uma dívida ao banco de 3000 euros. Uma verba que corresponde ao que Denise, caixa de supermercado com uma filha pequena e um vício (anfetaminas), tem a receber pela participação num filme pornográfico de que se envergonha, e que associa à forma como alguns clientes a olham. Entre Anton e Denise, nasce uma cumplicidade na desgraça que pode, ou não, ir ao ponto de a fazer abdicar do dinheiro de que ele precisa. Mas será que o altruísmo a leva a abdicar do sonho de mudar-se para Nova Iorque? 

Thomas Melle nasceu em Bona (1971), estudou literatura comparada e filosofia, é também tradutor e dramaturgo. O seu romance de estreia, “Sickster” (2011), venceu o Prémio Franz Hessel. Actualmente, vive em Berlim. Estará este sábado em Lisboa, para ouvir a leitura de excertos de “3000 Euros”, por Hugo Bettencourt e Iris Cayatte, na Padaria São Roque (R. D. Pedro V), a partir das 18h00.  

Este sábado, ao fim da tarde, um excerto do seu romance (“3000 Euros”) vai ser lido para um público português. É estranho saber que as palavras que escreveu vão ser ditas por actores, numa língua que desconhece? 
Na verdade, estou muito entusiasmado, porque imagino sempre as personagens de forma muito precisa na minha cabeça, e agora que vão ser ditas por pessoas verdadeiras, é como se ganhassem vida. Conheço este efeito porque também escrevo peças de teatro, e costumo ver as personagens a ganhar vida no palco. Que não compreenda a língua é uma pena, mas ao mesmo tempo estou curioso para saber como as frases vão soar: mais duras, mais cheias, com mais esperança ou ainda mais desesperadas?

Qual é, para si, a importância de fazer parte de um grupo de escritores que apenas têm, como denominador comum, o facto de serem europeus?
Como escritor, sou uma espécie de solitário, por isso nunca me sinto parte de nenhum grupo. Mas é interessante colocar o meu livro numa perspectiva mais vasta, europeia, tendo em conta os problemas que a Europa enfrenta nos nossos dias – problemas que Anton e Denise (os protagonistas de “3000 Euros”) partilham. E é bom encontrar escritores de outros países, ver o que fazem, ouvir os seus pontos de vista. 

Pode explicar como é que este livro e as personagens de Anton e Denise surgiram?
Um livro surge como um fantasma, uma assombração que por vezes te acompanha – mesmo quando não te apercebes de que ele está ao teu lado. Alguns amigos meus, e eu próprio, tivemos problemas semelhantes àqueles que afectam o Anton. As nossas vidas não são estáveis. Mas não é muito comum escrever sobre pessoas pobres que lutam pela sobrevivência – isto sem os minimizar, sem fazer deles heróis. Pensei que esse podia ser um bom ponto de partida. A figura da Denise apareceu-me num supermercado, na caixa registadora. Perguntei-me porque razão haverá tão poucas histórias sobre pessoas como aquela funcionária, pessoas que também têm ambições, combates e momentos divertidos nas suas vidas. Imaginei-me no lugar dela, sentada ali, a ser observada pelos clientes, sem saber quem eles são, ou como são, mas conseguindo vislumbres da privacidade deles através dos produtos que compram. Depois, abri um pouco mais a ideia de ser observada a toda a hora, ao acrescentar a situação do filme pornográfico que ela fez, resultando disso uma paranóia pessoal que me pareceu interessante.

O romance traça um retrato muito duro de pessoas que vivem nas margens da sociedade alemã. Quis mostrar que há um lado menos bom da invejada Alemanha, de que os outros europeus talvez não suspeitem? 
Gosto de provocar esse efeito. O livro foi recentemente traduzido para italiano, francês e grego – pelo que parece que as pessoas querem saber deste outro lado da Alemanha. Aqui, a prosperidade não chega a todas as pessoas, pelo contrário, e o fosso entre ricos e pobres aumenta a cada ano que passa. Na Alemanha, a maior parte das pessoas não está assim tão bem, há uma minoria muito minoritária que detém 60% da riqueza do país. Quando escrevi o livro, quis contar estas histórias individuais sobre o que se passa num estrato esquecido da sociedade. Não pensei em Anton e Denise como europeus ou alemães, mas apenas como seres humanos. O romance podia decorrer em qualquer outro lugar. E escolhi estas personagens porque elas me escolheram a mim. Não creio que exista nada de muito especial na sua situação. Vejo pessoas como eles todos os dias, mas as suas vozes e histórias ficam quase sempre silenciadas. 

Qual é o papel do dinheiro neste livro? O mesmo valor, 3000 euros, significa coisas diferentes para Anton e para Denise...
Quis sublinhar a relatividade do dinheiro e a sua inerente crueldade. Para Anton e Denise, é muito dinheiro e o valor exacto funciona como um fio da narrativa. A ele, falta-lhe o que ela tem. Será que ela o vai ajudar? Quererá ele ser ajudado? Pagar as dívidas resolverá o problema?

Como escritor, mas também como cidadão, como vê o equilíbrio político na União Europeia e as medidas de austeridade que têm sido impostas, sobretudo aos países do Sul, nos últimos anos?

Não sou porta-voz de ninguém, nem como escritor, nem como alemão, nem como cidadão europeu. Outras pessoas podem expressar as suas opiniões políticas, eu limito-me a contar histórias. Mas considero que não existe um equilíbrio na Europa, e que é normal que as populações queiram partilhar a boa vida e a riqueza que os seus vizinhos têm. Por outro lado, a “riqueza” na Alemanha é paga por reformas neoliberais e anti-sociais que provocaram mais injustiças na nossa sociedade. Queremos que a Europa do futuro se desenvolva desta maneira? Não vejo o sistema alemão como um bom exemplo. Há uma década, a Alemanha era “o membro doente da Europa” para a imprensa internacional. Se esperarmos outra década, constataremos que a Europa vai mudar muito outra vez. Mas pelo menos nessa altura Angela Merkel já se terá ido embora, finalmente.

Conhece alguns escritores portugueses? Que pensa deles?
Conheço Fernando Pessoa, claro, e gosto muito dele. Há alguns anos, li Saramago. E tenho ouvido falar de Gonçalo M. Tavares. Pode ser que nesta minha visita alguém me recomende alguns autores. Ficaria muito agradecido.