Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

A PIDE vasculhou todos os cantos da casa. Menos o frigorífico onde estavam os papéis

  • 333

Os monárquicos Gonçalo Ribeiro Telles e Francisco Sousa Tavares são duas figuras determinantes na vida do CNC. Helena Cidade Moura foi a primeira mulher a dirigir o Centro e Sophia a segunda

O Centro Nacional de Cultura foi fundado por três grupos de jovens: uns eram monárquicos, outros da Mocidade Portuguesa, outros da ação católica. Mais tarde esquerdizou-se e foi palco de várias incursões da PIDE. Comemora este ano sete décadas de vida. Conheça as histórias dos vários combates que travou ... e dos assaltos de Carnaval que organizou

A pintora Sarah Afonso foi a primeira mulher a frequentar o Centro Nacional de Cultura e Desportos, pouco depois de um bando de rapazes na casa dos 20 o ter fundado em maio de 1945. Não sabemos se o terá feito por ser uma mulher à frente da sua época, se por já ter o estatuto de senhora casada, ou se por ter mais duas décadas do que qualquer dos fundadores. 

Sabemos apenas que Sarah, mulher de Almada Negreiros, expôs no CNC e frequentou as palestras culturais que ali se realizavam, num tempo em que as meninas nem sequer se abeiravam da porta do 3.º andar do Largo da Misericórdia, primeira sede daquela associação que no futuro seria conhecida por Centro Nacional de Cultura, já que a ideia dos Desportos caiu rapidamente por terra.

José de Almada Negreiros e Sarah Afonso casaram em 1934

José de Almada Negreiros e Sarah Afonso casaram em 1934

Ana Baião, reprodução de foto antiga

Das três fações que integraram o grupo fundador em 1945, só os monárquicos e católicos chegaram à década de 1950. O grupo ligado à Mocidade Portuguesa afastou-se ainda nos anos de 1940, levando atrás de si “a Rádio Luso e as Emissões Portugal que transmitiam música, notícias e as palestras do CNC”, conta Marcos Soromenho Santos, autor dos capítulos sobre a história do Centro que foram publicados nas comemorações do 50.º e 60.º aniversário.

“A Rádio Luso funcionava no 3.º andar da tal casa no Largo da Misericórdia, transmitindo na frequência que fora comprada à Rádio CS 274. Desse grupo inicial de monárquicos, Gastão da Cunha Ferreira foi o primeiro presidente, acompanhado por António Seabra e Afonso Botelho”. Hoje, só resta Gonçalo Ribeiro Telles, sócio n.º 1, com 93 anos de idade. Do lado da Mocidade Portuguesa estiveram no CNC, entre outros, Baltazar Rebelo de Sousa, Luís Avillez e João Paulo Cancela de Abreu.

Gonçalo Ribeiro Telles, ecologista e monárquico, é o sócio nº1 do CNC

Gonçalo Ribeiro Telles, ecologista e monárquico, é o sócio nº1 do CNC

António Pedro Ferreira

Foi-se a rádio mas ficou Fernando Amado e o grupo de teatro que na década de 1950 haveria de fazer uma migração, fazendo nascer a Casa da Comédia. O orpheista Almada Negreiros “era uma figura tutelar dos rapazes do CNC”, diz Guilherme d’Oliveira Martins atual presidente do Centro. Fizeram exposições, a atividade era intensa. A associação que vivia sobretudo da boa vontade dos seus membros, foi mudando de sede, em busca de rendas mais favoráveis. Na década de 1950 organizaram ‘assaltos de Carnaval’ pagos, já na rua António Maria Cardoso, para obter receitas. O divertimento era parte integrante da celebração da cultura. 

Ainda na década de 1950, acolheu o  'Movimento 57', dada a  enorme proximidade que José Marinho, "o mais sólido desse grupo no plano filosófico" tinha com Afonso Botelho, conta Oliveira Martins. Este movimento da cultura  portuguesa ficou conhecido  pelo  nome  da  revista que publicou: Revista 57.

Na década seguinte, em 1965, a noite de 21 de maio marcaria o momento em que um conhecido monárquico de Lisboa foi levado a engendrar uma solução que provocaria a segunda cisão na história do CNC, e que haveria de provocar a saída de quase todo o grupo monárquico que por ali andava desde que a associação surgiu. Poucos dias antes dessa terrível noite de maio, a Sociedade Portuguesa de Escritores distinguia o escritor angolano Luandino Vieira com o Grande Prémio de Novelística desse ano, pelo romance "Luuanda", uma narrativa de palavras novas e quase mágicas que questionava o colonialismo e a guerra colonial. O gesto não caiu bem ao regime salazarista, demasiado apostado em repetir com frenesim ‘Angola é nossa’.

Guilherme d'Oliveira Martins é presidente do CNC desde 2003

Guilherme d'Oliveira Martins é presidente do CNC desde 2003

Nuno Botelho

Talvez tenha sido por isso, ou apenas pelo costumeiro hábito da repressão que, nesse aziago 21 de maio, por volta das 22H00, a sede da SPE em Lisboa, foi assaltada e vandalizada; as atas e documentos foram destruídos, e os escritores perderam o local de encontro e reunião. Se é verdade que o assalto foi cometido por forças ligadas ao Estado Novo, também é verdade que muitos se indignaram. O livro circulou e o assalto chamou a atenção da imprensa estrangeira. Era urgente que alguém ajudasse os escritores a encontrarem um novo poiso. 

É então que o monárquico Francisco Sousa Tavares, membro do Centro Nacional de Cultura desde há muito, desafia a escritora Sophia de Mello Breyner, sua mulher, a candidatar-se à presidência do Centro, garantindo assim que o CNC acolheria os escritores sem sede. A solução era perfeita, até porque Henrique Martins de Carvalho, monárquico, católico e diplomata muito ligado ao CNC, tinha sido ministro do Salazar entre 1958 e 1962... e tinha fama de ser um homem suficientemente eclético para tolerar e ajudar na resolução de imprevistos que ali fossem surgindo.

Sophia de Mello Breyner foi a segunda mulher a dirigir o CNC

Sophia de Mello Breyner foi a segunda mulher a dirigir o CNC

António Pedro Ferreira

Sophia candidata-se e o Centro renova-se com a entrada deste grupo. A renovação e a situação política então vivida acabam por abrir porta a uma época de discussão política e social no interior do CNC. Sophia foi eleita e, por ironia do destino, a casa que acolheu os escritores portugueses era no nº 68 da Rua António Maria Cardoso, poucos prédios acima da sede da PIDE. Este período abre a porta para uma fase de esquerdização do CNC que conheceu o seu auge na ‘primavera marcelista'. O CNC que sempre tinha sido uma instituição de debate cultural, assume-se como pólo contestatário nos anos seguintes. Católicos progressistas, intelectuais descontentes, uma geração mais jovem do que a dos fundadores do Centro. A sucessão dos acontecimentos iria determinar o afastamento de quase todo o grupo monárquico que fundara a instituição, "em 1967", lembra Marcos Soromenho.

Dois anos depois, em plena primavera marcelista, as eleições de 1969 emprestam alguma esperança de abertura. A oposição reunia-se no CNC e era também ali, nas barbas da PIDE, que funcionava a "Comissão de Apoio aos Presos Políticos", conta Oliveira Martins, lembrando a existência de "uma passagem secreta que permitia fazer as pessoas saírem pelas traseiras", sem serem vistas pelos agentes da polícia política do Estado Novo. 

O Centro "planeou então uma iniciativa de grande vulto, consubstanciada em três sessões a serem realizadas em Março de 1969, sob o tal nome genérico de «Lusitania, Quo Vadis?». Política Económica, Acção Cultural e Perspectivas Políticas", escreve a então vice-presidente Joana Lopes no blogue Caminhos da Memória. As palestras foram agendadas para a sede da Sociedade Nacional de Belas Artes, a menos de 100 metros da Avenida Liberdade.

Jorge Sampaio e Francisco Sousa Tavares. Em 1969, Sampaio era um dos oradores da última conferência Lusitania Quo Vadis, proibida pela PIDE

Jorge Sampaio e Francisco Sousa Tavares. Em 1969, Sampaio era um dos oradores da última conferência Lusitania Quo Vadis, proibida pela PIDE

DR

As duas primeiras sessões realizaram-se, mas a terceira foi boicotada pela PIDE, que mandou fechar a Sociedade de Belas Artes na véspera. As perguntas seriam feitas por José Lopes de Almeida e Mário Brochado Coelho, e as respostas caberiam a Mário Soares, Jorge Sampaio e Mário Sottomayor Cardia. Tudo gente da oposição.

A direção do CNC, presidida por José Manuel Galvão Telles, fez várias tentativas para encontrar uma sala alternativa para essa noite de 19 de março, dia de São José. Ao todo foram 18 contactos, segundo Joana Lopes. À hora prevista, juntou-se uma multidão à porta da SNBA.  E ouviu-se uma voz a oferecer um local para reunirem. Era "Rui Peixoto, dono de uma fábrica de papel no bairro de Alvalade", conta Marcos Soromenho.

José Manuel Galvão Telles era presidente do CNC quando a PIDE tentou proibir uma conferência com Mário Soares e Jorge Sampaio

José Manuel Galvão Telles era presidente do CNC quando a PIDE tentou proibir uma conferência com Mário Soares e Jorge Sampaio

DR

Rapidamente a multidão transferiu-se para a Av. do Brasil. A fábrica era pequena para tanta gente. Foram muitos os que ficaram à porta. "Estariam, segundo dados da própria polícia, cerca de 350 pessoas dentro da sala e 600 na rua. Temíamos uma intervenção porque o tempo avançava e era imperioso terminar antes da meia-noite. Foi então decidido correr o risco de sobrecarga por alguns minutos e abriu­­‑se a porta para que mais pessoas pudessem entrar: os referidos dirigentes estudantis da extrema­‑esquerda, que garantiram conseguir uma sala para que fosse possível repetir a sessão, no dia seguinte, com espaço suficiente para todos", escreve Joana Lopes no blogue. 

A reunião do dia seguinte não aconteceu porque a polícia entrou em ação com bastonadas. Marcos Soromenho diz que Galvão Telles "foi preso por atividades que realizou enquanto presidente do CNC".

Às eleições de 1969, concorreram dois movimentos da oposição: CDE, a que Galvão Telles estava ligado, e a CEUD a que estavam ligados Mário Soares e Salgado Zenha. A divisão no interior do CNC determinou a saída de Galvão Telles da direção.

Francisco Sousa Tavares no dia 25 de Abril de 1974

Francisco Sousa Tavares no dia 25 de Abril de 1974

DR

Pouco depois, o monárquico Francisco Sousa Tavares seria mais criativo e eficiente do que os agentes da PIDE, protagonizando uma das mais fantásticas memórias da história do CNC na época da ditadura. A PIDE encerrara a Cooperativa Pragma, "que publicava os cadernos do GEDOC", conta Marcos Soromenho. Numa palestra na sede do CNC, o arquiteto Nuno Teotónio Pereira, ligado ao movimento dos Católicos Progressistas, aproveita para distribuir estes cadernos. 

Alguém dá o alerta de que a PIDE se preparava para entrar. Sousa Tavares assegura que todos abandonem a sede - a tal passagem secreta - e sai pela porta da Rua António Maria Cardoso, onde é intereceptado pelos agentes da PIDE que o mandam reabrir as instalações. Querem fazer uma busca.

"Vasculharam tudo. O Sousa Tavares estava divertidíssimo quando me contou este episódio.... viram tudo, mas esqueceram-se de procurar no frigorífico", recorda Marcos Soromenho. E era aí, frescos e conservados, que estavam os panfletos proibidos.

Helena Cidade Moura foi a primeira mulher a dirigir o CNC

Helena Cidade Moura foi a primeira mulher a dirigir o CNC

Arquivo A Capital

Em 70 anos, o CNC teve amigos ímpares, como António Alçada Baptista, e 21 presidentes: 18 homens e três mulheres. Helena Cidade Moura, cunhada de Francisco Pereira de Moura, o ministro que em 1974 tomou posse sem gravata, foi a primeira mulher a dirigir o CNC em 1961. Filha do professor Ernâni Cidade teve um papel determinante nas campanhas de alfabetização do pós 25 de Abril.

Dezassete anos depois, a jornalista Helena Vaz da Silva sucede ao historiador José Augusto França à frente do CNC. Helena fez parte do núcleo inicial do "Expresso"; em 1980 publica o seu último artigo neste jornal. No "Expresso", coordena a página "Alternativas" cujos temas de rotura seriam desenvolvidos com outra abordagem na "revista Raiz & Utopia", lembra Oliveira Martins.

Helena Vaz da Silva foi jornalista do Expresso

Helena Vaz da Silva foi jornalista do Expresso

Rui Ochoa

Helena permaneceu no CNC até 2002, ano da sua morte, e foi a mulher que preparou a associação cultural fundada em 1945 para enfrentar os desafios do século XXI. Por ocasião da gala comemorativa dos 70º aniversário, o Governo português entregou duas medalhas de Mérito Cultural: uma foi para Alberto Vaz da Silva, viúvo de Helena. A outra para o sócio nº1, Gonçalo Ribeiro Telles.