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Esta é uma história que acaba bem

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Espreitava pelos vidros partidos e via uma sala com um teto mais ou menos trabalhado, prateleiras e uma janela grande de lado, mas não via mais nada. Até que entrou

Helena Bento

Jornalista

Passou uma vez, passou duas, passou três. Não conseguia ver o que havia ali dentro. As portas estavam fechadas, os vidros partidos, e era através deles que espreitava. Reparou que havia uma sala com o teto mais ou menos trabalhado, e que nessa sala havia algumas prateleiras e uma grande janela de lado. Reparou, antes de reparar na sala e no teto e nas prateleiras e na janela grande, que o espaço estava destruído (isso via-se a milhas, bastava olhar da rua) e que era pequeno (enganava-se, afinal). 

Quis saber o que era, entrar. Sabia o que havia atrás de todas as portas da freguesia da Graça, que conhece bem (é ali que mora), menos daquela. Conseguiu arranjar um número de telefone. Telefonou mais do que uma vez. “Em Lisboa, é muito difícil passar do interesse que um sítio tem até conseguir vê-lo e, a partir daí, iniciar o processo. Existem poucos senhorios, ao contrário do que se pensa. Há um sítio numa determinada rua que tem interesse, e outro noutra rua. Descobre-se que pertencem à mesma pessoa, e que essa pessoa prefere mantê-los fechados. Normalmente, por causa de partilhas, de heranças.” 

Mas depois soube: foi ali, naquele espaço no nº 60 da Rua Voz do Operário, que nasceu a Caixa Económica Operária, antigo banco social para os trabalhadores da indústria tabaqueira, a quem era oferecida uma medida de pão, fabricado numa das salas (eram três, afinal, bem que estava enganada) da então panificadora, de modo a que pudessem suportar as suas despesas. Estava fechado há 10 anos porque foi à falência, contou-lhe o senhorio.

Clara (Clara Alice) já tinha aparecido. Clara estivera envolvida num projeto de inclusão social, que consistia em dar às comunidades ferramentas para fazerem pequenas peças de artesanato urbano e conseguir, através desse reaproveitamento, algum “pocket money”. Depois foi trabalhar para o Bartô, bar do Chapitô, em Lisboa, onde conheceu Alexandra Vidal (de quem temos vindo a falar), então responsável pela programação e gestão do bar. 

No verão, poucos meses antes de Alexandra encontrar aquele lugar fechado, destruído, abandalhado, Clara perguntou-lhe se gostava de abrir um espaço com ela. “Desafiámo-nos um bocadinho uma à outra, porque eu também andava à procura de um espaço novo.” Alexandra passou ali uma vez, passou duas, passou três. O que haveria ali dentro, seria pequeno, grande, uma, duas salas, parecia-lhe pequeno, mas não podia garantir, talvez não fosse. Só conseguia ver através dos vidros partidos, e não via muito. Como é que seria antes de ser destruído. Não sabia. Mas o “novo espaço” estava encontrado.

Centro de peste e danação

Havia um cheiro estranho no ar. Não conseguiram identificá-lo logo. Talvez viesse das tampas embutidas no chão de duas das três salas. “Não vale a pena abrirem isso porque são esgotos”, disse-lhes o senhorio. Mas a curiosidade levou a melhor. Levantaram-nas e descobriram que as tampas davam acesso a “caves gigantescas”, onde estavam guardados os materiais usados nos dois fornos da sala do fundo: tanques de gasóleo e lenha, a lenha com “uma camada de húmus deste tamanho” (diz Alexandra, com o dedo indicador e o polegar a muitos centímetros de distância), “denso e preto”.

Também na sala do fundo, as paredes, revestidas de azulejos, desfaziam-se em cinza assim que se lhes tocava, por causa do calor que durante anos emanou dos fornos, “cada um com cerca de cinco metros quadrados, completamente carbonizados” (há agora, num deles, uma teia de aranha, mesmo junto à entrada). A cozinha, “centro de peste e danação”, parecia ter sido atacada por um batalhão de pregos, “para aí uns 500” (“usavam pregos para tudo”, vá-se lá saber porquê), e as casas de banho pareciam “sugar energia”, diz Alexandra. “O empreiteiro ficou com pena de nós. Foi sangue, suor e lágrimas.”

DAMAS, um minicentro

As pessoas estavam “muito descrentes”. Não acreditavam que Alexandra e Clara conseguissem ter tudo pronto em três meses, como aconteceu, nem cumprir os orçamentos, como também aconteceu. “Vocês são malucas”, diziam-lhes. Começaram as obras no final de janeiro. No dia 25 de abril, o espaço foi inaugurado. Tudo certinho, cumprido à risca.

Apesar da peste e da danação e do sangue, suor e lágrimas (por assim dizer), o espaço tinha mesmo de ser este. “É muito grande, e isso permitiu-nos desenvolver um projeto transversal e pluricultural, em que a experiência das pessoas se multiplica por uma série de vertentes, que era o que desejávamos.” 

Além de bar, o DAMAS, assim foi batizado, é também restaurante e sala de concertos. A programação dos concertos, que acontecem às sextas e sábados, está a cargo tanto das “duas damas”, como de outros promotores mais ou menos fixos: Associação Terapêutica do Ruído, Sara e Margarida Mendes, da Waterfalls, Carlos Serra, Celeste/Mariposa, MATERNIDADE, Fábio Costa, da Lovers & Lollypops, entre outros. “A ideia é apresentar uma programação eclética, que não se foque apenas num género de música ou de evento”, explica Alexandra.

Também a comida reflete essa “pluralidade”, essa vontade de criar um “minicentro de convívio que misture muitos públicos”. Três exemplos: em dias de música africana, faz-se comida africana. Em dias de apresentações de livros, como aconteceu a 29 de maio, de uma escritora catalã, faz-se comida “inspirada no livro”. E noutro dia, cuja data ainda não se sabe, prepara-se uma “noite extinta” e faz-se pratos com 500 ou 600 anos. “Aqui não há restrições.” Nem podia. Esta é uma história que acaba bem.