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Ela não gosta de luzes fortes, mas é a luz disto

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Patti Smith. A madrinha do punk

FOTO Organização Primavera Sound

Patti Smith lembra-nos que é forte, mas não se esquece que tem 68 anos. Começou em Barcelona o Primavera Sound. Na próxima semana é no Porto. 

Lia Pereira

Lia Pereira

Jornalista

O festival que é uma verdadeira instituição do indie arrancou ontem, na capital da Catalunha. A histórica Patti Smith, com quem falámos, e o novato Tom McFarland, com quem também trocámos algumas palavras, são rostos complementares da juventude que continua a marcar o festival, agora na sua 15ª edição. Para a semana o Primavera regressa ao Porto.

Serenidade é, talvez, a expressão que melhor descreve o ambiente em redor de Patti Smith, figura maior da história do rock que encontrámos numa discreta sala de ensaios a poucos minutos do Parq del Fórum, onde este ano acontece o Primavera Sound.

Apesar do nervosismo do seu manager, preocupado com a intensidade das luzes da câmara da SIC (“Ela não gosta de luzes fortes”, alerta, agitado), e da reverência disponível do pessoal dos estúdios Lau Nau, claramente entusiasmado com a presença da madrinha do punk, 15 minutos com Patti Smith enchem-nos de uma estranha calma. Como se soubéssemos que tudo vai correr bem.

Vestindo um longo camiseiro branco (“Estava assim na capa do ‘Horses’”, lembra, a propósito da sessão fotográfica que deu origem à icónica capa), e com o cabelo branco a contrastar com uma pele quase imaculada, a norte-americana falou-nos, com generosidade, do concerto que vai dar hoje. Ou por outra, dos concertos: se hoje recordará “Horses”, amanhã fará uma sessão acústica e de spoken word, dose dupla que se repete na próxima semana, no Nos Primavera Sound, no Porto.

O que ainda a entusiasma em festivais desta envergadura? Patti Smith não hesita: a possibilidade de comunicar, de diferentes formas e para diferentes plateias. É isso que a faz continuar. A energia das pessoas jovens, intensa e apaixonada, emociona-a e a “vida dos festivais” agrada-lhe sobremaneira. Vai aproveitar para ver algum concerto?, perguntamos. “Eu gosto sobretudo de ver espetáculos de ópera. Neste momento estou a acabar um livro novo, pelo que quando não estou a tocar aproveito para escrever. Eu sou forte, mas tenho de me lembrar que tenho 68 anos”, diz, com aquela calma que nos reconforta e inspira. Teremos mais para ler sobre esta entrevista muito em breve.

A importância de ter... sorte

Horas mais tarde, e enquanto os Black Keys desfilavam êxito atrás de êxito no Palco Primavera, encontrámos Tom McFarland, dos britânicos Jungle, na zona de imprensa do festival. A algumas horas de entrarem em palco (“Nunca tocámos tão tarde”, confessava-nos o músico com ordem de “partida” marcada para as 1h55), o jovem de 26 anos emana aquele entusiasmo quase naïf de alguém que está a começar algo, e a fazê-lo com gosto. Para McFarland, que com o amigo de infância Josh Lloyd-Watson compõe os Jungle, o sucesso do primeiro álbum da dupla, um homónimo lançado pela XL Recordings no ano passado, deve-se a um fator: “à sorte”. Franzimos o sobrolho: falsa modéstia? “Não”, apressa-se ele a ripostar. “Se pensares na história da música, há muitas grandes obras que nunca tiveram reconhecimento. É preciso ter sorte… 

Nós não tínhamos expectativas, porque ter expectativas é de certa forma mostrar arrogância”, argumenta, com a mesma pureza que, já perto do final da nossa conversa, se congratula por, nos últimos meses, ter praticamente dado a volta ao mundo com os Jungle. “No nosso primeiro disco podíamos escrever uma canção pensando no que seria estar numa praia em Copacabana ou em Tóquio, e agora já estivemos nesses sítios! No nosso segundo disco já vamos poder refletir isso”. É a melhor parte do ofício? “Sem dúvida”, exclama o rapaz que, para a semana, além de atuar no Nos Primavera Sound, tocará numa Brixton Academy, na sua cidade de Londres, já esgotada. “Antes de a banda começar só tinha andado três vezes de avião… Só ontem apanhei três voos!”.

Num dia marcado pela operação de charme de Chet Faker no Palco Ray-Ban e pelas manobras conceptuais de Antony and the Jonhnsons no Palco Heineken, a calma seráfica de Patti Smith e o fresco entusiasmo de Tom McFarland, metade dos Jungle, ajudaram-nos a absorver o espírito de um festival que, na sua 15ª edição em Barcelona, continua a cruzar, na mesma noite, a imediatez dos riffs blues-rock dos Black Keys e o terrorismo apocalíptico dos Sunn O))). Em paz.