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O Almoço do Trolha vendido por preço recorde

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D.R.

Óleo sobre aglomerado de Júlio Pomar executada durante o período ditatorial foi vendida em leilão.

Símbolo do neorrealismo português e pintado em dois momentos, em 1947 e 1950 — antes e depois de ter estado preso no Forte de Caxias —, “O Almoço do Trolha” foi exposto ainda inacabado. O óleo sobre aglomerado foi licitado esta quarta-feira no Palácio do Correio Velho, em Lisboa, e vendido por 350 mil euros. A identidade do comprador é até agora desconhecida.

Na passada quinta-feira, e depois de a Palácio do Correio Velho ter anunciado o leilão, a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) enviou uma notificação à leiloeira, informando-a da abertura de um processo de classificação do quadro. Uma decisão inédita em Portugal — uma vez que até agora nenhum artista vivo viu alguma obra classificada — e que para Alexandre Pomar, filho do artista e administrador da Fundação Júlio Pomar, dá “reconhecimento a uma obra importante na História da Arte Portuguesa do século XX”. 

Embora os trabalhos de classificação se possam prolongar por um ano, estes não impediram a venda do quadro, sendo apenas vedada a saída da obra do país (as normas estão expressas na Lei de Bases do Património Cultural). O Estado ganhou também alguns direitos, como a opção de compra, podendo optar por participar ativamente no leilão ou adquirir o lote no fim, pelo preço da licitação mais alta. 

O vice-presidente do conselho de administração da Fundação Júlio Pomar avançou que lhe falaram da existência “de diligências no sentido de mobilizar o Estado, assim como bancos e grupos financeiros, para a compra da obra — ainda antes do início do processo de classificação”. Às entidades contactadas foi ainda explicada a importância da obra e da possibilidade de “compra e posterior depósito num museu, como o do Chiado”, onde “O Almoço do Trolha” seria exposto no espaço dedicado à arte do século XX, juntamente com trabalhos de artistas como Fernando Lanhas ou Bordalo Pinheiro. 

Foram seis décadas nas mãos de Manuel Torres, fundador da Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses e amigo de Júlio Pomar. Agora, “O Almoço do Trolha” bateu o recorde da leiloeira para valor conseguido numa só venda. Com um preço base de 300 mil euros, estava muito perto do conseguido por “O Serão”, de Columbano Bordalo Pinheiro (óleo sobre madeira, de 1880, arrematado em 2001por 310 mil euros). Sobre os valores que a peça podia alcançar, Alexandre Pomar preferiu não avançar com números, dizendo ao Expresso que “as obras valem o que pagarem por elas”. Acabou por valer mais 50 mil euros que o valor base anunciado.

No total, o leilão 333 da leiloeira Palácio do Correio Velho, dedicado a Antiguidades e Arte Moderna e Contemporânea, apresentava 565 lotes. Além de “O Almoço do Trolha”, Júlio Pomar era ainda representado em 22 outros trabalhos (7 originais e 15 obras gráficas), dos quais o administrador da Fundação também nos falou. “É um conjunto significativo” de obras dos anos 60, já depois da fase neorrealista, “com temas do interesse do artista, tais como as cenas de debulha, de pescadores, do arrastar dos barcos, das pisas do vinho e da tauromaquia”, exploradas já fora daquele período mais simbólico. Nos restantes lotes existem também obras de artistas como Bual, Columbano, Nadir Afonso ou Paula Rego.

[Notícias atualizada às 22h30]