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Gulbenkian. "Os homens do petróleo são como gatos"

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A historiadora Fernanda Rollo apresentou esta terça-feira a tradução portuguesa de "Pantaraxia - Autobiografia", de Nubar Gulbenkian. Um livro que conta histórias picarescas e questiona o testamento de seu pai, Calouste Gulbenkian. 

"Os homens do petróleo são como gatos, costumava dizer meu pai. Uma pessoa nunca sabe, quando os ouve, se estão a lutar ou a fazer amor" é uma das frases que se lê na contracapa do livro "Pantaraxia - Autobiografia", de Nubar, filho do grande mecenas da cultura e investigação em Portugal.  Além de ser um curioso relato de intrigas e episódios, muitos deles picarescos, o livro divulga 13 cartas trocadas entre Lorde Radcliffe e Azeredo Perdigão, os dois advogados de Calouste Gulbenkian, a propósito da fixação ou não em Portugal da Fundação que tem o seu nome.

Radcliffe e Perdigão tinham ideias diferentes sobre a forma como deveria ser executado o testamento do magnata arménio do petróleo, e sobre se a fundação que foi criada em 1956 deveria ficar ou não em Portugal. Salazar interveio no processo com o objetivo de defender os interesses do Estado português. 

Nas palavras de Nubar, "Cyril Radcliffe só se retirou após ter explorado todos os meios ao seu dispor para alcançar uma conclusão satisfatória". "Obteve aconselhamento jurídico de dois distintos professores portugueses. Teve duas longas conversas com o primeiro-ministro português, Dr. Salazar. Falou com outros ministros do Governo português. Manteve uma correspondência prolongada e detalhada com o Dr. Perdigão, que inicialmente acreditava estar a atuar como intermediário entre ele o Governo português. Teve mais discussões com o então Embaixador português em Londres. Desde o início até à sua decisão de não aceitar a presidência do Conselho, em junho de 1956, quase um ano após a morte de meu pai, Lord Radcliffe e eu mantivemos estreito contacto.".

A decisão sobre os desígnios da Gulbenkian foi palaciana mas não foi pacífica. José António Barreiros, editor da versão portuguesa deste livro, que foi publicado pela primeira vez em Londres em 1965, diz que "Pantaraxia" "retrata uma visão crítica quanto ao modo como foi interpretada a vontade do testador no que à criação da Fundação respeita". 

Calouste Gulbenkian, o cidadão arménio que nasceu em Istambul em 1869, chegou a Lisboa em 1942. Tinha 73 anos e a ideia de que Portugal seria uma plataforma estratégica para partir para os EUA, mas acabou por ficar. Gostou de Lisboa, do já demolido Hotel Aviz, e quando redigiu o seu testamento em junho de 1953  [de acordo com o site da fundação que tem o seu nome], "estabeleceu a constituição de uma fundação internacional, com o seu nome, herdeira do remanescente da sua fortuna, com sede em Lisboa, presidida pelo seu advogado de confiança, Lord Radcliffe"lê-se no site da fundação. Tudo indica que o seu filho Nubar, homem de muitas vidas e aventuras, gostaria que Radcliffe tivesse ficado aos comandos da fundação. Isso não aconteceu e "Pantaraxia" é uma palavra inventada por Nubar para "manter as pessoas atentas". 

A historiadora Fernanda Rollo apresentou "Pantaraxia" esta terça-feira, pelas 19h00. A sessão realizou-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.