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O dia em que a Força começou a dominar o universo

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Sascha Steinbach/Getty Images

Maio de 1977. Numa galáxia distante há forças rebeldes a lutar contra o domínio cruel do Império, há cavaleiros Jedi que aprendem a dominar a “Força” e a manejar sabres de Luz, criaturas e mundos alienígenas nunca antes vistos. E à porta dos cinemas há filas intermináveis para ver “Star Wars”, que iria dar origem a uma das maiores sagas do cinema, contra todas as previsões, até do próprio realizador. Mas como é que um filme em que quase ninguém acreditava à partida acabou por ser um dos maiores sucessos de todos os tempos? 

Ninguém na sala acreditava no sucesso daquilo. “É o pior filme que eu já vi na vida”, terá mesmo dito Brian de Palma. No dia em que George Lucas o mostrou a um grupo de amigos, ainda antes da estreia oficial, todos disseram que a coisa ia morrer ali, à nascença. “Coitado do George...”, ouviu-se entre dentes. Todos menos um, que se levantou da cadeira e disse: “Este vai ser o maior filme de todos os tempos”. Esse chamava-se Steven Spielberg.

Na verdade, até o próprio Lucas estava convicto que “Star Wars” (em português, “A Guerra das Estrelas”) ia ser um “flop”. A 25 de Maio de 1977, foram menos de quarenta os cinemas nos Estados Unidos que aceitaram passar a película. O próprio realizador nem sequer compareceu à estreia. Em vez disso estava de partida para umas férias no Havai com o amigo… Spielberg. Toca o telefone.

“Não vais acreditar nisto! Há filas intermináveis à porta do cinema.”

E não acreditou mesmo. Ao entusiasmo de Alan Dadd Jr., à altura presidente dos estúdios da 20th Century Fox, Lucas respondeu com ceticismo. Disse-lhe que aquilo era tudo fruto da adesão inicial de alguns quantos maluquinhos de ficção científica, ele que deixasse passar mais umas semanas que a coisa iria esmorecer. Só que lá passaram mais umas semanas, e as filas à porta dos cinemas continuavam a aumentar. Toca de novo o telefone, desta vez Lucas já está a banhos numa praia do Havai.

“Pá, liga já a televisão na CBS, vê o que é que está a passar no programa do (Walter) Cronkite! Liga isso rápido”.

Lucas lá ligou o aparelho a contragosto e a televisão passava, naquele momento, uma reportagem sobre as filas intermináveis e cada vez mais extensas para ver “Star Wars”, tanto que já davam a volta ao quarteirão. Foi apenas nesse momento que George Lucas caiu na real: sem o saber, tinha nas mãos um bilhete premiado da lotaria. Só este filme iria fazer perto de 800 milhões de dólares à altura, e iria dar origem a uma saga que, contando com os filmes e o merchandising associado, hoje em dia vale muitos mil milhões.

Afinal, porque é que a “Força” tem tanta força?

Para quem não tenha uma noção mínima da história, aqui vai um breve resumo, em poucas linhas, de como começa. Tudo se passa numa galáxia distante, “far far way”. Há uma guerra civil em curso, e as forças rebeldes roubaram os planos do Império de construir uma arma nunca antes vista, a “Estrela da Morte”, que terá a capacidade de destruir planetas. A nave é atacada por forças imperiais comandadas pelo terrível Lord Vader, mas a princesa rebelde, Leia, consegue esconder os planos num droide e enviá-lo para o planeta Tatooine. Este é apenas o resumo da sequência inicial de “Star Wars”, e o início de uma grande epopeia que, a partir dali, vai contar com personagens marcantes que os fãs dos filmes nunca mais vão esquecer, como Luke Skywalker, Han Solo, Chewbacca, Yoda, e, claro, o temível Darth Vader…

Mas, afinal, porque terá tido tanto sucesso um filme no qual o próprio realizador não acreditava à partida, que acabou por dar origem a mais dois (“O Império Contra-Ataca”, em 1980, e o “Regresso de Jedi”, em 1983), e ainda a uma prequela com mais três outros filmes já nos anos mais recentes? Uma das explicações reside no vasto universo criado pela história que saiu da cabeça de George Lucas, algo que, à altura, não tinha comparação.  Ao contrário do que se passava com todos os filmes anteriores de ficção cientifica, aqui não há sequer qualquer ligação ou referência ao planeta Terra (como acontece, por exemplo, com o grande rival, a saga “Star Trek”). Como prometia o próprio trailer original do filme de 1977, “algures no espaço tudo isto pode estar a acontecer neste momento”.

No resto, o que acaba por estar na base de tudo é a velha luta maniqueísta entre o bem e o mal, entre os que dominam a “Força” que comanda tudo aquilo que existe no universo, entre os Sith, que escolhem estar no seu “lado negro”, ou os Jedi, que a dominam para o bem e para promover a paz na galáxia.

Mas voltemos ao início e ao filme que deu origem a tudo, faz agora 38 anos. Se George Lucas acreditava que a sua própria obra não iria ter grande adesão, na verdade tinha algumas boas razões para isso. A história começou a ser escrita em 1973, e até o filme estrear e ser o maior sucesso de sempre à altura foi sofrendo várias alterações. As dúvidas eram mais do que as certezas. Até o personagem principal, Luke Skywalker, chegou a chamar-se “Starkiller”, e o nome só foi alterado já durante a rodagem. Versões do guião antes das filmagens começarem foram mais do que muitas.

A própria fase de rodagem viria a trazer maus augúrios. As filmagens do planeta Tatooine decorreram no deserto da Tunísia, e logo no primeiro dia a produção teve de adiar os trabalhos por causa das maiores chuvas em mais de meio século naquela região.

Na verdade o que Lucas queria mesmo fazer era “Flash Gordon”, mas como não conseguiu teve de criar a sua própria “ópera espacial”. Acabou por acertar em cheio.

Para os fãs da saga, para além das aventuras de Luke, Leia, Han Solo e Chewbacca, um dos elementos mais marcantes do filme é a banda sonora. E aqui, mais uma vez, houve o dedo de Spielberg, que recomendou John Williams, com quem já tinha trabalho em “Tubarão”. A banda sonora foi gravada em apenas 12 dias pela Orquestra Sinfónica de Londres, e é considerada pelo American Film Institute como a melhor de todos os tempos.

Agora, quase quatro décadas depois da estreia do primeiro “Star Wars”, os fãs estão de novo em alvoroço. A Força vai regressar já este ano com o primeiro de mais três filmes da saga (desta vez uma sequela), que vai recuperar muitas das personagens e atores do Star Wars original, como Harrison Ford, Mark Hammill e Carrie Fisher. O filme só estreia a nível mundial a 18 de dezembro, mas já há vários trailers e teasers a circular na Internet. Que a Força esteja novamente convosco.