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“Antes do avião, a literatura” – imaginação e realidade em discussões junto à serra

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Um festival literário no Fundão tornou a mostrar que as conversas vão bem com as cerejas.

Luís M. Faria

Já era dia claro pelas 06h10 de domingo. Numa rotunda ao cimo do Fundão, uma mulher de quarenta e tal anos, bata às riscas, ar um pouco maltratado, esperava sozinha sentada à porta de um café fechado. Ia para a apanha da cereja. Pegava às sete, ainda tinha quase uma hora de espera. Começámos a falar. Contou que esteve 15 anos a servir em Lisboa, antes de regressar à terra. É doente, toma vários comprimidos por dia. O filho maior vive em sua casa, mas só arranja trabalho de vez em quando. É a mãe que vai apanhar cerejas, para acrescentar algum dinheiro ao orçamento. Vinte e sete euros por dia. Os homens ganham €30, mas se forem búlgaros ou romenos parece que o preço é €20. Ela garante que não, onde ela vai os homens ganham todos o mesmo (já nos tinham explicado: “Nesta altura, para quem queira, não falta trabalho”).

Doenças, comprimidos de manhã à noite, mas necessidade de trabalhar: um flash do país que sempre existiu e que de repente se tornou mais visível. Daqui a pouco tempo a mulher vai viver com a filha e o marido, na casa deles em Aveiro. A filha abriu há tempos um café, mas teve de fechar. Nesta cidade pequena, cujo centro se atravessa em minutos, há imensos cafés, mas não deve haver clientes para alimentar muitos deles. Tirando a época das cerejas, que agora pode chegar aos três meses, falta emprego. Contudo, percorrendo as ruas bem tratadas na avenida principal e à volta, logo se detetam os sintomas de uma prosperidade recente: prédios novos, com frequência pintados de rosa ou laranja, cujo desenho exibe as migalhas típicas do pós-modernismo: arcos e arquinhos, passagens falsas, pedimentos, etc.

Uma história igual à de tantas outras cidades. Ao cimo da avenida, um espaço ladeado por edifícios grandes: Centro de Negócios, Biblioteca Eugénio de Andrade, uma área tipo Fórum, ampla, moderna, com bancos de pedra. O tipo de espaço que só dinheiros “de fora” permitem construir. Tal como o edifício da moagem, o principal equipamento cultural da cidade, com teatro e espaço para exposições, ao fundo da avenida. Nesse lugar real decorreu parte do festival literário Lugares Imaginários, que levou ao Fundão algumas dezenas de convidados, entre participantes e jornalistas.

Um dos convidados era António Valdemar, jornalista veterano e conversador emérito. O seu contacto com a terra vem de há muito. A certa altura, olhando os impecáveis passeios modernos e as lojas de bom aspeto, comentou: "Foi o jornal do Fundão que fez isto tudo". De facto, custa imaginar o que era o Fundão há umas escassas décadas. No hotel onde nos instalaram há umas fotos a preto e branco de casas baixas e pobres, tal como era antes. Ao longo das décadas, antes e depois do 25 de abril, o semanário fundado por António Palouro adquiriu uma projeção muito acima da sua dimensão regional, em parte por causa de e em parte em consequência de sucessivas campanhas para promover melhorias na cidade e na zona. O túnel da Gardunha foi apenas o resultado mais visível desse esforço.

Como um pássaro que debica

Em certos lugares, nem a imaginação faz muita falta

Em certos lugares, nem a imaginação faz muita falta

Créditos: Pedro Loureiro

Agora que se comemoram cem anos sobre o nascimento de Palouro, e 50 sobre a data em que o jornal do Fundão foi suspenso durante seis meses por ter noticiado a atribuição do prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores ao romancista Luandino Vieira, um opositor do regime que se encontrava preso no Tarrafal, merece a pena refletir sobre aquilo o que muitos imaginaram. Íamos tornar-nos um país 'europeu', próspero, educado. A nível local, imaginava-se uma cidade com uma vida económica, social e cultural pujante. A crise terá arrefecido muitas dessas ilusões e mandado embora milhares de pessoas. Pelo menos ganharam-se zonas limpas e passeáveis, onde antigos exilados como o professor António Branquinho Pequeno ou o escritor surrealista Manuel Silva Ramos se podem sentar a conversar dos velhos tempos – e dos novos, com uma desilusão que não se limita à geração deles.

Branquinho Pequeno, justamente, tomou a iniciativa de reclamar os direitos da audiência a ser ouvida durante um dos debates do festival, logo no primeiro dia. As pessoas no palco tinham-se alongado, deixando apenas uns minutos para o público. Ele não gostou, e não se calou. Tinha toda a razão. O seu direito a falar não era menor do que o dos participantes, e as elaborações agendadas sobre realidade e fantasia não eram forçosamente mais interessantes do que as achegas espontâneas. No dia seguinte, esse ponto foi enfatizado por outra intervenção memorável vinda da audiência, quando um ex-funcionário da Biblioteca Municipal do Porto se dirigiu a um escritor e lhe contou que gravara uma versão áudio do seu romance para utilização de cegos – tendo sido ele próprio a escolher a obra, pois o seu estatuto na biblioteca já lho permitia.

Os escritores abordaram o tema central sob muitas perspetivas. A romancista Inês Pedrosa referiu que Toboso, cidade imaginada por Cervantes, foi mais tarde criada na realidade física, para os turistas lá irem. Falou das viagens como um corte na ansiedade. Contou que já viu no Google Earth a rua e o prédio onde a sua filha vai morar no estrangeiro. Mas disse que a viagem essencial para um escritor é na sua cabeça. “Não se viaja se não for uma viagem interior, e para isso é preciso tempo. Vivemos muito fascinados com as viagens. O nosso olhar torna-se turístico. Como um pássaro que debica”.

No mesmo painel estava o poeta Nuno Júdice, que lembrou a Odisseia de Homero, os dez anos que Ulisses demorou até conseguir voltar a casa. Sem se comparar ao guerreiro, também ele rejeitou o papel de turista. “Nunca leio roteiros turísticos”, garantiu. Foi várias vezes ao México e nunca visitou as pirâmides. De resto, a literatura não nasce normalmente dos bilhetes postais. “A poesia não é propriamente esse lado mais bonito, mais belo. Nasce muitas vezes de sítios que não têm nada de poético. Transfigura esses lugares que podem desaparecer”.

Fantasia surrealista com Maria Luís

Em debates seguintes falou-se de não-lugares (aeroportos, por exemplo), de viagens através dos livros (“antes do avião, a literatura”), de mapas e telemóveis, do privilégio que é ter como trabalho imaginar, da realidade paralela e aumentada, de depressões e insónias, de lugares que trazem paz, de memórias de serra, de prémios literários… Em lugares como a Casa do Guarda e a vila de Alpedrinha, haveria debates sobre a fronteira entre a realidade e a imaginação (Rui Cardoso Martins defendeu, muito justificadamente, que devem ser mantidas separadas), uma fantasia surrealista onde entrava Maria Luís Albuquerque, uma exploração do Cântico dos Cânticos, recordações de infância de um conhecido cenógrafo, recordações do desemprego

Falta referir o espetáculo Portugal, Meu Remorso, sobre textos de Alexandre O’Neill e dirigido por Ana Nave e João Reis, e as imagens da Gardunha obtidas pelo fotógrafo Pedro Loureiro: pedras, cesteiros, pastores, aldeias, nuvens… Note-se também que foi devidamente assinalada (ainda pelo imparável António Valdemar) a passagem no local identificado pelo geógrafo Orlando Ribeiro como aquele em que o Mediterrâneo e o Atlântico se encontram na terra portuguesa. Um lugar real na serra, com uma mudança de paisagem vegetal, à qual se acrescenta, por assim dizer, a realidade aumentada do saber.