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“Dheepan”, de Jacques Audiard, vence o Festival de Cannes

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O filme "Dheepan", do cineasta francês Jacques Audiard, foi galardoado com a Palma de Ouro em Cannes

ANNE-CHRISTINE POUJOULAT / AFP / Getty Images

O cineasta francês segue a vida de um ex-guerrilheiro Tamil, que deixou a guerra no Sri Lanka e se refugia num bairro social de Paris para encontrar outra guerra. A Palma de Ouro ficou em casa. 

Francisco Ferreira, em Cannes

Ainda ontem se escrevia nas páginas do Expresso que a crise na Europa tinha sido, não o único, mas o tema central da selecção deste 68º. Festival de Cannes. Foi esse tema que o júri decidiu premiar esta noite, consagrando com a Palma de Ouro um filme que reflete sobre a Europa pelo ponto de vista de quem nela experimenta viver pela primeira vez, “Dheepan”.Esta é a sétima longa-metragem do autor de “Um Profeta” e “Ferrugem e Osso”. 

O herói de “Dheepan”, que dá título ao filme, não é um homem revoltado. Pelo contrário, este ex-rebelde Tamil deixou a revolta no seu país de origem, o Sri-Lanka, na guerra civil em que lutou. Está disposto a tudo para encontrar melhor vida no “El Dorado” europeu. Desembarca em França com uma falsa família, mulher e filha que não são suas. Consegue assim, com esse acordo, dar um simulado sinal de estabilidade e aceder ao estatuto de refugiado político. De seguida, empenha-se no emprego que lhe arranjam: porteiro de um bloco de prédios de um bairro social dos arredores de Paris. 

Acontece que, nesse bairro, a violência continua a rodeá-lo. Tenta-se manter sereno, mas as humilhações aumentam. A sua inserção social começa a tornar-se cada vez mais difícil. Até que o ‘velho tigre’ (papel do estreante Jesuthasan Antonythasan) se vê levado a mostrar quem é e de onde vem. Audiard limitou-se a prosseguir a linha dos seus filmes anteriores e o esquematismo dramático deste não vem, sequer, de um dos seus melhores. Mas valeu uma Palma de Ouro à França, certamente para agrado do diretor artístico do festival, que apostara em cinco filmes do país entre os dezanove a concurso. 

O júri presidido pelos irmãos Joel e Ethan Coen relegou assim para um plano inferior um dos filmes mais discutidos ao longo de todo este festival, “The Son of Saul”, de László Nemes. O jovem cineasta húngaro, de 38 anos, trouxe a Cannes uma reconstituição ficcional do quotidiano de um membro do Sonderkommando no campo de extermínio nazi de Auschwitz-Birkenau. Venceu o Grande Prémio. 

Já Hou Hsiao-Hsien, que mostrara em Cannes um fabuloso filme de artes marciais passado na dinastia Tang, no século IX, “The Assassin”, foi distinguido com o prémio de melhor realização. Nada a dizer, isto se quisermos levar o prémio à letra: Hsiao-Hsien é, de facto, o melhor realizador que se apresentou a concurso. Mas o cineasta do Taiwan merecia a Palma de Ouro. Na competição, nenhum outro filme foi comparável à sua cerimónia. 

A França não se pode queixar pois ficou ainda com dois prémios na categoria das interpretações: Vincent Lindon em “La Loi du Marché”, de Stéphane Brizé, e Emmanuelle Bercot em “Mon Roi”, de Maïween (França). Lindon, único ator profissional do elenco de Brizé, veste a pele de um cinquentão desempregado à procura de emprego. É curioso notar: este modelo acabado do cinema naturalista francês sobre a crise na Europa não podia ser mais oposto ao das histórias do português “As Mil e Uma Noites”, de Miguel Gomes, que passou na Quinzena dos Realizadores. 

No caso de “Mon Roi”, Maïween agita com manipulação e histeria um amor louco que tem de sublinhar que é escandaloso para convencer. Não foram poucos em Cannes os que nele só reconheceram a cabotinice. Mas esta não foi a opinião de um júri certamente dividido, já que Rooney Mara, que contracena com Cate Blanchett em “Carol”, de Todd Haynes, também foi contemplada pelo palmarés com um prémio ex-aequo. 

“The Lobster”, de Yorgos Lanthimos, projecção futurista de uma sociedade em que a solidão se tornou um delito da maior gravidade (os ‘criminosos’ têm 45 dias para encontrarem uma cara-metade, sob pena de serem banidos da humanidade e transformados em animais), foi um dos filmes menos consensuais da competição. A realidade aqui não é servida pelo naturalismo, mas através de um jogo de simulação dos gestos do quotidiano cujos códigos o espectador vai aprendendo a decifrar. O cineasta grego rodou na Irlanda com um elenco internacional e Colin Farrell, no principal papel. Venceu o Prémio do Júri. 

Por fim, o mexicano Michel Franco, que foi aos EUA filmar “Chronic”. Tim Roth é um solitário enfermeiro especializado em cuidar de doentes terminais. À medida que seguimos o seu quotidiano e o modo como ele se dedica a cada doente, com uma óbvia (e mórbida) atração pela morte, o filme vai reconstituindo o seu passado e deixa o espectador preso a este enigma. Franco saiu de Cannes com o prémio de melhor argumento, três anos depois de ali ter ganho a secção Un Certain Regard, com “Después de Lucía (2012), numa edição em que Tim Roth estava no júri que o premiou. 


PALMA DE OURO 

“Dheepan”, de Jacques Audiard (França) 


GRANDE PRÉMIO 

“The Son of Saul”, de László Nemes (Hungria) 


MELHOR REALIZAÇÃO 

Hou Hsiao-Hsien por “The Assassin” 

(Taiwan/China/Hong-Kong/França) 


MELHOR ATOR 

Vincent Lindon em “La Loi du Marché”, de Stéphane Brizé (França) 


MELHOR ATRIZ (ex-aequo) 

Rooney Mara em “Carol”, de Todd Haynes (EUA) 

Emmanuelle Bercot em “Mon Roi”, de Maïween (França) 


PRÉMIO DO JÚRI 

“The Lobster”, de Yorgos Lanthimos 

(Grécia/Reino Unido/Irlanda/Holanda/França) 


MELHOR ARGUMENTO 

Michel Franco por “Chronic” (EUA)