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A trilogia que entusiasmou Cannes e que levanta problemas ao próprio cinema

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Miguel Gomes em "As Mil e Uma Noites"

D.R.

Recebido em Cannes com uma onda de entusiasmo que se propagou pelo festival, o filme em três partes de Miguel Gomes vale seguramente menos por aquela sensação do que pelos problemas teóricos, complexos, por vezes apaixonantes, que levanta ao próprio cinema.

Miguel Gomes não escolheu, de todo, o caminho mais fácil para um ‘jovem cineasta europeu já reconhecido internacionalmente quando se lançou nesta empreitada de monta com nome de conto oriental, dividida em três partes, “loucura” nunca vista (e foi o cineasta que, por mais do que uma vez, chamou pela palavra). Falámos nestas crónicas, incessantemente, de um cinema de autor em Cannes tão abençoado pela corrida à Palma de Ouro como refugiado no seu próprio casulo artístico. 

Pois bem, “O Inquieto”, “O Desolado” e “O Encantado” não podiam estar em polo mais oposto: nem o filme foi escolhido para a seleção oficial, preferindo, face às hesitações do festival, pôr a coisa em pratos limpos e subir a um palco paralelo (o da Quinzena dos Realizadores), nem o ‘estatuto de autor’, que o realizador já conquistara, deixou de ser confrontado, esganado, por fim atirado contra a parede após três piruetas e meia no ar, longe de qualquer zona de conforto.

“As Mil e uma Noites Vol.1 — O Inquieto”

“As Mil e uma Noites Vol.1 — O Inquieto”

Inquieto, desolado e encantado ficou Gomes perante o “triste país de entre os países, onde assomavam as ruínas e o povo andava à míngua”, bem como a Xerazade que, ainda antes do cineasta se fazer à estrada e percorrer Portugal de lés a lés, lhe serviu de bengala narrativa, de elemento unificador da desordem, talvez, até, de improvável e poético alter ego. Também Xerazade sabe ter a cabeça a prémio se falhar o pacto que estabelece com o rei Xariar: contar-lhe noite após noite, ao longo de mil e uma delas, histórias maravilhosas que lhe agucem a curiosidade.

Não é por acaso que, logo a seguir ao prólogo de “O Inquieto”, Gomes, num processo de “mise en abyme” que já se encontrava em “Aquele Querido Mês de Agosto”, sugere todas as dúvidas sobre o próprio filme que se propôs fazer, figurando-se ao lado de dois colaboradores chegados, enterrados numa praia até ao pescoço, como se ficassem à mercê do que aí vem e do destino que lhes quisermos dar.

“As Mil e uma Noites Vol.2 — O Desolado”

“As Mil e uma Noites Vol.2 — O Desolado”

Infeção
Esse estar à mercê, para lá do sainete artístico, generoso, humorista, em que Gomes já se especializou, não é contudo menos concreto e verdadeiro do que o episódio da falência dos estaleiros de Viana do Castelo, no prólogo. A produção em si, que o cineasta aproximou, talvez à falta de melhor, do conceito do “cine-comboio” soviético de Medvedkine e Vertov (na verdade, a experiência de Gomes não tem padrões de comparação), é em tudo extravagância (como a sátira do conluio entre o Governo português e a Troika), fruto de uma co-produção de quatro países ampliada pelo êxito internacional, sobretudo francês, de “Tabu”.

A equipa de produção contratou um grupo de jornalistas para seguirem a atualidade do país ao longo de um ano inteiro e desenvolverem em histórias os “fait divers” que iam encontrando na imprensa. Em simultâneo, uma equipa inteira de rodagem (que duraria 14 meses, quando o tempo de uma rodagem normal de um filme português se conta em menos semanas…), com um diretor de fotografia tailandês incluído (Sayombhu Mukdeeprom, habitual colaborador de Apichatpong Weerasethakul), fica alerta ao longo desses meses para o que der e vier, com disponibilidade total: arranca-se amanhã para Resende se for preciso, para saber mais da história daquele galo que foi processado e ‘condenado à morte’ por acordar os vizinhos.

Todo este processo é mais complexo do que pode parecer. Uma vez eleita a história, a equipa vai para o local em que esta ocorreu. Dois argumentistas fiéis a Gomes encarregam-se então de retrabalhar os textos das investigações dos jornalistas e de confrontá-los com a realidade, preparando-os ao mesmo tempo para o gesto estético do filme, ou seja: transfiguram o “fait divers”, afastam-no da sucessão anedótica do cinema de sketches enquanto Gomes, eventualmente, começa a medir nessa transfiguração uma “durée” cinematográfica.

“As Mil e uma Noites Vol.3 — O Encantado”

“As Mil e uma Noites Vol.3 — O Encantado”

Contágio
Dito isto, os episódios à partida não têm guião, tão-pouco personagens, um e outros a construírem-se no seu próprio processo de fabrico. Nalguns casos, esses episódios podem tanto recorrer depois a atores amadores, encontrados nos locais, ou a uma pequena fábrica de ficção que vai dirigir atores profissionais, segundo a informação recolhida pelos textos e pela realidade no terreno.

Estes profissionais, por seu lado, vão passar ou não de história em história e de personagem em personagem ao longo dos três episódios. É como se o argumento se escrevesse não no papel, mas na rodagem, ganhando só na montagem a sua verdadeira e definitiva versão. Em resumo, a consanguinidade é total entre ficção e documentário, entre a ideia preconcebida que nós próprios temos de um filme e o seu making of, num gesto em que o que parece arbitrário não deixa de ser calculado e testado e em que a perfeição e a mestria são trocados pela fusão de géneros e pelas emoções que dali brotam.

“As Mil e Uma Noites” não é seguramente a obra-prima de rigor, tensão e expressão que (agora já se pode dizer) está em “The Assassin”, de Hou Hsiao-Hsien, filme da competição capaz de tornar menores mesmo os seus melhores concorrentes (e que traremos aqui na crónica de amanhã). Acontece que “As Mil e Uma Noites”, das várias coisas que se propôs reformular, talvez tenha inaugurado uma nova categoria: a do ‘filme de autor’ que desembarca em Cannes para dizer que não quer, precisamente, ser uma obra-prima. Que sem esquecer o cinema, há mais coisas em que pensar.

Pois é através disso que o banal deixa o pobre interesse cinematográfico que poderia ter à partida e começa a ganhar força. E não é banal a história dos passarinheiros do terceiro episódio, suponho que quase todos desempregados, e que se dedicam, ali para os lados do Aeroporto da Portela, a concursos de tentilhões em que alguns dos pássaros até morrem de tanto cantar?

E, no entanto, a história dos passarinheiros, na qual o filme investe mais do que em qualquer outra, e que Gomes seguiu durante meses dando dela, dos seus elementos, até da história de um bairro, uma soma imensa de pontos de vista, é uma história tão impenetrável e fantástica como aquela Bagdad filmada em Marselha, a ritmo de samba, com as imagens de arquivo dos Novos Baianos.

No episódio anterior, já Gomes investira naquilo que, à falta de melhor, se generalizou chamar melodrama social, mas corroendo por dentro as coordenadas do género, com um cão, ator profissional, não menos fantástico, a cruzar o caminho de um casal de suicidas dos arredores de Lisboa. Também vacas já falaram com árvores, espantadas com um desvairado julgamento. Também Chico Chapas, que no segundo episódio se chamou Simão Sem Tripas, foi ator de ficção e ator de si próprio. Voltamos a encontrá-lo no terceiro tomo, no grupo de passarinheiros em que ele é uma lenda viva, tal como já fora lenda do western das beiras que abre o segundo episódio.

AO AR LIVRE. Participantes no festival veem “Terminator” na praia

AO AR LIVRE. Participantes no festival veem “Terminator” na praia

FRANCK ROBICHON/EPA

Um animal de palco
Miguel Gomes, no palco da Quinzena, também é ator. Todos os realizadores o são. Há uns que falam sem parar, outros que se envergonham e não dizem nada, mas todos, sem exceção, fazem o seu número e os de Gomes são momentos de felicidade. Na primeira apresentação meteu a equipa toda no palco da Quinzena e deu show. No segundo, trazia um cachecol do Benfica campeão. No terceiro, lembrou o déja vu de “O Feitiço do Tempo”, com Bill Murray, por causa do seu regresso à cena pela terceira vez em seis dias. Em todos os casos recebeu ovações.

As coisas são assim: se as pessoas gostam de Miguel Gomes por causa dos seus filmes, também gostam dos filmes por causa de Miguel Gomes. Vai ser preciso, apesar de tudo, interrogar o estatuto das imagens deixadas por “As Mil e Umas Noites”, medir as voluntárias e assumidas desigualdades do conjunto e de cada uma das três partes, bem como apurar, por outro lado, a conquista da facilidade de fazer cinema assim, partindo da imperfeição, integrando-a no programa. Perguntar de onde vem este curto-circuito provocado por ideias graves em choque com uma candura infantil em torno de um país que perdeu os últimos trocos que levava no bolso. Assuntos a desenvolver em breve num texto da Revista E, no balanço de Cannes.

E são assuntos interessantes porque, como já se disse, o estado de alma deste Portugal em letargia, deste Portugal sonâmbulo que temos hoje, deixa os seus resquícios no final de “As Mil e Uma Noites”. É uma sonda que se lança, não se sabe ao certo para onde. Uma última observação: Miguel Gomes, uma vez mais, voltou a fazer um filme contra o anterior, com uma vontade danada de levantar novos problemas. Isso é muito notório nas entrevistas que dá, com a mesma entrega, pouco importa se ao “New York Times” se a um jornalista do Bangladesh: reage com muito mais entusiasmo à confrontação e à dúvida do que a uma unanimidade crítica que o embaraça e quase sempre é estéril.

Mudar o seu sistema, o seu cinema, não é para Gomes um mero tique de autor com receio de repetir-se. Aliás, desses tiques, com os quais, mal ou bem, ele se fez cineasta e entrou no circuito dos festivais, também este filme desconfia. Não, a vontade de mudar para Miguel Gomes vem de algo que parece muito mais precioso e vital, como se a pulsão que o conduz a loucuras como as de “As Mil e uma Noites” nos quisesse dizer isto: vamos continuar a filmar para viver, mantendo os filmes vivos.