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Seis longas, oito curtas. Para usufruir do AR

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"El Escarabejo de Oro", de Alejo Mogillansky e Fia-Stina Sandlund.

Na verdade, o título tem um erro propositado: devia ser "usufrui da AR" e não do AR, porque o acrónimo quer dizer Argentina. E o título tem uma omissão: falta "dois documentários" a seguir a "oito curtas". Porque o texto que aí vem desenvolve filmes argentinos.

Helena Bento

Jornalista

Entre esta quinta-feira e até domingo, Lisboa vai receber um novo festival de cinema. Organizado pela Vaivém, produtora e distribuidora sediada em Buenos Aires e Lisboa, a 1ª edição do AR - Festival de Cinema Argentino, que vai decorrer no Cinema São Jorge, pretende dar a conhecer ao público "o que de mais recente e criativo se produz atualmente na Argentina", explica Susana Santos Rodrigues, co-fundadora, programadora e produtora na Vaivém.

Ao longo de quatro dias vão ser apresentados 16 filmes de 2014, quase todos inéditos - seis longas-metragens de ficção, dois documentários e oito curtas-metragens. Susana Rodrigues, que se dedica há mais de dez anos à curadoria, distribuição e comunicação na área do cinema de autor, explica que a programação do festival reflete a vontade de "apostar em filmes que, de outra forma, não chegariam a Portugal este ano", ficando-se pelos festivais internacionais. "Se não houver um foco mais concreto, como o é este festival, os filmes acabam por ficar perdidos."  

O "gosto pessoal dos organizadores" foi também um dos critérios que orientou a programação desta primeira edição do festival. "Grande parte dos filmes são muito bons e, ao mesmo tempo, muito criativos", sublinha a organizadora. "O cinema argentino ressurgiu com a crise de 2001 na Argentina, que foi muito dramática, talvez até mais dramática do que em Portugal. Houve um despertar e uma nova forma de fazer cinema, que se traduz em fazer aquilo que é possível com recursos muito limitados. O novo contexto político e económico, em vez de ter levado a uma acomodação, impulsionou muito o trabalho criativo".

Seis longas, oito curtas + 2
Na sessão de abertura do festival, esta quinta-feira, pelas 20h00, é projetado o filme "El Escarabejo de Oro" (que repete sábado), um retrato das condições de financiamento e produção internacional, criado a partir de um universo lúdico onde cabem desde Edgar Allan Poe a Robert L. Stevenson. O filme, que surge do encontro entre Alejo Mogillansky, descrito como um cineasta "irreverente", e Fia-Stina Sandlund, uma artista sueca "ultrafeminista", foi exibido no Festival de Locarno em 2014 e venceu o Prémio de Melhor Filme Argentino no Festival de Cinema Independente de Buenos Aires (BAFICI), no mesmo ano.

Também esta quinta, pelas 22h00, é projetado "Carta a Un Padre" (repete no domingo), de um dos mais reconhecidos realizadores argentinos, Edgardo Cozarinsky. O documentário, um dos dois que vão ser apresentados no festival (já exibido entre nós na edição de 2014 do DocLisboa), é sobre um realizador e escritor, neto de um dos "judeus gaúchos" do final do séc. XX, que anda à procura do seu pai, oficial da marinha. Passaportes, fotografias, postais, cartas e outros documentos vão revelar-se instrumentos úteis para resolver o quebra-cabeças e ajudar a traçar o seu mapa pessoal. 

O outro documentário, "Living Stars", vai ser projetado no sábado, pelas 14h00, com repetição no dia seguinte, na última sessão do festival. Realizado por Gastón Duprat e Mariano Cohn, "Living Stars" explora uma panorâmica quase antropológica sobre um conjunto de personagens reais, 51 no total, entre dentistas, advogados, estudantes, desempregados e reformados que vivem em Buenos Aires.

A programação do festival completa-se com os filmes "Mauro", de Hernán Rosselli, "La Salada", de Juan Martín Hsu, "Lulú", de Luis Ortega, "Dos Disparos" (também já exibido em Portugal no ano passado, no Lisbon & Estoril Film Festival), do consagrado cineasta Martín Rejtman, que regressa à ficção ao fim de quase uma década, e "La Princesa de Francia", de Matias Piñeiro, que encerra assim a sua trilogia "Las Shakespereadas" (depois de "Rosalinda" e "Viola"), em que explora o mundo das personagens femininas das comédias de William Shakespeare.

Cinema português na Argentina
Susana Rodrigues e Maria João Machado, curadora e produtora na área do cinema, teatro e artes plásticas, e também responsável pela organização do festival, vivem há cerca de seis anos em Buenos Aires. Foi lá que se conheceram. 

Organizam desde 2013 uma semana dedicada ao cinema português na capital argentina, no Museu de Arte Latino-americana, que contou já com uma retrospetiva de João Salaviza, realizador de "Rafa", um ciclo dedicado a Joaquim Pinto (realizador de "E Agora? Lembra-me" e "Uma Pedra no Bolso"), e com a apresentação de outros filmes, entre inéditos e não inéditos, de cineastas como André Gil Mata, Gonçalo Tocha, João Canijo, Manoel de Oliveira, Miguel Gomes e Vítor Gonçalves.

Este ano, a Semana do Cinema Português, a terceira, vai decorrer entre os dias 29 de outubro e 1 de novembro. A programação não está ainda definida, mas sabe-se já que vai ser apresentada uma retrospetiva do realizador português Pedro Costa. 

"O cinema português tem imensos adeptos na Argentina. As pessoas têm uma admiração enorme pela poesia do cinema lusitano. É extraordinário", observa Susana Rodrigues. Parece que está na hora de retribuir. Entre esta quinta e domingo, no Cinema São Jorge, em Lisboa.