Siga-nos

Perfil

Expresso

Cultura

Rita no País das Maravilhas (parte 3)

  • 333

Depois dos discos, dos espectáculos e da música para filmes, Rita Redshoes publica o seu primeiro livro na próxima semana. É uma estreia de sonhos: trata-se de um livro em que estão escarrapachados 40 sonhos de Rita Pereira. O Expresso revela em exclusivo que sonhos são esses.

Não cabe aqui discorrer sobre o significado, nem tampouco a interpretação, dos sonhos de Rita Redshoes. Ela que em 1996 já cantava com os Atomic Bees. Que em 2003 atuava como teclista ao lado de David Fonseca. E que em 2008 fez publicar o seu primeiro álbum a solo. “Sonhos de uma Rapariga Quase Normal” é editado a 20 de maio, pela Guerra & Paz, e desse livro não se pode dizer, como Álvaro de Campos dizia das cartas de amor de Fernando Pessoa, que todos os sonhos de Rita Redshoes são rídiculos. O Expresso publica hoje o terceiro desses sonhos.


Uma noite com Maria Callas

Tinha sido contratada para tocar ao vivo a música de uma peça de teatro. Lá estava eu, no cantinho do palco, com os meus instrumentos, a tentar seguir o texto, os movimentos e os silêncios da peça. Não tinha assistido a nenhum dos ensaios e como tal sentia-me perdida no meio daquilo. Fui-me desenrascando como pude e no final os actores vieram dar-me os parabéns, coisa que me deixou sossegada por ter cumprido com a minha obrigação. Perguntaram-me se queria ficar para assistir à peça seguinte, agora como espectadora. Fiquei e sentei-me numa das filas do meio da plateia. Era uma peça sobre um amor trágico, em que os amantes nunca se encontravam. No final, depois dos aplausos, as luzes de sala acenderam-se e descobri que duas filas à minha frente estava sentada, também a assistir à peça, Maria Callas. A emoção que senti por vê-la ali foi tão forte que as lágrimas começaram a cair-me dos olhos sem que eu as conseguisse conter. Maria Callas, a uns metros de mim, como era possível?! Não sabia bem o que fazer, queria dizer-lhe o quanto a admirava, mas os movimentos não me saíam. E na minha inércia emotiva deixei-a ir-se embora da sala, acompanhada por um senhor muito bem-composto.

Ouvi um dos actores chamar-me para ir aos bastidores confraternizar com o resto da equipa. A parte atrás do cenário era impressionante. Um pé-direito a perder de vista e restos de cenários usados a preencher todos os cantos e paredes. Senti-me tão bem, no meio de todas aquelas histórias que já haviam sido contadas, que me deitei no chão por um bocado.

– Rita! O que é que estás aí a fazer?! Anda para aqui, estamos a comer!

Levantei-me com medo que me achassem esquisita e fui ter com eles.

– Então, amanhã vens ver a ópera?

– Ah, amanhã há ópera? – perguntei eu.

– Há, com a Callas! Não podes perder, será das últimas récitas dela.

Não queria acreditar no que me estavam a dizer! Eu ia ter oportunidade de ver e ouvir a Callas! Era uma dádiva, um sonho dentro do sonho.

Não me lembro de mais nada senão de estar já sentada na plateia à espera que o pano subisse. A plateia estava diferente, com mais lugares e mais altos. O gongo tocou e ouviram-se os primeiros acordes. Uma luz ténue ilumina, então, uma cadeira dourada onde está sentada a Diva com o seu olhar imperturbável. Fiquei vidrada e por momentos éramos apenas eu e ela naquele teatro.

Ao meu lado tinham ficado sentados alguns dos actores da peça para a qual tinha feito a música e um deles disse-me de repente:

– Rita, podes ir. Nós vamos também!

E começaram a descer os degraus da plateia em direcção ao palco, que tinha agora o triplo do tamanho. Todos alinhados, iniciam uma dança em volta dela, da Diva, como se tudo já tivesse sido ensaiado vezes sem conta. E uma energia vinda não sei de onde pega em mim e atira-me para o palco também, onde me deixo ir ao som da música. E danço com eles e danço em torno dela, em adoração. O palco transforma-se a uma velocidade vertiginosa, de cenário em cenário, e o chão ora é um prado, ora é mármore aos quadrados pretos e brancos. Ao meu lado surge um escadote e uma das bailarinas diz-me para subir. Subo da forma mais elegante que consigo e fico à espera que me digam o que tenho de fazer a seguir.

– Canta, Rita! Canta! – diz-me a bailarina.

– Eu não consigo cantar... aqui... assim, perto dela.

E nisto, o chão, agora feito de brilhantes sobre um fundo azul-escuro, começa a mover-se, trazendo a cadeira dourada até mim. Maria Callas levanta-se, inspira levemente, franze as lindas sobrancelhas e solta uma nota aguda que preenche toda a sala. Esqueci-me que estava ali, no cimo de um escadote em palco, e sentei-me arrebatada para a ouvir. De seguida, pega delicadamente numa ponta do seu vestido, que lhe cobria os pés, e dá uns passos na minha direcção, continuando sempre a cantar. Ao chegar-se perto de mim, e aproveitando uma pausa na sua melodia, sorri-me, com um olhar generoso, prosseguindo depois para outro canto do palco.

– Rita! Rita! Desce daí! O cenário vai mudar. Desce! Rápido! Estás a atrasar a cena!

Não conseguia mover-me, petrificada por tamanha surpresa e emoção.

– Rita! Rita!

Comecei a ouvir, ao longe, o som de um sino, um som tão forte que me fez sentir incomodada, deixando de ouvir a voz dela.

O som intensificou-se de tal maneira que acordei. Era o carteiro a tocar à campainha para a entrega de uma encomenda, sem consciência alguma de que estava a interromper a última récita de Maria Callas.

  • Rita no País das Maravilhas

    Depois dos discos, dos espectáculos e da música para filmes, Rita Redshoes publica o seu primeiro livro na próxima semana. É uma estreia de sonhos: trata-se de um livro em que estão escarrapachados 40 sonhos de Rita Pereira. O Expresso Diário revela em exclusivo que sonhos são esses.

  • Rita no País das Maravilhas (parte 2)

    Depois dos discos, dos espectáculos e da música para filmes, Rita Redshoes publica o seu primeiro livro na próxima semana. É uma estreia de sonhos: trata-se de um livro em que estão escarrapachados 40 sonhos de Rita Pereira. O Expresso revela em exclusivo que sonhos são esses.