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Eu sou o Kurt Cobain. Brilhante e miserável, cheio de amor

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Brett Morgan realizou um acontecimento, "Kurt Cobain: Montage of Heck"

FOTO REUTERS

Brett Morgan pode não nos dar a conhecer Kurt Cobain pela primeira vez, mas dá-nos a conhecê-lo assim, nu, íntimo, brilhante e miserável, cheio de amor. Pela primeira vez (ah, isto é sobre um documentário, " Kurt Cobain: Montage of Heck").

Helena Bento

Um miúdo louro, muito louro a correr de um lado para o outro (dentro de casa, fora de casa, no jardim), com um carrinho vermelho de rodas gigantes nas mãos, com um peluche, um panda, nas mãos, com uma guitarra nas mãos (logo a seguir há de aparecer com outra).

Um miúdo louro, muito louro, de bochechas rosadas e gorduchas a soprar uma vela em forma de dois que lhe chega quase até ao queixo. Sopra-a, ri-se, olha à sua volta, bate palmas, ri-se outra vez, ri-se muito. É difícil imaginar maior alegria. "Quem és tu, Kurt?", pergunta-lhe uma voz feminina. "Eu sou o Kurt Cobain", responde o miúdo, e essa frase, "eu sou o Kurt Cobain", há de ficar-nos na cabeça até ao fim do documentário, até ao fim da noite, até ao fim de tudo.

O miúdo cresce e a família desfaz-se. A mãe afasta-se do pai, o pai afasta-se da mãe, e o miúdo, "que só queria ter uma família", afasta-se dos dois, afasta-se do mundo inteiro. Fica frustrado, deprimido, torna-se violento. A mãe, incapaz de lidar com ele, expulsa-o de casa, diz-lhe que vá viver com o pai, que ao fim de algum tempo também o expulsa.

Passa a viver em casa de um familiar e depois em casa de outro familiar, não vivendo, afinal, em lado algum. Fecha-se no quarto de headphones nos ouvidos, desenha, vagueia, senta-se na linha férrea e espera que um comboio lhe passe por cima.

Há dias em que ele e os colegas vão a casa de uma rapariga descrita como gorda e atrasada mental só para gozar com ela, mas o miúdo mantém-se à parte, a um canto, a observar (não sabemos se pelo gozo de ver, se por se sentir embaraçado). Esta história não é nova, e iríamos dar-lhe um fim dentro de alguns momentos (ou não teríamos sequer começado a contá-la) se não tivesse acontecido o que aconteceu a seguir.

O miúdo continua a crescer e percebe que em vez de destruir pode construir (continuando a destruir-se ainda assim por dentro, na mesma medida, exata e trágica). Compõe, toca, ensaia, dá concertos. Continua a desenhar, a pintar e a acumular diários onde cabe o seu mundo inteiro.

Um dia cruza-se com a mãe na cozinha. Aparece de tronco nu e boxers, numa seminudez sem cerimónia que contrasta com o disco que leva na mão. Pergunta-lhe se o pode pôr a tocar e ela diz-lhe que sim. Ouvem-no de uma ponta à outra, e no fim, a mãe, com um ar absolutamente aterrorizado (segundo conta), quase a chorar (segundo conta) vira-se para o filho e diz: "Isto vai mudar tudo. Kurt, vais ter de apertar o cinto, porque tu não estás preparado para isto". E não estava. O disco, de resto, já tinha nome. Chamava-se "Nevermind", e iria mudar para sempre não só a vida deste miúdo louro, muito louro, como a de muitos outros "miúdos".

Estes detalhes de uma história que há de sempre ser maior do que a soma de todos os detalhes que conhecemos são-nos contados em "Montage of Heck", documentário realizado pelo americano Brett Morgan, produzido em colaboração com a família de Kurt Cobain (Frances Bean, a filha, é produtora-executiva). Foi exibido pela primeira vez em Portugal quase no fim de abril.

Brett Morgan, por via de Courtney Love, teve acesso ao espólio de Cobain, composto por jornais, pinturas, desenhos, vídeos caseiros e registos de áudio, entre os quais as mixtapes que o músico gravava (uma delas, com gravações de Black Flag e Beatles, deu aliás origem ao título do documentário).

Recorrendo a esse material, a que deu um novo tratamento pelo recurso à animação (amiúde excessiva e bruta, no caso dos textos e desenhos, afastando-se do essencial, isto é, a música, e focando-se na doença mental, amiúde romantizada), e às entrevistas que fez a pessoas próximas, como Kris Novoselic (baixista dos Nirvana), Tracy Marander (primeira namorada), Courtney Love (viúva), Wendy O'Connor (mãe), Don Cobain (pai), Kim Cobain (irmão), ficando a faltar Dave Grohl (baterista da banda) para completar o núcleo dos que acompanharam de perto a vida de Cobain, Brett Morgan fez o documentário que, nas suas palavras, nos vai permitir "conhecer Kurt Cobain pela primeira vez".

Depois de "Nevermind", o miúdo louro, muito louro, cresce ainda mais, cresce para os outros, para os que o ouvem, que o idolatram, que o consomem até ao tutano, cresce à mesma velocidade com que se destrói, exata e trágica.

A heroína, à qual recorria para aliviar as dores de estômago crónicas, que não curava porque tinha medo de perder a energia criativa (afinal, era dali, de dentro, das vísceras, onde lhe doía, que ele cantava e tocava), a relação com Courtney Love, alvo predileto dos meios de comunicação social (e à qual temos acesso, no documentário, através dos vídeos caseiros que vemos com um sentimento ora de ternura, ora de decadência, na verdade nem é bem um nem outro, é uma coisa que vive algures no meio disso, é uma coisa sem nome) e a filha do casal, Frances Bean, ainda bebé, bonita e gorducha, com o pai atrás de si, a segurá-la com muito esforço, o rosto cheio de marcas, ferido, olhos semicerrados, muito ensonado (ou drogado), muito frágil, mal se aguentando de pé, quase a cair, quase a chegar ao fim.

Brett Morgan, ao contrário do que revela na sua "carta de intenções", não nos dá a conhecer Kurt Cobain pela primeira vez, mas dá-nos a conhecê-lo assim, nu e desprotegido, brilhante e miserável, cheio de amor. Pela primeira vez. "Quem és tu?" "Eu sou o Kurt Cobain". É ele.