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Os cem anos do génio que não teve Hollywood a seus pés

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O seu pai tinha sido inventor e empresário, o que fez com que corresse o mundo. Haveria de transpor o seu caráter rebelde e o seu espírito inovador para o teatro, rádio e cinema. Orson Welles faria esta quarta-feira 100 anos.

GETTY

“O Mundo a Seus Pés” (“Citizen Kane”, no título original) é considerado um dos maiores filmes da história do cinema, mas quando estreou em 1941, apesar de ter conquistado Óscar de melhor argumento, foi um fracasso de bilheteira. Alguns anos depois Orson Welles iria mesmo abandonar Hollywood, onde ganhara a fama de realizador financeiramente irresponsável, com dificuldade em cumprir prazos e com um temperamento complicadíssimo.

Ressentido com os críticos e empresários norte-americanos, iria refugiar-se na Europa em 1948, onde prosseguiria a sua carreira cinematográfica nas duas décadas seguintes, realizando filmes como “Otelo” (que conquistou a Palma de Ouro em 1952) e “Le Procès” (1963).

No total participou em mais de 100 filmes como ator, em perto de 50 como realizador e em muitos mais como argumentista. A sua carreira estende-se também ao teatro e à rádio onde deu os seus primeiros passos profissionais.

Orson Welles era natural de Kenosha, cidade do Estado norte-americano de Wisconsin. A mãe era pianista e morreu quando ele tinha apenas sete anos, numa altura em que os pais já estavam separados. Viria a percorrer o mundo com o pai, inventor e empresário com problemas de alcoolismo. Aos 15 anos acabaria por perder também o pai. Por essa altura, já ingressara no Seminário Todd para Rapazes, uma escola dispendiosa do Illinois onde foi incentivado a desenvolver o seu espírito inventivo e onde fez as primeiras experiências na área do teatro.

Com apenas 21 anos, apresentou uma produção de “Macbeth” na Broadway, onde um ano depois daria que falar com uma inovadora adaptação de “Júlio César” de Shakespeare, isto na altura em que em que o fascismo crescia na Alemanha e Itália. Usou a sua herança para criar a companhia Mercury Theatre,  com a qual apresentou adaptações radiofónicas de grandes clássicos na CBS.

"A Guerra dos Mundos" permitiu-lhe chegar a Hollywood

Com a sua voz portentosa, apresentou em 1938 uma adaptação radiofónica de “A Guerra dos Mundos” de H. G. Wells, com a invasão dos marcianos a ser relatada através de blocos noticiosos que interrompiam a programação musical. O efeito foi tão forte que milhares de pessoas tomaram a ficção por realidade, entrando em pânico. Um impacto que seria determinante para lhe abrir as portas de Hollywood.

As imagens com grande profundidade de campo, os planos longos em "close up" foram alguns dos elementos a que recorreu para desenvolver uma nova linguagem cinematográfica.

A consagração nos Estados Unidos acabaria por chegar, mas já na última década da sua vida. Em 1975 conquistou o prémio de carreira do American Film Institute e a mais alta distinção do Directors Guild of America, o prémio D. W. Griffith, foi-lhe atribuída em 1984, um ano antes de morrer. Por essa altura havia se tornado obeso e o seu trabalho já centrava apenas na publicidade, surgindo frequentemente em talk-shows, muitas vezes visivelmente embriagado.

Faleceu aos 70 anos, a 10 de outubro de 1985, de ataque cardíaco. As suas cinzas foram guardadas num antigo poço situado numa propriedade que pertenceu ao toureiro Antonio Ordonez, na cidade espanhola de Ronda, província de Málaga. Esta quarta-feira completaria um século de vida.