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Angola no feminino

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
19:01 Segunda feira, 3 de dezembro de 2012

Luísa veio a casa substituir por 3 dias a empregada que teve de ficar a cuidar da filha doente. Chamou-me "mamã". No primeiro dia tentámos coordenar as necessidades da casa com a experiência que tem. As domésticas dizem sempre que sabem, que têm experiência...mas tudo é relativo. Pedi para ir buscar o aspirador, ela foi buscar a vassoura; pedi para lavar as casas de banho, ela lavou os rolos de papel higiénico também... Enfim. Precisamos relativizar se também compararmos com as que aparecem ao trabalho em Portugal.

No segundo dia, 'mata-bichamos' juntas. Luísa tem 5 filhos e é muito religiosa. Um deles tem necessidades especiais: não se mexe bem, não endireita as costas, e precisa de ajuda para tudo. Já tentaram tratá-lo; "melhorou mas não ficou bom, mamã". Contou que uma cunhada lhe disse uma vez que devia ter gasto o dinheiro numa urna ao invés de tentar tratar a criança. Luisa disse que aguentou as lágrimas. Como poderia tirar a vida a um filho que Deus me deu?!

O pão que comiamos custava a engolir. Tentei reconfortá-la dizendo que conheço pessoas com necessidades especiais na família e que estou convencida de que ele só nasceu como seu filho porque ela, os outros filhos e o marido, sabem como cuidar e dar amor a um ser especial. Que deve confiar em Deus; que vai encontrar caminhos menos difíceis. Luísa contou então um recente episódio da sua vida.

"Um dia destes, mamã, não tinha nada em casa. Os meninos vinham e me diziam: mãe tenho fome... Pus uma panela com água no fogo e fechei a tampa. Disse que está a cozinhar. Não sabia o que fazer. Não tinha mesmo nada para lhes dar. Me pus de joelhos e falei com Deus: Deus sabes o que eu faço; quanto eu me esforço; tu me deste estes filhos, eu tento procurar trabalho, me esforço... Tu sabes o quanto me custa ter de os ver passar fome. Ainda me comem a mim... Me ajuda meu Senhor... Não passou pouco tempo, uma hora talvez, apareceu a diocesana para me perguntar como vão as coisas em casa. Falei, disse que estava difícil e conversámos, conversámos, até que ela saiu e eu a acompanhei pelo caminho lá de fora da casa. Se despediu de mim e disse que não podia ajudar muito, mas que tinha um envelope para mim. Levei e quando cheguei em casa, abri e vi que tinha 15 mil kwanzas. Um pouco depois uma vizinha me chamou e disse que passou por aí alguém que deixou um pacote para mim. Abri e tinha mais 5 mil kwanzas. O outro vizinho disse que tinha conseguido arranjar um saco de arroz para mim, e fuba também, e outra disse que tinha óleo! Fiquei sem saber o que dizer, sem palavras, e só disse a Deus que não sabia como agradecer; que não sou merecedora de tanto....!"

Graciete é portuguesa e veio acompanhar o marido que está na comunicação social. Sorri de forma bela. É bela porque está feliz aqui, disse-me; mais do que estava em Portugal. Trouxe os filhos que acabaram por sentir que preferiam estudar em Portugal. Não quer regressar. Vão e voltam.

Isabel tinha os filhos dela no mesmo colégio onde estão os meus. Reconheceu-me num evento. Costumávamos tomar o pequeno almoço com várias outras mães. Lembro-me de dizermos que tudo ia mal e que ia piorar. Hoje estamos as duas em Luanda. Uns filhos foram para o Reino Unido estudar, a mais nova está com ela. Estão bem. Trocámos números de telefone. Sente falta das amigas. Mostrou o telefone mais simples que podia ter porque o bom foi roubado no outro dia quando ia ao pão, porque, disse,"fui completamente descuidada e atravessei para o lado que não devia". Sim, coisas destas acontecem também em Lisboa, todos os dias.

Fernanda veio ao casamento da sobrinha vestida como uma europeia dos anos 20. Lindíssimo o fato, os sapatos, o turbante. Falava muito e muito alto. Revoltada, inconformada com a realidade do seu país, esta angolana até a expatriados como nós deu que argumentar. Ama Angola mas só consegue viver em Londres. Passou tempo demais longe desta forma de estar na vida, e acha tudo mal, que já houve tempo para mudar tudo, que não espera nada deste país. Mas dizem que quando passa em casa dos familiares, levanta muito a voz, esperneia, chora e depois adormece como uma criança, ali mesmo, no conforto do 'seu lar'.

Raquel Flexa é brasileira. Cruzámo-nos numa excursão para conhecer pedaços magníficos do país. Percorremos mil kilómetros de estrada asfaltada para chegar às Quedas de Kalandula. O organizador da viagem é o Paul da Eco-Tur, um gaulês, que cá está há 30 anos, e que nos foi explicando a evolução rápida e notável do país. As estradas novas, o cultivo de biocombustivel. Raquel veio dar consultoria à Sonangol. Adora o país e as pessoas, e quer voltar sempre que possa. Diz que, tal como muitos, vinha com ideias estereotipadas, mas o encontro com a realidade deixou-a fascinada com a alteridade, com as diferenças e semelhanças culturais. Que sim, que há muita coisa a fazer ainda, mas que a nação de paz é jovem e tem caminho a fazer, e vê-se que está a trabalhar nesse sentido.

Foi nesta excursão que re-encontrei o meu querido amigo Bruno Neto, em Ndalatando, que trabalha também no feminino angolano. Isto é, através da sua agência Médicos do Mundo, serve o mundo das mulheres do interior onde a taxa de mortalidade materno-infantil é assustadora. As histórias que às vezes publica no facebook sobre as mulheres que encontra são também elas fascinantes e reveladoras de culturas por e para conhecer.

As histórias que conto não servem para escrever compêndios de hitoriografia de uma Angola em desenvolvimento. São pequenas e singulares mas reflectem que nem só de sangue e de desgraça vive este país. Como me disse ontem um jornalista português em trabalho aqui, as pessoas que normalmente falam mal deste país não o conhecem realmente. Não são capazes de enquadrar a parte no todo, e ficam-se pelos clichés. Faz lembrar o síndrome semelhante relativo ao islão e aos muçulmanos. Só mudam os personagens; a história é sempre a dos Outros.

PS: Para os leitores que AINDA não perceberam o que se pretende com crónicas de uma muçulmana, uma breve explicação: não sou de nenhuma islamolândia; não escrevo só sobre o islão e os muçulmanos, embora tenha preparação académica para isso; e não tenho de pedir desculpas por existir, nem como muçulmana nem como portuguesa, só porque alguns muçulmanos e portugueses com poder e má fé, cometeram os erros mais atrozes atentando contra a vida dos mais vulneráveis. O meu é um olhar de muçulmana sobre as coisas da vida; em Portugal, Angola, Moçambique, Egipto, ou noutro lugar do mundo.

6

"Não sou cego, surdo ou mudo". E és cigarra ou formiga?

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
14:13 Segunda feira, 24 de setembro de 2012

Tinha planos de marcar a minha 'rentrée' no blogue, após longa ausência em viagem por terras luso-africanas, com histórias que pretendo contar. Mas para já, não posso deixar de fazer uma observação sobre este paradigma da ignorância xenófoba e anti-pluralista, inteiramente desprezável  e nojenta que reflecte o que disse Passos Coelho na Assembleia da República a semana passada. 

Ao ouvir o 1º Ministro do meu pais dizer que "não sou cego, nem surdo, nem mudo" fico não só perplexa e profundamente ofendida como enojada por ter à cabeça dos nossos destinos um ser tão pequeno, de vistas tão curtas, e tão cruel.

Não podemos esperar nada de bom de gente assim. Gente que não conhece o mundo real, o mundo dos que precisam de ainda maior ajuda e integração social do que os 'desempregados', 'idosos', 'pensionistas'.

No meio da desgraça que são já esses, onde ficam os cidadãos com necessidades especiais, como os cegos, surdos, mudos, e outros?

Sabe, Sr.Ministro? Sabe o que se passa na vida destas pessoas e das pessoas que têm de os levar ao colo a vida inteira até morrer, e o que do outro lado, os que dependem deles, de gente 'normal', sentem como humilhação e eterna inferioridade? Se não sabe, devia procurar saber. É o dever de um governante em quem o Povo Português confiou para que o representasse. Eu vi muitos desses cidadãos subirem rampas e decifrarem linguagens diferentes da sua para votar. Alguns devem ter votado em si...!

Tenho familiares e amigos precisamente com este tipo de caracteristicas. Sei o que vivem porque oiço e leio o que escrevem, falam e gestualizam. Sei como se exprimem e conheço as dificuldades com que tentam ser pessoas, como todos nós. Sei como são explorados nos empregos precários. Sei que passam a ferro por 50 euros/mês, sei que são cabeleireiros e pasteleiros a trabalhar 12 horas ao dia a receber o ordenado mínimo nacional e que facturam pelo brio do seu trabalho, uma 'pipa' de massa... e outros que por negligência e abusos em locais e trabalho, tiveram de ser levados pelos pais para casa, e depender dos seus parcos rendimentos. E muitos deles casam e têm filhos...lindos... que vão carregar o pesos de serem filhos de filhos de um deus menor!

Ninguém fala deles! Impressionante! São a precaridade dentro da precaridade, a minoria das minorias desprezadas e invisibilizadas... Sim, porque sabemos que existem, mas não queremos ver, nem queremos ouvi-los.

Incluimos mulheres deputadas como representantes do povo. Para representação do Povo Real precisamos de muito mais do que essa linda fachada. Precisamos de um verdadeiro parlamento Plural e Paritário. Se assim fosse os nossos governantes teriam maior atenção no uso da retórica. E certamente, nas medidas que propõem para uma verdadeira Democracia.

E para azedar ainda mais as relações entre governantes e governados, Miguel Macedo vem dar lições de moral à La Fontaine, sem estupidamente perceber que já todos percebemos onde estão as cigarras e as formigas e quem 'come tudo, e não deixa nada'! Cuidado que a ganância e a ignorância podem levar ao destino semelhante ao do João Ratão, que caiu no Caldeirão...

Na proxima marcha de protesto juntar-me-ei aos "cegos, surdos, mudos" e a outros diferentes e apelo que o façamos juntos.

18

Judeus e muçulmanos indignados com a proibição da circuncisão na Alemanha

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
15:30 Quinta feira, 26 de julho de 2012

A circuncisão masculina é uma prática ancestral de muitos povos no mundo. Em contextos modernos, Judeus e Muçulmanos ainda a praticam, normalmente em ambiente hospitalar e seguindo regras de higiene prescritas por especialistas no assunto.

O tribunal de Colónia na Alemanha quis legislar pela proibição seguindo indicações da Associação Médica Alemã que entendeu ser esta uma prática inaceitável e nociva à saúde por terem verificado complicações pós-cirúrgicas num menino de 4 anos. O parlamento alemão veio reiterar a posição de liberdade religiosa e acabou por retirar validade à lei recente de Colónia.

O caso gerou indignação e repúdio, sobretudo entre Judeus e Muçulmanos na Europa, e porque normalmente este tipo de situações promovem o efeito de "dominó", resolvi questionar um dos maiores cirurgiões e especialista português em Urologia - o Dr.Joshua Ruah. Porque é também considerado especialista em assuntos judaicos, foi como médico e analista que quis ouvir a sua opinião.

Na sua análise histórica, Ruah diz que a "circuncisão no Judaísmo tem origem na Aliança de Deus com Abraham, em conformidade com o que está expresso em Genesis 17 6 a 14. É assim uma Aliança para todas as gerações do Povo de Israel. Abraham foi o primeiro circuncisado, quando se circuncisou aos 99 anos. Esta prática ficou portanto obrigatória e faz-se ao 8º dia de vida dos filhos varões. Pode ler-se nesse versículo da Biblia as razões da Aliança. Em Hebraico chama-se a esta Aliança Berite Milá e conforme a Biblia o pai é obrigado a circuncisar o seu filho, mas se não o souber fazer, contratará um Mohel, experiente nesta pratica, para o fazer. A circuncisão é de tal modo importante que deverá mesmo ser feita mesmo que o 8º dia seja um sábado ou num dia de festa". Para além disto, Ruah lembra que a circuncisão era já praticada por outros povos, tais como os Egipcios, os Caldeus, entre outros e por Muçulmanos em múltiplas civilizações de África e até de Indios da América do Sul".

Do ponto de vista médico "trata-se de uma cirurgia, aliás simples, com diversas indicações que vão desde a vontade dos pais à vontade do próprio, assim como, em casos de doenças com indicação para essa cirurgia, tais como fimoses, balanites, carcinomas, etc. As vantagens desta cirurgia são conhecidas, como por exemplo na menor infecção e transmissão de doenças sexualmente transmissíveis, incluindo o HIV e o HPV. Estatisticamente sabe-se que o cancro do pénis é residual nos circuncisados e não existe entre os judeus operados ao 8º dia. A transmissão de HPV (papiloma vírus humano), que tem alguns tipos transmissores do cancro do colo do útero nas mulhers, é também residual em homens circuncisados".

A esta explicação, o médico acrescenta que "uma eventual proibição da circuncisão ritual na Alemanha, dado que outras razões de carácter médico não poderão ser proibidas, seria uma medida racista e xenófoba. Devo dizer que pelas notícias a decisão do tribunal só poderá ser interpretada como um recrudescimento, espero que pontual, do antissemitismo ainda latente na Alemanha, que afetará Judeus e Muçulmanos, pois como se sabe existem cerca de 5 milhões de Turcos na Alemanha, para além de outros emigrantes muçulmanos e judeus".

Tendo em conta todos os benefícios cientificamente comprovados de uma prática ancestral, espera-se que o evento sucedido na Alemanha não sirva de exemplo de uma ideologia predominante e a seguir, também nesta matéria, já que em tudo o resto, a Comunidade Europeia já se "germanizou".

5

Sabia que o Islão permite o sexo antes do casamento?

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
16:15 Quinta feira, 21 de junho de 2012

Eu não sabia. Quem me falou do assunto foi o Professor Adel Sidarus numa viagem que fizemos até Coimbra para um encontro do Bloco de Esquerda, a convite do amigo José Manuel Pureza. Pelo caminho aprendi imensas coisas com este islamólogo cristão-copta nascido no Egipto.

O compromisso chama-se 'Mut'ah' - é um tipo de "casamento temporário" Na realidade, contou-me Adel, a prática permite impedir o sentimentento de solidão que alguns homens possam experimentar quando têm de passar períodos mais prolongados longe de casa e da familia em virtude da sua actividade profissional. Nessas circunstâncias procuram a companhia de uma mulher por quem sintam uma maior afinidade, evitando assim, o recurso à prostituição. A relação legalmente aceite que pode durar entre uma hora e 99 anos é uma prática pré-islâmica da Arábia e legalmente ainda aceite entre os shiitas duodécimanos do Irão.

John Esposito tem na sua Modern Islamic world um artigo que explica detalhadamente os principios de jurisprudência islâmica que regulam estes compromissos. Entre elas, que um homem pode ter vários 'mut'ah' em simultâneo e uma mulher só um de cada vez, mas que ela pode assumir este compromisso sendo ou não virgem, viúva ou divorciada. Não há procedimentos de divórcio neste tipo de casamento, e o homem não tem a obrigação de providenciar  o sustento da mulher, como teria se fosse casado; reciprocamente, a mulher também não é obrigada a nada relativamente ao marido a não ser por vontade própria. Como a mulher só pode ter um 'mut'ah' de cada vez, ou seja, não pode ter ligações sexuais com outros homens durante o tempo da sua 'mut'ah' corrente, se houver filhos dessa união temporária (que pode até durar a vida toda), cabe ao progenitor perfilhar e garantir o sustento da criança até à maioridade.

A prática não foi continuada pelos sunitas, sobretudo pelos que foram seguindo principios tribais e costumes locais e as foram integrando dentro da jurisprudência islâmica (variada e distinta de acordo com as várias escolas de pensamento que foram surgindo no Islão); mesmo o regime da dinastia iraniana Pahlavi (1925-1979), apesar de não ter legislado negativamente a prática, nunca viu a 'mut'ah' com bons olhos. A ambivalência moral e emocional face à 'mut'ah' ainda existe em grande medida por parte da classe-média urbana iraniana, a qual não retirou a importância e aprovação inequívoca do casamento permanente entre os Iranianos.

Parece-me interessante partilhar este facto num mundo que considera, na generalidade, que a emancipação sexual e a permissão do sexo sem casamento é exclusiva das sociedades ocidentais modernas.

Não pretendo posicionar-me a favor ou contra a 'mut'ah' mas a prática parece interessante também porque deixa de haver a tão controversa questão do divórcio no islão onde prevalece a posição do homem sobre a mulher (onde a palavra 'talaq' usada 3 vezes seguidas pelo esposo significa a rejeição da mulher;sendo que o inverso não tem equivalência qualquer!) . Por outro lado, o adultério, qualquer que seja a sua interpretação, parece ser contornável porque afinal o compromisso existe apenas enquanto ambos quiserem. E a obrigatoriedade de ter um só companheiro de cada vez permite à mulher salvarguardar o sustento e o perfilhar de provável progenitura

Não me interessa formular aqui juízos de valor sobre a 'mut'ah', até porque venho de uma tradição shiita onde esta seria uma prática inaceitável. Tabu mesmo! O que importa aqui  é apenas mostrar que o Islão não é tão linear e monolitico como muitas vezes se quer fazer crer. Há nas populações que praticam esta fé, um mundo de coisas ainda por descobrir. E é por isso que muito muçulmanos se irritam quando não se revêm nas representações sociais com que a sociedade e a opinião dominante os rotula.

18

Os muçulmanos só podem comer carne "halal"?

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
23:50 Quinta feira, 7 de junho de 2012

O paradoxo de se ser muçulmano hoje em dia tem que ver com a dificuldade de, por um lado, defender 'princípios do islão', e ao mesmo tempo, desconhecer quase tudo sobre sua a história e culturas. É por isso que vemos grandes aberrações e contradições nos seus comportamentos e atitudes perante o mundo, assim como nas relações de género. Creio que o fenómeno não deva ser exclusivo a crentes muçulmanos, mas também aos de outras fés monoteístas, que fazem tudo 'como deve ser', mesmo desconhecendo a essência e os fundamentos de cada uma destas religiões, seja do islão, do judaismo ou da cristandade.

Decidi por isso, usar este espaço de comunicação, para também deixar algumas notas sobre questões comuns para as quais darei respostas menos vulgares.

Vem esta a propósito de tomar conhecimento de que o restaurante indiano que mais aprecio (o melhor que por aí está), ter sofrido de publicidade negativa. Motivo: sendo de Hindus, a carne aí consumida não é halal! Resultado: muçulmanos que se prezam não devem ai comer, ou ser vistos a comer, e por isso, os donos viram muitos dos seus bons clientes desaparecer.

A raíz da palavra halal refere o que é permitido e opõe-se ao que é proibido (haram). Tal como em muitas outras tradições religiosas, o que está implícito aqui é a diferenciação entre o sagrado e o profano, e as coisas que um crente deve fazer ou evitar, por forma a seguir a ética Islâmica. O conceito de halal, e é isto que muitos muçulmanos desconhecem, banalizou-se no uso relativo ao consumo de carne. Todavia, o conceito de permissão ou halal refere-se a muitas outras dimensões da vida do crente.

Curiosamente, halal é empregue em 7 ocasiões como uma categoria legal numa expressão negativa que significa 'ser ilegal', com referência à mulher, ao casamento e ao divórcio: por exemplo, em 2.230: 'Se ele se divorciar dela, ela não lhe pertencerá legalmente (la tuhillu) depois disso, até que se case com outro marido'. Em 12 ocasiões halal refere-se a coisas permitidas, nomeadamente tipos de alimentos. Em 8 ocasiões halal é usado para referir as coisas boas e que nos tornam boas pessoas. Halal também é usada para indicar o abandono da santidade do peregrino, e no versículo 5.2 aos peregrinos é ordenado que 'não profanem os caminhos traçados por Deus nos meses sagrados'.

O que é facto, como diz Oliver Leaman, na sua The Qur'an: an encyclopedia, é que o conceito Halal não se tornou o termo preferido pelos muçulmanos para o comportamento ético, tornando-se assim algo restringido a qualidades de entidades, ao invés de se referir aos reflexos dos nossos actos. A palavra acabou por se confinar à ideia do que é permitido, especialmente no que respeita à dieta alimentar e ao abatimento ritual de animais, ficando com uma função paralela à forma como se usa a palavra Kosher no vocabulário judeu.

Recordando o cliente muçulmano devoto, que pediu a um taxista europeu para deixar de tocar música no automóvel porque no tempo do Profeta não se ouvia música enquanto se viajava, e que foi expulso pelo taxista para ir então procurar um camelo, questiono-me se os que só comem halal, no sentido em que hoje a maioria entende a expressão, se vão passar a deixar os seus iphones, ipads e macdonald's, para não dizer deixar de fazer outras coisas humanamente ainda menos aceitáveis.

O islão e os muçulmanos, grosso modo, seriam hoje gente muito à frente se realmente fizesse a exegése dos textos sagrados, em particular à luz da modernidade, onde de resto, já esteve em tempos. Considerando que não temos de 'apanhar' um camelo em vez do taxi ou do avião, ainda vamos a tempo de o fazer.

4

"Zonas de conforto": eu, Troika, Relvas, Mário Crespo e os "Costas"

FARANAZ KESHAVJEE www.expresso.pt
21:45 Quinta feira, 24 de maio de 2012

 
Repensar. Reflectir. Re-alocar. Re-alojar. Recomeçar tudo; outra vez. A família, a escola dos miúdos, as despesas que todos estes aspectos implicam, fora as despesas com toda a papelada para submeter uma candidatura a um visto, e o tempo perdido... E o dinheiro que não se ganha quando se perde tempo. Nada é fácil. Não há em nada disto "conforto". E a "zona", oh, essa ainda é mais difícil de encontrar.
De novo escrevo de Angola. Procuro uma " zona de conforto ", entre ter os filhos em Lisboa e ter o marido a trabalhar neste pais. Não é possível conciliar tudo e encontrar uma " zona de conforto".      
À procura de um tema para o blogue, sigo as notícias. De Portugal nada de novo. Ou melhor, tudo cada vez pior. A Troika continua a governar o pais e para mim, por mais repugnante que possa parecer, prefiro que seja essa entidade a fazê-lo do que os governantes que temos. Tentamos afastar os corruptos, mentirosos, e maus exemplos, para aparecerem outros piores. Prefiro mesmo que permaneçam fantoches, para não piorar mais o que já é irrecuperável, e ainda por cima, dando maus exemplos de ética e comportamento.
Ontem assisti a um espectáculo escandaloso: o Jornal das Nove de Mário Crespo. Parecia um programa de lavagem da imagem de Miguel Relvas. Bem sei que Relvas foi carregado nas palminhas das mãos de Mário Crespo para poder propagandear Passos Coelho nos "frente a frente" do mesmo programa. Ontem, este mesmo Jornal pareceu mais o jornal do Mário Crespo, do que um meio de compromisso para a informação e formação deontológica. MC permitiu a si mesmo longos minutos para defender o que chamou "uma tese" para defender um alto representante do governo que cometeu erros gravíssimos e puníveis da forma mais justa se acontecesse numa verdadeira democracia.
Criticamos os países africanos pela corrupção e conivência com interesses político-económicos. É mesmo nesses países que os Portugueses e não só, encontram "oportunidades". Não estou tão convencida no entanto, que a maioria consiga novas "zonas de conforto". 
Nesta minha senda de uma "zona de conforto" olho para o meu país e para os seus governantes e pergunto-me se realmente percebem as consequências devastadoras dos seus exemplos para gente a quem dizem para sair da "zona de conforto" e olhar para a crise como uma "oportunidade".
No dia em que cheguei a Luanda entrei num apartamento onde tudo precisava de ser reposto, re-começado. O Sr.Costa, um homem de Viana do Castelo, apareceu com um rapaz angolano. Ambos trabalham para um empreiteiro. O Sr.Costa trabalhou muito, sempre com grande empenho e vontade de bem servir. Tem casa e família em Portugal. Passou o dia inteiro sem pedir nada para comer ou beber. A formação que tive não me permite receber sem oferecer algo. Havia pão e queijo e sumo. E todos comemos. De outra forma, trabalharia na mesma as 9 horas seguidas, como me disse. 
Iguais a este, devem estar por cá muitos "Costas" que vieram à procura de "oportunidades" mas certamente não vão gozar de novas "zonas de conforto", pelo menos, não enquanto tiverem saúde e vida para o fazerem.
O último relatório da OCDE refere, entre outros factos importantes, o de Portugal ser um dos países onde o fosso entre ricos e pobres é dos mais significativos. Afinal, temos a infelicidade de estarmos neste momento em circunstâncias muito semelhantes aos dos países em desenvolvimento, nomeadamente os africanos, com a desoladora agravante de, em vez de anteciparmos qualquer tipo de desenvolvimento, vemos governantes tentando exercer o seu poder sobre órgãos de informação e sendo eles mesmos manipulados por interesses económicos, sem escrúpulos ou qualquer tipo de pudor.

3

Sim, sou trabalhadora; sim, também fui ao Pingo Doce.

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
2:29 Sexta feira, 4 de maio de 2012

O 1º de Maio não foi um bom dia para lançar a campanha dos 50% do Pingo Doce, admito. O Dia do Trabalhador foi conquista da modernidade e da dignificação da condição humana e do seu trabalho. Devia ser um dia de celebração e de reivindicação de mais direitos, melhores condições de vida e de justiça social. Mas será que podíamos esperar massas populares na rua num país onde nos dias de eleições uma percentagem considerável prefere ir à praia em vez de ir votar?

É preciso admitir que essa atitude negligencial resulta talvez, do facto de estarmos todos fartos de trabalhar para sermos sempre enganados e roubados pelos políticos que nos representam e que estamos perante a total apatia politica e descrédito sobre a possibilidade de mudança. Acrescido a este, o facto de termos de pagar hoje 3 vezes mais do que pagávamos há dois anos atrás, pelos mesmos produtos que consumimos, pode levar a que sintamos que não haja mais energia para lutar por coisa alguma, a não ser por exemplo, pela oportunidade de pagar metade do preço daquilo que nos custa tanto trabalho e esforço para conseguir, mesmo que em dia de descanso tenhamos que trabalhar. Sim, porque vi muitas famílias com filhos, cansados e preocupados com a escola do dia seguinte, a ter de esperar horas para poder satisfazer as necessidades básicas a metado do preço.

Pessoalmente, cheguei tarde e as prateleiras estavam vazias. Mesmo assim, consegui alguns produtos que consumo e aproveitei para estudar o fenómeno que já tinha visto nos dias 26 de Dezembro, nas ruas principais de Londres e nas filas à porta da famosa Harrod's, mas nunca em Portugal, embora já tivesse ouvido falar da BlackFriday no Corte Inglés, ou das campanhas de brinquedos a 50% em vésperas de Natal no Continente que em termos de comportamentos tem semelhanças com o que assisti no dia 1.

Nesta matéria do trabalho estou muito à-vontade para falar. Fiz os meus estudos superiores procurando e obtendo bolsas de estudo de instituições nacionais e estrangeiras. Aprendi cedo que 'não há almoços grátis'. Para as conseguir tive de mostrar trabalho e de elevada qualidade. Trabalhei sempre e muito. Quando regressei a Portugal depois de vários anos de investigação em estudos académicos numa das melhores universidades do mundo, fui dar aulas para uma universidade privada. Nas do estado nunca houve lugar para mim; estavam ocupados por professores que ensinavam o que eu tinha estudado sem terem eles tido nenhum tipo de formação na matéria! Leia-se Islão e sociedades muçulmanas.  

Há dias tomei conhecimento de que deixei de ter médica de familia no centro de saúde local e que não vou ter outra nunca mais. Ainda bem que tenho condições para pagar um seguro de saúde privado. De outra forma, não saberia como recorrer a bens básicos para os quais contribuo com todos os impostos que pago.

Resumindo, tudo o que tenho e que consegui juntar, seja em matéria de saber, de ser, e de ter, fiz com muito esforço e muito trabalho e sem benesses do Estado a quem pago tudo, como dever de cidadania.

Num dia do trabalhador, ou noutro dia qualquer, e sempre que puder poupar e ajudar a minimizar o esforço e o sofrimento de viver uma vida de trabalho dificil, raramente paga, não me importarei de trabalhar no Dia do Trabalhador, ou noutro dia qualquer, mesmo de festividade religiosa muçulmana, como de resto fiz sempre que foi preciso.

Não gosto de fundamentalismos de tipo algum, nem politicos, nem religiosos, nem de qualquer outro tipo. Respeito a história e as religiões, as ideologias e ideais, desde que eles sirvam para a dignificação da condição humana. Sempre que falharem nesta condição, deixam de fazer parte do que valorizo.

O Pingo Doce não retirou os trabalhadores das marchas do 1º de Maio; eles não iriam de qualquer maneira. Os que foram às compras foram buscar o que não é nem promessa, nem utopia. Não foram atrás de palavras ou ideias. Já devem ter feito muito pela causa e nunca nada de jeito lhes aconteceu. Apetrechar a dispensa com o que é básico para a subsistência, é real e necessário, e esse foi o dia em que puderam fazê-lo, e garanto-vos que não pareciam estar a festejar. O que é também trágico neste país.

No entanto, se realmente existir pudor e preocupação sobre 'dumpings' e problemas de exploração do trabalho humano então precisamos de rever muito mais que o Pingo Doce. Precisamos de não permitir que se consumam produtos indianos e chineses, feitos a partir de exploração de mão de obra infantil, ou que empresários chineses controlem a EDP, quando nas suas terras os direitos, liberdades e garantias não são de forma alguma respeitados. Precisamos de rever também como pudémos vender o país, a preço de saldos, à Troika, e sempre em dias de feriado importantes, como por exemplo o do dia 10 de Junho! A ASAE devia verificar 'dumpings' e ilegalidades nesta matéria também. 

26

Sim, Miguel. É preciso continuar a sorrir

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
0:10 Sábado, 28 de abril de 2012

Hesitei muito antes de escrever este texto. Hesitei por entender que as minhas palavras são demasiado pequenas e simples para falar de um homem grande como tu, Miguel. Já muitos te homenagearam e contaram várias coisas sobre ti. Umas conhecia, outras não. Esses são homens e mulheres que fizeram e fazem, como tu, muito pela sociedade portuguesa e europeia. Eu não fiz ainda o que tenho de fazer. A coragem que tive para hoje, finalmente, escrever a minha homenagem a ti, resulta de, em todas as outras, ter re-encontrado o Miguel que foi também meu amigo e companheiro de conferências e debates. E, conhecendo como te conhecia, sei que acharias bem que deixasse, em tua memória, também a minha voz. Foi pela voz e pela palavra que lutaste sempre. Acho que terás gosto em saber que tenho grande orgulho em ser conhecida como 'une musulmane de gauche'!

Da última vez que estivémos juntos, perguntaste-me se tinha lido o teu Périplo. 'Como não leste? Tens de ler e tens de me dizer o que achas.'

Nessa noite em que nos re-encontrámos, na cumplicidade de mais uma luta política tua, e uma das minhas primeiras como debutante nestas matérias, perante o resultado de perda colocaste o teu braço grande e firme sobre os meus ombros e perguntaste-me porque estava triste. Com aquele teu sorriso único disseste: 'Não fiques triste, Faranaz. Olha para mim, já perdi tantas vezes, e continuo sorrindo'.

Ainda não li o Périplo, Miguel. Assim que o ler, logo te direi o que penso. E sei que desse outro lado, vais continuar sorrindo e o teu braço estará sobre os meus ombros, sobretudo quando sentir que perdi. E vou sorrir.

Até sempre, querido Amigo.

3

Tenho 14 anos, fumo, bebo e sou muito 'cool'

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
0:10 Sexta feira, 20 de abril de 2012

O problema é que tudo começa cedo demais e este modelo de precocidade na emancipação do adolescente pode trazer consequências nefastas nas suas vidas. A mim, isto preocupa-me. 

São muitas as histórias de viagens de finalistas (que acontecem hoje em dia no fim de cada ciclo!) onde miúdos de 14/15 anos consomem substâncias ilícitas e têm, nalguns casos, finais trágicos. O facto de ter uma filha adolescente e sentir que estou muito próxima destas realidades, sobretudo porque tendo ela participado numa destas viagens e sido vítima de violência por parte de uma colega alcoolizada com vodka puro, levou-me a reflectir sobre o fenómeno do consumo de alcóol e drogas em idades muito precoces.

O que promove este tipo de comportamentos? A quem devemos responsabilizar? Aos pais? À sociedade? Hábitos culturais? À pressão social do grupo onde se querem integrar? À re-invenção da identidade própria?

Entendo que o fenómeno do consumo deste tipo de substâncias em idades muito jovens não é exclusivo a Portugal, nem é um fenómeno de agora. Provavelmente, tem a ver com todas as questões levantadas. Lembro-me da minha adolescência e de ver colegas, talvez um pouco mais velhos, fazendo coisas parecidas. Lembro-me de ter tido a minha prova, mas numa fase de estudante universitária, e não tanto 'hardcore' (não é que me orgulhe disso; só não calhou). Provavelmente a geração do meus pais tivesse assistido a experiências semelhantes. E comportamentos 'desviantes' não são exclusivos a classes sociais e económicas específicas; eles atravessam tradições e culturas diferentes. Na minha comunidade, o fenómeno também está bem vivo.

Uma ideia importante que devemos reter é que o processo de adolescere (i.e. crescer) pode ser um processo difícil. Lembro-me de mim na minha adolescência. Não foi fácil. Tudo muda, e nós queremos que tudo mude. E fazemos por mudar, muitas vezes rebelando-nos contra os que nos estão mais próximos. Aliás, é mesmo porque queremos 're-inventar' a diferença, por oposição à lei, aos pais, e à sociedade, que procuramos fazer o que 'não devemos'. O prazer é enorme. A recompensa ainda maior perante os nossos colegas e os membros do grupo de que queremos fazer parte. Rápidamente tornamo-nos modelos de popularidade pela bravura e capacidade de desafiar a autoridade, seja ela qual for.

Uma das formas mais fáceis mas também mais desonestas para explicar o fenómeno precoce é o de culpabilizar os pais. Sigal Spigel, uma psicanalista a trabalhar em Cambridge, explica que, não querendo minimizar a responsabilidade dos pais na educação dos filhos, porque lhes compete orientá-los, é preciso ter também uma atitude de modéstia para perceber que, por muito que nos custe, a verdade é que não controlamos efectivamente a vida dos nossos filhos. Apenas fazemos o melhor que sabemos e podemos.

O adolescente, por seu lado, pela natureza da afirmação da sua autonomia e independência, que acredita efectivamente que está a 'inventar' algo de novo, vai à procura daquilo que contribui para que se declare a si mesmo, pelo olhar dos outros amigos ou colegas, como sendo 'cool' e adulto. A verdade é que o modelo deles são os pais. De muitas formas, a libertação de si próprio passa por imitar os adultos, os pais, os educadores, convencendo-se, mesmo que por oposição a eles, de que estão a 'inventar-se' a si mesmos. O prazer e a afirmação está mesmo nessa ilusão: de 're-invenção'.

O que pode ser interessante pensar, e na opinião também de Sigal Spigel, é que a causa da precocidade de comportamentos que visem desafiar a autoridade, e a busca da liberdade e afirmação de uma identidade autónoma pode estar ligada ao facto de nos dias de hoje estarmos a pedir demasiado aos nossos adolescentes. Pedimos-lhes que façam muito, muito bem, e cada vez mais e melhor. Provávelmente, estamos a ser demasiado exigentes nos seus desempenhos e compromissos. E pedimos muito, desde muito cedo aos nossos filhos.

E qualquer sociedade têm rituais de iniciação, ou em linguagem antropológica, ritos de passagem. A nossa promove essa ideia de que a liberdade e autonomia do adolescente passa por ser 'fixe' ou 'estar-se bem'; passa por atravessar as fronteiras da legalidade, do proibido.

O problema é que tudo começa cedo demais e este modelo de precocidade na emancipação do adolescente pode trazer consequências nefastas nas suas vidas. A mim, isto preocupa-me.

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Se a morte é para si tabu, não leia esta crónica

Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
0:15 Sexta feira, 13 de abril de 2012

Aceitei um desafio interessante: pensar na morte como parte da vida. O assunto é complexo. O processo intelectual e emocional também não é simples. O efeito que um exercicio destes traz é imensamente gratificante. Não consigo, nem posso, reproduzir numa crónica, as ideias que fluem, os sentimentos que emergem, a coragem que tem de se ter para olhar para si próprio e questionar a sua própria morte, recordando os nossos mortos e vivendo os nossos vivos.

Agradeço a mim mesma ter tido a coragem de fazer um percurso de várias sessões. E fi-lo porque em inúmeras ocasiões ouvi do Imame Ismailita que devemos caminhar na vida lembrando-nos sempre que a vida é efémera e que só a alma é eterna; que devemos viver como se fossemos morrer amanhã; e trabalhar como se fossemos viver mais de 100 anos.

Um dos exercícios que se revelou importantíssimo na forma como quero viver foi o de imaginar que me é dito que tenho apenas mais um ano de vida. Aceitando esta como verdade incontornável, três questões se levantam: 1) o que deixo de fazer na minha vida? 2) o que continuo? E 3) o que mudo?

Parece simples o exercício, mas não é. Pelo menos, para mim.

O meu desafio hoje é o de sugerir que o/a leitor/a pense sobre estas questões e responda, por escrito, às três questões, pela ordem acima apresentada, e a uma de cada vez.

Quando tiver terminado o exercicio pense que efectivamente só tem um ano de vida e que, na realidade, o que importa mesmo para sermos felizes, é fazer dessas repostas o caminho para o resto do tempo que temos.

Depois, se lhe apetecer, partilhe ideias. Aprendemos sempre uns com os outros.

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