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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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2:29 Sexta feira, 4 de maio de 2012
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O 1º de Maio não foi um bom dia para lançar a campanha dos 50% do Pingo Doce, admito. O Dia do Trabalhador foi conquista da modernidade e da dignificação da condição humana e do seu trabalho. Devia ser um dia de celebração e de reivindicação de mais direitos, melhores condições de vida e de justiça social. Mas será que podíamos esperar massas populares na rua num país onde nos dias de eleições uma percentagem considerável prefere ir à praia em vez de ir votar?
É preciso admitir que essa atitude negligencial resulta talvez, do facto de estarmos todos fartos de trabalhar para sermos sempre enganados e roubados pelos políticos que nos representam e que estamos perante a total apatia politica e descrédito sobre a possibilidade de mudança. Acrescido a este, o facto de termos de pagar hoje 3 vezes mais do que pagávamos há dois anos atrás, pelos mesmos produtos que consumimos, pode levar a que sintamos que não haja mais energia para lutar por coisa alguma, a não ser por exemplo, pela oportunidade de pagar metade do preço daquilo que nos custa tanto trabalho e esforço para conseguir, mesmo que em dia de descanso tenhamos que trabalhar. Sim, porque vi muitas famílias com filhos, cansados e preocupados com a escola do dia seguinte, a ter de esperar horas para poder satisfazer as necessidades básicas a metado do preço.
Pessoalmente, cheguei tarde e as prateleiras estavam vazias. Mesmo assim, consegui alguns produtos que consumo e aproveitei para estudar o fenómeno que já tinha visto nos dias 26 de Dezembro, nas ruas principais de Londres e nas filas à porta da famosa Harrod's, mas nunca em Portugal, embora já tivesse ouvido falar da BlackFriday no Corte Inglés, ou das campanhas de brinquedos a 50% em vésperas de Natal no Continente que em termos de comportamentos tem semelhanças com o que assisti no dia 1.
Nesta matéria do trabalho estou muito à-vontade para falar. Fiz os meus estudos superiores procurando e obtendo bolsas de estudo de instituições nacionais e estrangeiras. Aprendi cedo que 'não há almoços grátis'. Para as conseguir tive de mostrar trabalho e de elevada qualidade. Trabalhei sempre e muito. Quando regressei a Portugal depois de vários anos de investigação em estudos académicos numa das melhores universidades do mundo, fui dar aulas para uma universidade privada. Nas do estado nunca houve lugar para mim; estavam ocupados por professores que ensinavam o que eu tinha estudado sem terem eles tido nenhum tipo de formação na matéria! Leia-se Islão e sociedades muçulmanas.
Há dias tomei conhecimento de que deixei de ter médica de familia no centro de saúde local e que não vou ter outra nunca mais. Ainda bem que tenho condições para pagar um seguro de saúde privado. De outra forma, não saberia como recorrer a bens básicos para os quais contribuo com todos os impostos que pago.
Resumindo, tudo o que tenho e que consegui juntar, seja em matéria de saber, de ser, e de ter, fiz com muito esforço e muito trabalho e sem benesses do Estado a quem pago tudo, como dever de cidadania.
Num dia do trabalhador, ou noutro dia qualquer, e sempre que puder poupar e ajudar a minimizar o esforço e o sofrimento de viver uma vida de trabalho dificil, raramente paga, não me importarei de trabalhar no Dia do Trabalhador, ou noutro dia qualquer, mesmo de festividade religiosa muçulmana, como de resto fiz sempre que foi preciso.
Não gosto de fundamentalismos de tipo algum, nem politicos, nem religiosos, nem de qualquer outro tipo. Respeito a história e as religiões, as ideologias e ideais, desde que eles sirvam para a dignificação da condição humana. Sempre que falharem nesta condição, deixam de fazer parte do que valorizo.
O Pingo Doce não retirou os trabalhadores das marchas do 1º de Maio; eles não iriam de qualquer maneira. Os que foram às compras foram buscar o que não é nem promessa, nem utopia. Não foram atrás de palavras ou ideias. Já devem ter feito muito pela causa e nunca nada de jeito lhes aconteceu. Apetrechar a dispensa com o que é básico para a subsistência, é real e necessário, e esse foi o dia em que puderam fazê-lo, e garanto-vos que não pareciam estar a festejar. O que é também trágico neste país.
No entanto, se realmente existir pudor e preocupação sobre 'dumpings' e problemas de exploração do trabalho humano então precisamos de rever muito mais que o Pingo Doce. Precisamos de não permitir que se consumam produtos indianos e chineses, feitos a partir de exploração de mão de obra infantil, ou que empresários chineses controlem a EDP, quando nas suas terras os direitos, liberdades e garantias não são de forma alguma respeitados. Precisamos de rever também como pudémos vender o país, a preço de saldos, à Troika, e sempre em dias de feriado importantes, como por exemplo o do dia 10 de Junho! A ASAE devia verificar 'dumpings' e ilegalidades nesta matéria também.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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0:10 Sábado, 28 de abril de 2012
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Hesitei muito antes de escrever este texto. Hesitei por entender que as minhas palavras são demasiado pequenas e simples para falar de um homem grande como tu, Miguel. Já muitos te homenagearam e contaram várias coisas sobre ti. Umas conhecia, outras não. Esses são homens e mulheres que fizeram e fazem, como tu, muito pela sociedade portuguesa e europeia. Eu não fiz ainda o que tenho de fazer. A coragem que tive para hoje, finalmente, escrever a minha homenagem a ti, resulta de, em todas as outras, ter re-encontrado o Miguel que foi também meu amigo e companheiro de conferências e debates. E, conhecendo como te conhecia, sei que acharias bem que deixasse, em tua memória, também a minha voz. Foi pela voz e pela palavra que lutaste sempre. Acho que terás gosto em saber que tenho grande orgulho em ser conhecida como 'une musulmane de gauche'!
Da última vez que estivémos juntos, perguntaste-me se tinha lido o teu Périplo. 'Como não leste? Tens de ler e tens de me dizer o que achas.'
Nessa noite em que nos re-encontrámos, na cumplicidade de mais uma luta política tua, e uma das minhas primeiras como debutante nestas matérias, perante o resultado de perda colocaste o teu braço grande e firme sobre os meus ombros e perguntaste-me porque estava triste. Com aquele teu sorriso único disseste: 'Não fiques triste, Faranaz. Olha para mim, já perdi tantas vezes, e continuo sorrindo'.
Ainda não li o Périplo, Miguel. Assim que o ler, logo te direi o que penso. E sei que desse outro lado, vais continuar sorrindo e o teu braço estará sobre os meus ombros, sobretudo quando sentir que perdi. E vou sorrir.
Até sempre, querido Amigo.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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0:10 Sexta feira, 20 de abril de 2012
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O problema é que tudo começa cedo demais e este modelo de precocidade na emancipação do adolescente pode trazer consequências nefastas nas suas vidas. A mim, isto preocupa-me.
São muitas as histórias de viagens de finalistas (que acontecem hoje em dia no fim de cada ciclo!) onde miúdos de 14/15 anos consomem substâncias ilícitas e têm, nalguns casos, finais trágicos. O facto de ter uma filha adolescente e sentir que estou muito próxima destas realidades, sobretudo porque tendo ela participado numa destas viagens e sido vítima de violência por parte de uma colega alcoolizada com vodka puro, levou-me a reflectir sobre o fenómeno do consumo de alcóol e drogas em idades muito precoces.
O que promove este tipo de comportamentos? A quem devemos responsabilizar? Aos pais? À sociedade? Hábitos culturais? À pressão social do grupo onde se querem integrar? À re-invenção da identidade própria?
Entendo que o fenómeno do consumo deste tipo de substâncias em idades muito jovens não é exclusivo a Portugal, nem é um fenómeno de agora. Provavelmente, tem a ver com todas as questões levantadas. Lembro-me da minha adolescência e de ver colegas, talvez um pouco mais velhos, fazendo coisas parecidas. Lembro-me de ter tido a minha prova, mas numa fase de estudante universitária, e não tanto 'hardcore' (não é que me orgulhe disso; só não calhou). Provavelmente a geração do meus pais tivesse assistido a experiências semelhantes. E comportamentos 'desviantes' não são exclusivos a classes sociais e económicas específicas; eles atravessam tradições e culturas diferentes. Na minha comunidade, o fenómeno também está bem vivo.
Uma ideia importante que devemos reter é que o processo de adolescere (i.e. crescer) pode ser um processo difícil. Lembro-me de mim na minha adolescência. Não foi fácil. Tudo muda, e nós queremos que tudo mude. E fazemos por mudar, muitas vezes rebelando-nos contra os que nos estão mais próximos. Aliás, é mesmo porque queremos 're-inventar' a diferença, por oposição à lei, aos pais, e à sociedade, que procuramos fazer o que 'não devemos'. O prazer é enorme. A recompensa ainda maior perante os nossos colegas e os membros do grupo de que queremos fazer parte. Rápidamente tornamo-nos modelos de popularidade pela bravura e capacidade de desafiar a autoridade, seja ela qual for.
Uma das formas mais fáceis mas também mais desonestas para explicar o fenómeno precoce é o de culpabilizar os pais. Sigal Spigel, uma psicanalista a trabalhar em Cambridge, explica que, não querendo minimizar a responsabilidade dos pais na educação dos filhos, porque lhes compete orientá-los, é preciso ter também uma atitude de modéstia para perceber que, por muito que nos custe, a verdade é que não controlamos efectivamente a vida dos nossos filhos. Apenas fazemos o melhor que sabemos e podemos.
O adolescente, por seu lado, pela natureza da afirmação da sua autonomia e independência, que acredita efectivamente que está a 'inventar' algo de novo, vai à procura daquilo que contribui para que se declare a si mesmo, pelo olhar dos outros amigos ou colegas, como sendo 'cool' e adulto. A verdade é que o modelo deles são os pais. De muitas formas, a libertação de si próprio passa por imitar os adultos, os pais, os educadores, convencendo-se, mesmo que por oposição a eles, de que estão a 'inventar-se' a si mesmos. O prazer e a afirmação está mesmo nessa ilusão: de 're-invenção'.
O que pode ser interessante pensar, e na opinião também de Sigal Spigel, é que a causa da precocidade de comportamentos que visem desafiar a autoridade, e a busca da liberdade e afirmação de uma identidade autónoma pode estar ligada ao facto de nos dias de hoje estarmos a pedir demasiado aos nossos adolescentes. Pedimos-lhes que façam muito, muito bem, e cada vez mais e melhor. Provávelmente, estamos a ser demasiado exigentes nos seus desempenhos e compromissos. E pedimos muito, desde muito cedo aos nossos filhos.
E qualquer sociedade têm rituais de iniciação, ou em linguagem antropológica, ritos de passagem. A nossa promove essa ideia de que a liberdade e autonomia do adolescente passa por ser 'fixe' ou 'estar-se bem'; passa por atravessar as fronteiras da legalidade, do proibido.
O problema é que tudo começa cedo demais e este modelo de precocidade na emancipação do adolescente pode trazer consequências nefastas nas suas vidas. A mim, isto preocupa-me.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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0:15 Sexta feira, 13 de abril de 2012
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Aceitei um desafio interessante: pensar na morte como parte da vida. O assunto é complexo. O processo intelectual e emocional também não é simples. O efeito que um exercicio destes traz é imensamente gratificante. Não consigo, nem posso, reproduzir numa crónica, as ideias que fluem, os sentimentos que emergem, a coragem que tem de se ter para olhar para si próprio e questionar a sua própria morte, recordando os nossos mortos e vivendo os nossos vivos.
Agradeço a mim mesma ter tido a coragem de fazer um percurso de várias sessões. E fi-lo porque em inúmeras ocasiões ouvi do Imame Ismailita que devemos caminhar na vida lembrando-nos sempre que a vida é efémera e que só a alma é eterna; que devemos viver como se fossemos morrer amanhã; e trabalhar como se fossemos viver mais de 100 anos.
Um dos exercícios que se revelou importantíssimo na forma como quero viver foi o de imaginar que me é dito que tenho apenas mais um ano de vida. Aceitando esta como verdade incontornável, três questões se levantam: 1) o que deixo de fazer na minha vida? 2) o que continuo? E 3) o que mudo?
Parece simples o exercício, mas não é. Pelo menos, para mim.
O meu desafio hoje é o de sugerir que o/a leitor/a pense sobre estas questões e responda, por escrito, às três questões, pela ordem acima apresentada, e a uma de cada vez.
Quando tiver terminado o exercicio pense que efectivamente só tem um ano de vida e que, na realidade, o que importa mesmo para sermos felizes, é fazer dessas repostas o caminho para o resto do tempo que temos.
Depois, se lhe apetecer, partilhe ideias. Aprendemos sempre uns com os outros.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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18:00 Quinta feira, 29 de março de 2012
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A expressão ficou-me na memória, e às vezes lembro-me dela. Ouvi-a quando vivi em Londres, há uns 15 anos, passando por um 'sem abrigo'. Curiosamente, ele, um 'homeless', mandou-me para a minha 'home'...! Ri-me porque éramos ambos 'homeless', por razões provávelmente diferentes.
O pensamento veio desta vez por causa do assassino de Toulouse, o tal que se afirmou 'jihadista'. Nos media questionava-se sobre a falta de integração dos 'imigrantes de 3ª geração', e dos suportes ideológicos que encontram para legitimar a sua violência e actos de terrorrismo. É verdade que os terrorrismos não são exclusivos de populações migrantes, nem dos de '3ªa geração' , nem exclusivo a muçulmanos; mas é verdade também que encontramos pela Europa fora, e nos últimos 10 anos, um conjunto de eventos que cabem nesta tipologia. E isto não deixa de ser preocupante.
Reflectindo sobre estas questões, conversava com o meu marido sobre esta ideia de 'homeless'; não do tipo que me mandou para o Pakistão, mas de sentir-me portuguesa, e mesmo assim mandarem-me para a Arábia (como alguns comentadores já o fizeram neste blogue), e de, na eventualidade de lá ir, também nunca ser árabe, porque a naturalidade é moçambicana, a nacionalidade portuguesa, o nome é persa, o apelido hindu, e ainda por cima,Ismailita - ou seja, de uma fé muçulmana minoritária, vista como uma heresia do Islão. Para o meu marido, não há necessidade de ter 'uma identidade'. O que é isso? E para que serve? Onde nos leva? E lembrando-se da obra de V.S.Naipul, A Curva no Rio, recordou o personagem principal que faz uma passagem pela vida sem nada deixar de seu; sem nunca ter tido a vontade de intervir; de contribuir para a mudança. Falar de identidade é portanto, querer categorizar, arrumar, para não baralhar. O que importa mesmo é, onde quer que seja a nossa 'casa' ,de aí deixar algo nosso; contribuir para algo positivo, nem que seja levantar questões que façam pensar. Diz que é o que tenta fazer em em África, com as pessoas com quem trabalha.
Então, qual o elemento que leva o sujeito humano a pensar da maneira como a que pensou o assassino de Toulouse? Será não ter nenhuma expectativa de futuro, ou sentir a injustiça na forma como a sociedade o trata a si e aos que considera seus semelhantes? Ou será a falta de valores? E se sim, quais serão esses?
Em Moçambique os indianos muçulmanos trabalharam muito para viver os seus presentes, e ter expectativas boas para o futuro. Não eram mal-tratados, mas não eram nem 'portugueses', nem 'moçambicanos'. A sociologia anglo-saxónica designa-os como 'middlemen': tinham uma conduta exemplar perante Portugal e na sua actividade mercantil, serviam bem os nativos. Quanto a injustiças, recordo a história de um velho Ismailita que queria ir dançar com umas miúdas giras lá do liceu, mas que o clube era só para 'portugueses'. Não sabiam, e a coisa já estava combinada com as meninas. Ora, pensaram, temos de dar a volta à situação. E por essa noite usaram os cartões de membros do clube com os nomes falsificados: O Noorali passou a "Noronha-qualquer-coisa" e o Haji a "Henrique-qualquer-coisa", e lá foram bailar com as meninas portuguesas que até lhes achavam graça. E nem mesmo nessa condição se sentiram inibidos de contribuir para o bem, para a justiça, para a paz no seu país e no mundo.Foi, pois, por altura da 2ªGrande Guerra que o meu avô paterno e uns companheiros Ismailitas se apresentaram, nos seus trajes mais sóbrios e elegantes, perante a embaixada britânica, oferecendo-se como soldados das forças aliadas.
Concluo que a linha que separa o homicida de Toulouse de gente como a maioria dos muçulmanos que sempre conviveu com a diferença e sentindo-se diferentes, tem a ver com uma vivência cultural de valores religiosos que incentivam a intervenção positiva na sociedade, contribuindo para a mudança, mesmo que pequena. Como me disse um bom amigo Cristão, está na moda dizer-se que as religiões só vieram trazer a morte e a destruição. Na verdade, disse ele, se efectivamente contarmos as mortes e horrores cometidos em nome do Não-Deus, e compararmos com as que se fizeram em nome-de-Deus, encontraremos uma amostra proporcionalmente inferior destas últimas. Ninguém fez ainda as contas. Falamos por intuição, e pela força do mediatismo antireligioso.
Talvez por isso, muitos 'homeless' muçulmanos, com histórias de migrações como a minha, têm feito coisas extraordinárias na 'home' onde cohabitam com outros semelhantes. Eles estão aí; muitos são nossos vizinhos do bairro, da rua, ou do prédio onde vivemos.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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23:40 Quarta feira, 21 de março de 2012
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"Quando ele me beija as mamas, está realmente a beijar-me o cu!" A frase não é minha. Faz parte do livro 'Embroideries' de Marjane Satrapi. Ela diz: "O que fazem 9 ou 10 mulheres Iranianas que se juntam para um chá, principalmente quando são mais velhas? Falam de sexo, claro! Tudo se passa numa sala, e as mulheres abordam o tema, e riem, e choram..." o livro fala da avó de Marjane, uma mulher que teve uma influência especial na vida da autora. Ambas são muçulmanas.
Num dos episódios, 'Farideh' chora e lamenta que os homens que vai tendo nunca são realmente dela. O primeiro marido enganou-a dezenas de vezes, o amante dela, traia a mulher dele, e este último marido com quem se casou há trinta anos e teve filhos com ele, deixou de se interessar por ela. 'Shideh' respondeu que não devia sentir-se mal; que era normal os homens fazerem dessas coisas, principalmente a partir dos 50. 'Mas o teu também te engana com outras?' perguntou 'Farideh'. 'Não, mas quase. Como assim?' - pergunta a primeira. 'Bem', disse Shideh, 'o meu marido passava o tempo todo a olhar para outras mulheres, e mesmo enquanto conduzia a meu lado, por sorte nunca tivémos um acidente pois ele era capaz de revirar a cara para observar outras mulheres mais novas. Sabes, disse Shideh, os homens quando chegam aos 50, têm também uma menopausa. Só que a deles é invisível. E a razão porque querem ficar com miúdas mais novas é porque querem evitar pensar que eles também estão a envelhecer, e assim mostram ao mundo que estão em forma! Pois, antes que aparecesse aí uma 'bimba' qualquer, decidi que ia tratar de mim. Ora, olhem bem para mim'. E as outras mulheres foram dizendo que parecia mais magra, outras que o rabo estava bem delineado e outras que repararam que as mamas estavam maiores. 'Pois bem', disse Shideh, 'depois destes anos todos ao lado do mesmo 'gajo', tendo tido a trabalheira toda e os filhos dele, fiquei com um rabo grande e as mamas caídas. Decidi fazer uma plástica. Tiraram-me um bocado do rabo e meteram-no nas mamas. O meu marido ficou encantado com o rejuvenescimento. Diz que sou a mulher da vida dele; que só pensa em mim; que sou o máximo, que quer fazer amor comigo o tempo inteiro... enfim, tudo mudou. Só que o pobre homem não percebe que quando me beija as mamas, ele está realmente a beijar-me o cu!'
Já tinham pensado que este tipo de coisas acontecem no Irão Islâmico conforme o conhecemos na sua estereotipia normal? Pois, para mim, foi uma surpresa muito divertida.
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Faranaz Keshavjee ( www.expresso.pt )
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18:00 Quinta feira, 15 de março de 2012
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O meu fascínio pelo Irão vem de longe; vem desde que me lembro de ter explicado a origem e significado do meu nome próprio, que é Iraniano. Tenho o privilégio e a sorte de me cruzar com gente culta e informada sobre estas paragens do mundo. Foi o meu médico-ortopedista que me introduziu ao trabalho de Marjane Satrapi. Uma Iraniana exilada em Paris, escritora e artista fabulosa, de origem aristocrática do Irão pré-revolucionário. Persepolis e Embroideries são duas das suas obras super-interessantes.
A atribuição dos Óscares de Hollywood coincidiu com o fim destas leituras. Resolvi ir ver 'Uma Separação', aquele que recebeu o Óscar do Melhor Filme de Língua Estrangeira. Queria perceber o alcance do discurso do realizador Ashghar Farhadi. Farhadi disse que o Irão é um país de 'Gloriosa cultura anciã, feita de povos que respeitam todas as culturas e civilizações e que desprezam a hostilidade e o ressentimento'. Com efeito, ao ver o filme percebi que apesar de ter alguns amigos iranianos, sei muito pouco sobre os seus quotidianos. Para ser mais honesta intelectualmente, dificilmente consigo pensar sobre esses quotidianos sem que as imagens mediáticas formatem a óptica sobre esse outro. Gostei muito de conhecer uma parte desse mundo através do olhar de um bom realizador de cinema e de actores fantásticos.
O mais interessante nestas histórias é que é precisamente por debaixo de uma 'densa poeira de política', como diz Farhadi, que se esconde a possibilidade de nos maravilharmos com a alteridade, com o outro. E do medo do desconhecido, construímos castelos de intolerâncias e de políticas humanamente inaceitáveis.
No Irão, a revolta contra a ocupação estrangeira e a permeabilidade de entrada do 'ocidentalismo degradante', como foi visto o regime dos Xás, criou um conjunto intolerante e inaceitável de violências, legitimadas por uma interpretação do Islão. Marjane conta de uma forma trágico-cómica essa realidade. Aí o uso do véu passa a ser obrigatório nos espaços públicos, quando a mulher pisa o chão fora de casa. Por contraste, em França, numa Europa também ela gloriosa pelos avanços intelectuais e de conquista de uma cartilha de respeito pelos direitos humanos, orgulhosa de ter conseguido separar o Estado da Igreja, supera o seu medo da alteridade aplicando uma legislação com base numa ideologia de laicismo - que é uma outra forma de fundamentalismo - para dizer que, afinal, podemos todos ser diferentes, mas a diferença, nomeadamente a do uso do véu, é um assunto que os muçulmanos resolvem dentro de casa.
Se num país, o fundamentalismo islâmico coloca o véu sobre a mulher na rua; no outro, o fundamentalismo laico impede-a de se apresentar na sua individualidade e escolha pessoal publicamente, e manda o véu para casa. Um paradoxo de fundamentalismos interessantes que depois culminam em discursos xenófobos como os que Sarkozy vem anunciando nas suas novas medidas para uma possível re-eleição.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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8:00 Quinta feira, 8 de março de 2012
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Porque hoje é Dia da Mulher, esta crónica é uma homenagem à minha 'Dádi*', à minha mãe e à minha sogra e...aos homens que valorizam a minha humanidade
Certo dia, em conversa com a minha sogra, a minha mãe diz:' Oh Comadre! Acha bem que a 'nossa filha' ande assim com blusas transparentes e decotes?' Perante o sorriso condescendente da sogra disse: 'Deus fez-me assim como sou, e provavelmente quis que a Sua Obra fosse digna de se ver. Acha bem que a mostre só quando a força da gravidade faça com que tenha de ir buscar as mamas lá abaixo?!' 'Deixa-a estar à-vontade; ela sabe', disse.
A minha sogra é filha da 'Dadi', ou seja irmã do meu pai. Nenhum achou piada ao casamento entre primos, mas cá estamos, há 21 anos juntos, com dois filhos maravilhosos. A 'Dadi' tinha 8 filhos quando enviuvou. O mais velho com 18 e a mais nova com 8 meses. O meu pai tinha 8. Não tinha grandes recursos mas vinha de uma familia empreeendedora Sul-Africana - os Keshavjee, conhecidos pela visão da grandiosidade da vida, de fé inabalável, e admirável sentido de estética. Ela mudou a moda dos homens de Moçambique quando casou com o meu avô, cortando-lhe o comprimento do casaco. 'Que desgraça', diziam as gentes; 'pobre homem, chegou uma mulher moderna e encurtou-lhe o casaco. O que irá ela encurtar a seguir?' A seguir, construiu uma família próspera, cozendo e fabricando colchões, vendendo móveis. Foi por causa dela e do que ensinou aos filhos que os Ismailitas abriram todas as lojas de móveis em Portugal à medida que iam chegando de Moçambique. A sua postura autoritária e irreverente, que dizem que herdei, impunha grande respeito no meio familiar que ela controlava muito bem. A filha mais velha, a minha sogra, foi das primeiras Mulheres a conduzir automóveis em Lourenço Marques; conduzia camiões de carga para ajudar no negócio. As noras queixavam-se mas certamente aprenderam muito também. A minha mãe ainda hoje se lembra dos seus ensinamentos e transmite-os.
Certamente, pelo exemplo de mulher lutadora e determinada que foi a 'Dadi', a minha mãe dedicou tudo o que pôde para não deixar que os filhos percebessem que comíamos lentilhas e cenoura fresca muitos dias da semana porque a educação era muitíssimo importante. Foi ela que impôs em casa que os filhos estudassem nas melhores escolas e que eu fosse estudar para o Liceu Francês em Lisboa. Ainda me lembro da conversa dela com a vizinha francesa enquanto estendia a roupa. Antes de me casar aconselhou-me sobre a estabilidade no casamento, e sobre a importância de manter a minha postura, e ter sempre a roupa interior muito cuidada e 'sexy'. Talvez por isso, e por mais coisas, sempre que saiem, os meus pais ainda andam de mãos dadas.
Talvez porque houve uma 'Dadi' o meu pai apostou muito em mim e, reconheço, menos aos meus irmãos, embora sejam ambos personalidades notáveis; a eles valeu-lhes muito a mãe. Quando o meu marido veio a casa pedir autorização para o nosso casamento, a única coisa que o pai lhe pediu foi que se fosse para casar antes de terminar a educação superior, que era o maior dote que me poderia dar, que me proporcionasse as condições desejáveis para o fazer. O meu marido acompanhou-me desde então, e eu continuei a estudar até hoje, tendo a nossa 1ª filha nascido em Cambridge durante o processo de candidatura ao Doutoramento. Se calhar o gosto que tem em ver-me evoluir é porque é filho e neto de notáveis mulheres.
Foi neste ambiente que nasci e cresci e que fez de mim o que sou hoje: sensual e boa amante (pelo menos gosto de pensar que sou), mãe devota, mas não perfeita, companheira dos meus amigos, intelectualmente curiosa, corajosa e determinada. Ah, e adoro dar umas boas gargalhadas. Dizem que rio muito alto...
O que importa é que sou única. E é isso que temos de reconhecer todos os dias; que cada mulher é uma mulher, e em cada uma, há um ser humano.
Apesar dos enormes avanços conquistados relativamente à paridade e igualdade de direitos e oportunidades entre pessoas de sexo diferente, as representações de género sobre a masculinidade e a feminilidade proporcionam injustiças e desigualdades. Muitas há que continuam a não ter acesso à literacia, ao desenvolvimento intelectual e saberes técnicos que lhes permitam sair de condições de subjugação e violência doméstica e social, e consequentemente, de situações de pobreza e fome. E isto é tão verdade no mundo moderno como nas sociedades de tipo patriarcal.
Hoje é um bom dia para lembrar que todos os dias temos trabalho a fazer para tornar o mundo mais justo, mais próspero, mais pacífico.
*Designação Gujarati para avó paterna
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0:20 Domingo, 4 de março de 2012
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No outro dia ouvi Miguel Relvas numa entrevista com Mário Crespo. Sempre o achei um rapaz esperto mas pouco inteligente. Percebi nessa entrevista que também é desinformado. Aliás, é este tipo de politicos que governam o nosso país. E a linhagem sucessória, desde há uns tempos, é deste tipo de decadência. São uns maus e tristes exemplos que se seguem a outros. O evento muito banal mas profundamente revelador do que digo é o de ter ouvido Relvas agradecer o convite da SIC, onde se sente em casa, e ter saudades do minuto de criatividade dos frente-a-frente, onde se podia falar desde politica internacional ao último livro de Harry PORTER! A primeira vez que ouvi, pensei que pudesse ser um problema da dobragem da língua, mas o senhor repetiu esta gafe 3 vezes seguidas!
Num mundo globalizado e onde todos os adolescentes e jovens, e até os menos jovens, conhecem pelo menos o nome do herói dos livros mais vendidos do mundo, para além de os terem possivelmente lido, como devem olhar para a ignorância e falta de cultura geral do governante mais importante deste país, depois do primeiro-ministro? Mal. Muito mal.
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Faranaz Keshavjee (www.expresso.pt)
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1:22 Quinta feira, 1 de março de 2012
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Durante quase dois dias o Secretário-Geral das Nações Unidas - Ban Ki-Moon, visitou Angola, e teve a oportunidade de conversar com os governantes e com membros da sociedade civil, comentando sobre os aspectos que o impressionaram pela positiva numa realidade sócio-politica que saiu da guerra faz agora 10 anos. Deixou igualmente notas importantes de desafio para um Pais que representa uma das economias mais prósperas do mundo - um povo e uma nação que manteve orgulhosamente o Português como sua língua oficial.
Mais uma vez, no que respeita a este evento, a agenda mediática em Portugal revelou-se ou silenciosa ou tendenciosa. Como lembra Henrique Raposo na sua crónica sobre a baixa auto-estima endógena dos Portugueses, devíamos orgulhar-nos de estarmos associados, entre outras coisas, a países como Angola e Brasil, dois exemplos notáveis de economias emergentes no mundo.
Infelizmente para Portugal, a forma de ver o pluralismo das terras por que passou, sobretudo as que emergem como dominantes fora do seu dominio, faz parte da sua zona de desconforto.
No discurso de despedida
Ban Ki-Mon afirmou que existem todas as condições justas e apropriadas para o decurso normal do processo eleitoral em Angola. Foi assim em 2008 e será assim em 2012. Afirmou também que apesar do crescimento notável da riqueza do país, há ainda que ultrapassar o hiato entre os pobres e os ricos. Mas enfatizou que Angola saiu há apenas 10 anos de uma guerra devastadora e que mesmo assim se coloca agora numa posição de potencial colaboradora das Nações Unidas.
Nos últimos anos venho conversando com 'grandes' e 'pequenos' angolanos e, apesar de perceber os desafios sociais e estruturais que precisam de ser feitos, vejo com admiração o trabalho, a vontade e a persistência para fazer a diferença pela positiva. Existe uma genuina vontade de criar entre outras, infra-estruturas educacionais, de comunicação, de orientação cívica para assegurar condições de vida condigna de uma nação geográficamente muito, muito maior; com uma história muito, mas muito mais trágica que a de Portugal. E no meu olhar e ouvido de cientista social, e sendo 'irmã' de uma grande familia portuguesa que sofreu alguns desaires históricos, sou particularmente sensível a estas realidades.
As democracias poderão ter um ideal genérico comum mas a forma como se colocam em prática podem ser muito diferentes. Há as de sucesso; outras que falham redondamente. Curiosamente ela foi avaliada num estudo recente da Universidade Católica que revela que só 56% dos portugueses estão satisfeitos com o modelo de democracia do seu país! Estes resultados de investigação devem ser lidos atentamente para que possamos também em Portugal 'fazer caminho' para a equidade e valor social e político dos eleitores.
Os angolanos sabem dos desafios que têm à sua frente. Mas é justamente pelo seu percurso particular que são hoje vistos por Ban Ki-Monn como potenciais aliados das Nações Unidas na manutenção da paz e segurança, porque precisamente, sabem como controlar muito bem quem vem em paz ou quem vem para semear a discórdia de que já estão cansados.
"Angola lidera actualmente a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral e a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa e penso que vai fazer muito mais para a cooperação e o fortalecimento das Nações Unidas com outras organizações", disse.
Perante estes factos, construtiva e fraterna seria a predisposição para aceitar a nossa portugalidade. Angola, Moçambique, Brasil,Cabo Verde, Timor Loro Sae, Goa, India, e muitos outros países fizeram e farão sempre parte desta grande 'casa portuguesa'. Ah pois, com certeza!
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