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Crónica

Vai fazer falta a muita gente!

O fundador e diretor do Expresso, Francisco Pinto Balsemão, reúne com a redação e outros trabalhadores do jornal num dos andares do nº37 da Rua Duque de Palmela, em Lisboa. Lucília Santos, de quem agora nos despedimos, está em pé, encostada à janela

Raul Nascimento

”Generosa e amiga do seu amigo, sabia lutar pelos seus pontos de vista”. Francisco Pinto Balsemão escreve sobre Lucília Santos, a primeira secretária que teve no Diário Popular e que o acompanhou na fundação do Expresso

A Lucília foi a primeira secretária que tive, na década de 60, quando eu trabalhava no Diário Popular. Penso que foi o primeiro emprego dela, mas rapidamente se adaptou ao tipo de funções que lhe eram exigidas, ao ambiente de um jornal, às vicissitudes dos horários e dos egos de uma Redação eficaz e lutadora, bem como a mim, à minha maneira de ser, à mania de ditar (e ela não sabia estenografia), e à minha ilegível caligrafia.

Cedo percebi que não estávamos no mesmo quadrante ideológico e político, ela, que vivia no Barreiro, perto da CDU, eu na Ala Liberal e depois no PSD. Mas, isso nunca teve qualquer efeito nas nossas relações pessoais ou profissionais.

Quando em 1989/90, se deu a debandada de muita gente do Expresso para a fundação do Público, a Lucília também foi. E eu fiquei muito triste com essa decisão que ela tentou sem êxito explicar-me de coração nas mãos.

As feridas daí resultantes demoraram bastante tempo a sarar. Quando isso aconteceu, retomámos contactos, embora, por motivos óbvios, sem a frequência diária de outros tempos.

Acompanhei, por isso, à distância, o sofrimento e a estoicidade com que ela enfrentou, durante muitos anos, a doença que acabaria por vitimá-la.

Ainda no último Natal lhe telefonei, achei-a bem disposta, e com coragem, e estivemos muito tempo à conversa (incluindo uma inesperada visita que Marcelo Rebelo de Sousa lhe fizera) e a combinar encontros que acabaram por não se concretizar.

Era generosa e amiga do seu amigo, sabia lutar pelos seus pontos de vista.

Vai fazer falta a muita gente.