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Crónica

Chegou o Chico. No seu jeito de sempre chegar

FERNANDO VELUDO/EPA

Entrou em palco silenciosamente, no Coliseu de Lisboa, como quem chega a casa e se descalça. E cantou daquela vez como se fosse a última. Não é. Há mais três noites de coliseu e a vida toda para o ouvir. Que cafuné bom, Chico

Débora Henriques

José e Deolinda entram de braço dado no café ao lado do Coliseu e pedem dois croquetes, dois pastéis de bacalhau e duas minis. Têm uns 70 anos. Ele bebe da garrafa, ela pede um copo. Arranjados, com gabardines beges impecáveis, sem qualquer vinco, ficam ao balcão. Comem em poucos minutos e pedem a conta. O empregado, João, é brasileiro. Espera poder ver o “Chiquinho” no sábado, se o patrão lhe der folga: “Depois volta aqui no final para contar como foi, 'tá?”. Entretanto, José e Deolinda já pagaram e saíram, novamente de braço dado, cada um com o seu guarda-chuva, em direção ao Coliseu, esta quinta-feira. Foram juntos a um concerto do Chico “em 78”, se a memória dele não falha. Desde então, ouvem-no "todos os dias". Mas só vão voltar a vê-lo hoje. Juntos, outra vez. Quarenta anos depois. Aposto que não sabias desta história, Chico, ou já a terias cantado.

Entretanto já são horas. Coliseu cheio. As luzes apagam-se e o pano sobe. E aí está ele. Francisco Buarque de Hollanda. "O Chico", daqui em diante, porque entre amigos não faz sentido ser de outra maneira.

Agora ele era o rei. O bedel. E era também juiz. Doze anos depois, a voz e o violão de sempre. "Minha Embaixada chegou", o samba emprestado de Assis Valente, podia ter sido o quebra gelo, se ao primeiro acorde o Coliseu não estivesse já derretido de amor e de saudade. Sem paragens, cola "Mambembe" e "Partido Alto". Só clássicos dos anos 70. José e Deolinda devem ter gostado do alinhamento. Será que também as ouviram em 78?

"Obrigado. Boa noite, Lisboa", diz ele abafado por aplausos. E começa a viagem. Daquelas boas. Sem pressas, com as paragens e os desvios que nos apetecerem. Num dia quente (vamos esquecer a chuva lá fora), com as janelas abertas e o Chico a cantar as nossas histórias, que soam tão melhor na voz e nas letras dele.

Quando pede colo em "Yolanda", do cubano Pablo Milanés, já o público o agarra junto ao peito e lhe faz um cafuné com palmas, a acompanhar o ritmo da música.

Chico pousa o violão e, como quem não quer a coisa, chega "Casualmente", do álbum "Caravanas", que o traz de volta a Lisboa. "És lindo", gritam do balcão. Vamos todos até Cuba e, de repente, cheira a charutos e a rum. Nada que pareça incomodar a “Moça do sonho” que aparece entretanto e que acaba com o aplauso mais prolongado até agora.

"Tive sempre grandes parceiros, que fizeram sempre músicas que eu gostava de ter feito", diz ele com um sorriso. Adivinhem quem vem lá? Jobim, pois claro. Tom, para os amigos. É a ele que devemos agradecer o facto de Chico Buarque não ser hoje arquiteto (como se não tivéssemos já tanta coisa para lhe agradecer). Senta-se para cantar "Retrato em branco e preto”, um clássico a quatro mãos dos dois amigos, a maltratar o coração de um coliseu rendido. "Lá vou eu de novo, como um tolo, procurar o desconsolo que cansei de conhecer", diz ele. Quem nunca?

Nas letras do Chico, até as nódoas negras sentimentais parecem bonitas. Inventa a tristeza num verso e tem a fineza de a ‘desinventar’ no outro. Da nossa parte nunca vai certamente merecer insultos. Mas é com a letra de "Desaforos" que responde ao fel dos incomodados com um mulato que toca boleros (ele sabe que está longe de ser só isso). Chico não se incomoda. Parece até fazer um brinde aos "haters" dos nossos dias. Acompanha com “Injuriado", um samba para ser cantado com cerveja em mesa de bar, disse ele uma vez. Seja. À tua, Chico!

Ainda o copo vai a meio e o solo passa a “Dueto". Bia Paes Leme faz as vezes de Clara Buarque, que canta com o avô no disco.

Novamente a sós, as primeiras palavras para a "malandragem com contrato, gravata e capital", na política cantada d’“A Volta do malandro” e da “Homenagem ao Malandro”.

Sem conversa pelo meio, chega a promessa de voltar com "Palavra de Mulher", para depois entornar poesia nas "Vitrines". Passe perfeito para "Jogo de bola", do último álbum, em que dribla uma ode à paixão do futebol. Chico é craque. Até tem um clube: o Politeama. Será que ele sabe que do outro lado da rua há um teatro com o mesmo nome?

Felizmente ainda falta muito para o apito final. Ainda havemos de molhar os pés na praia de Massarandupió, falar de “Outros sonhos”, cantar uns “Blues pra Bia” e viajar até ao Grande Circo Místico, lembrando “A história de Lily Braun”. Memórias que nos levam a “Todo o sentimento” e agora só com o piano de João Rebouças. Que momento. Chico promete amar "até o amor cair doente" e ao meu lado já se limpam lágrimas. (Suspiro). "Bravo", gritam de um dos camarotes.

Vamos embalados até um dos momentos altos da noite. O coliseu enamorado, a cantar “A tua cantiga”. Não devem ter podido vir os que o acusaram de machismo por causa do verso em que um homem promete deixar a família para seguir um grande amor. Bobagem, minha gente. O público demora-se nos aplausos, Chico agradece com uma vénia e retribui o carinho com "Sabiá". Mais um clássico. Mais uma canção a meias com Jobim, que provocou uma discussão entre os dois sobre se devia ser "o" ou "a" sabiá. Chico cantou no feminino. Ganhou o Jobim.

Ainda não estávamos recompostos da emoção quando vem outro dos momentos mais bonitos. "Saravá, chefia", grita Chico. A homenagem a Wilson das Neves, o baterista com quem tocou durante mais de trinta anos e que morreu no ano passado. Põe o chapéu e ensaia uns passos de dança, nos primeiros acordes de "Grande Hotel”, que põe a plateia a abanar a anca.

Foi um tirinho até à "Estação derradeira", que marcava o final do concerto. Era o que faltava acabar já. O Coliseu levanta-se e começa um aplauso que dá tempo para Chico agradecer, deixar o palco e voltar minutos depois para o primeiro encore. “Geni e o Zepelim” põe toda a gente a gritar “maldita Geni”.

A raiva dura pouco, porque a seguir engolimos todos em seco com a promessa de um amor que pode esperar. “Não se afobe não, que nada é pra já.” Ao meu lado, um casal abraça-se. Quem nunca recebeu um verso de “Futuros Amantes” numa cantada? Não? Vejam lá isso. Sei de histórias de amor que começaram assim. E está toda a gente de pé, outra vez. Chico volta a despedir-se, mas o público chama e ele não se faz difícil.

Agora é que é mesmo para acabar. Ainda faltava a homenagem à família. "Ao pai paulista, ao avô pernambucano, ao bisavô mineiro e ao tataravô baiano", porque o amor do malandro chega "Paratodos".

No fim da música, alguém da primeira fila sobe ao palco e entrega-lhe um cravo vermelho. Parecia ensaiado. Para a despedida, Chico escolheu "Tanto Mar", a homenagem à revolução de Abril. E, de repente, um coro irrepreensível, com milhares de vozes, acompanha-o nos versos. Ele agradece e diz que "a festa foi bonita". Bonita é pouco, pá.

Foram quase duas horas. No fim, não voltei a encontrar o José e a Deolinda, mas tenho a certeza que saíram de braço dado.

A chuva não me deixou passar no café para contar ao João como foi. Espero que o patrão lhe dê folga para poder ir ao Coliseu no sábado. Para ele ver com os próprios olhos como é que o moleque que queria cantar como João Gilberto, fazer música como o Jobim e escrever letras como o Vinicius conseguiu fazer um hat-trick impressionante. Enquanto Portugal vencia a Argélia, Chico dava show de bola no Coliseu.

Morre de amor quem é capaz, canta ele em “Sílvia”. Arrisco dizer que morremos todos um bocadinho esta noite, no Coliseu. Pudesse eu cantar-vos como foi.