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Crónica

Quem tem medo de Cordélia? (ou como viver num mundo apressado)

Paula Só no papel de Rei Lear, numa encenação de Bruno Bravo

Filipe Ferreira

Quando o rei Lear, imortalizado por Shakespeare, chama as três filhas, Goneril, Regan e Cordélia, para se desfazer do reino e dos bens, mas não do poder que estes lhe concedem, o que ele diz querer é “sacudir da velhice todos os afazeres e cuidados e entregá-los a forças jovens, para que, aliviados, possamos arrastar-nos para a morte”.

Lear quer abdicar da coroa mas não do séquito e do poder que estes representam. Das três filhas espera juras de amor eterno e total. Cordélia, a mais nova e preferida, é a única que não corresponde a esse desejo de bajulação. Lear acha-a áspera. Mas ela responde-lhe que é verdadeira.

Despeitado, o pai destina-lhe como dote a sinceridade dela, dividindo o reino pelas suas duas irmãs, ainda sem adivinhar que esse ato fará dele um rei pasmado, um velho condenado à humilhação e à solidão.

Lear comete o erro de querer ser velho antes do tempo, de condenar uma filha à condição de estranha apenas por não ter preenchido o silêncio, um imenso nada, com as palavras que ele pretendia ouvir.

Cordélia é punida por se recusar a usar o tom “untuoso” das suas irmãs. “O tempo há de mostrar quem tem malícia, que a vergonha é o castigo da estultícia.”

A peça de Shakespeare teve várias versões e tem sido encenada e adaptada de diversas formas. É um texto muito complexo e as possibilidades de interpretação, imensas. Ao nível mais íntimo, há a questão do amor filial, a relação entre pais e filhos (também através da narrativa paralela de Gloucester e dos filhos, Edgar e Edmundo), as traições entre irmãos, os pais que se tornam filhos e os filhos, pais.

A nível político, impõe-se a questão da verdade. A verdade é possível na política? É que Cordélia não responde ao pai na intimidade da sua casa, mas perante a corte do rei, num plano coletivo e não individual. Quando Lear se descobre abandonado pelas suas duas filhas e é forçado, enlouquecido de dor, a abrigar-se entre “porcos e mendigos”,

Cordélia há de voltar. Mostrar-lhe-á que é a única que o ama. Derrotado, Lear ver-lhe-á as lágrimas, mas demorará a acreditar no que lhe aconteceu.

O mundo está cheio de “Lears”. Conheço um que vive numa velha casa junto à berma de uma estrada. Às vezes vejo-o a cortar a lenha, derreado pela dor. Nunca o vi de pé, direito, também nunca lhe perguntei o nome ou lhe dirigi a palavra, por pudor. Sei como se chama e também a sua história por ouvir contá-la aos vizinhos. Deu tudo à filha, e a filha tudo lhe tirou, expulsando-o da sua própria casa. Não quero imaginar a sua dor, a morte que vive em vida.

As histórias fundamentais atravessam os tempos, e é por isso que as peças de Shakespeare, clarividentes nas escolhas dos conflitos humanos que retratam, nunca envelhecem. Ou envelhecem na medida em que, sendo longas, raras vezes são levadas a cena na sua totalidade. Opta-se por “iluminações do texto”, para que os espectadores apressados dos nossos dias não se aborreçam; para que os atores e encenadores, que não têm dinheiro nem elenco que cheguem para tantas personagens, as possam trabalhar em muito menos tempo do que aquele que seria justo.

Foi o que aconteceu com a última encenação de “O Rei Lear”, apresentada no Teatro D. Maria II. Depois de dois anos a estudar a peça, Bruno Bravo fez as suas opções. “Iluminar uma parte de Lear”, como disse em entrevista, foi o seu objetivo. No processo, deu sobretudo voz ao Bobo (a personagem com o discurso menos cortado), que de facto diz frases irresistíveis como: “Os Bobos estão sem trabalho e sem ganhar/Porque os sábios ocuparam o seu lugar”; “A verdade é uma cadela que obrigam a recolher ao canil; enquanto a correm a chicote”; “Quem o conselho te deu/De dares tudo o que era teu/Dá-lhe um lugar ao pé do meu.”

Retirou-lhe, porém, grande parte do fim, quando o Rei Lear reencontra a filha Cordélia. Amputou uma parte que a minha memória recorda como sendo uma chave da peça, da encenação que vi em 1998 no mesmo teatro, com Ruy de Carvalho no papel de Rei Lear e Lúcia Maria no de Cordélia.

Bruno Bravo eclipsa esse confronto final e, logo, a dimensão do conflito entre o erro do rei, afundado no seu egocentrismo, e o amor e a sinceridade de Cordélia, caminhando apressadamente para um fim que se revela abrupto e inesperado.

Deste espetáculo, com uma hora e quarenta e cinco minutos (em vez das quatro horas que provavelmente levaria a representar uma grande parte do texto), fica a lembrança de uma sucessão de vários quadros cenicamente cuidados, de uma narrativa amputada, e a vontade de perguntar o que é que aconteceu. Na pressa, não há tempo para sinceridades? No mundo, não há lugar para a honestidade? O amor só existe através das palavras? Quem tem medo de Cordélia?