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Crónica

Os eucaliptos do vizinho da Maria (ou como a burocracia nos está a matar)

Os eucaliptos e a difícil tarefa de os impedir de crescer

CM

Há uns bons anos, Maria regressou à casa onde nasceu. Abandonara-a depois de casar com Manuel, convicta de que os dois lá voltariam. Foi, de facto, o que fizeram quando chegaram à reforma. O regresso à velha casa dos pais foi feito com o entusiasmo de quem vai modernizar e refundar um novo lar. Nos sonhos mais puros dos dois, aquela casa haveria de ser o ponto de encontro de seus filhos, netos e bisnetos. Uma espécie de monumento familiar que atravessaria gerações para fazer jus à memória dos que lhes antecederam.

Quando Manuel partiu, traído pelo coração, Maria não desistiu. Persistiu. De pé. Às vezes tão vacilante quanto um dos seus pintainhos acabados de nascer ou uma daquelas árvores que lentamente foi acrescentado ao pomar. Maria continuou sozinha a cuidar da casa, das árvores, da horta e do jardim.

No último inverno, no regresso de uma passagem pelo hospital, que a afastou alguns meses de casa, Maria descobriu que um dos vizinhos, um primo afastado, tinha plantado no quintal ao lado do seu uma mão-cheia de eucaliptos. Os pequenos rebentos alinhavam-se bem perto da sua propriedade. A poucos metros de distância do poço que abastece a casa e serve a rega, e ainda de uma cada vez mais frondosa plantação de quivis, que Manuel criara. Maria ainda falou com o vizinho. Mas de nada lhe valeu. Acabou por ter de chamar a GNR, que fez seguir a queixa para o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF). Três meses depois, os eucaliptos já lhe davam pelos joelhos, verdes, viçosos. O poço parecia ter cada vez menos água. Do ICNF, nada. Nenhuma carta. Nenhuma chamada telefónica.

Num telefonema feito em junho para o ICNF, Maria descobriu que, segundo a lei em vigor, a existência do poço não era razão suficiente para impedir o vizinho de plantar eucaliptos. O técnico assegurava-lhe: “Para já, não há nada a fazer!” O alegado infrator tinha um prazo de 45 dias para responder. Maria sentiu-se derrotada. Ainda mais quando, em jeito de conselho amigo, o técnico rematou: “Como os eucaliptos ainda são pequeninos, não correm o risco de arder. Ligue-nos lá mais para a frente, até porque é mais fácil atuar antes do início da época dos fogos.”

Três dias depois, Portugal haveria de acordar abatido pela tragédia de Pedrógão Grande. Os eucaliptos no quintal do vizinho da Maria continuariam a crescer.

A meio de verão, os eucaliptos já quase lhe davam pela cintura. Sendo que, à medida que cresciam em altura, a linha de água nas paredes do poço descia. Três dias antes deste 15 de outubro corrido a fogo e a morte, o técnico do INCF conseguiu identificar o processo e responder aos insistentes telefonemas. Iria finalmente deslocar-se ao terreno. Era quase certo que acabaria por mandar arrancar os eucaliptos que não estivessem conforme a lei, porque a lei dizia que estes não poderiam estar a menos de vinte metros da linha de separação das duas propriedades.

Dois dias depois, num raio de poucos quilómetros, tudo ardia à volta da casa da Maria. Os vizinhos passaram a noite acordados. As mangueiras ligadas. Os carros na estrada, prontos a fugir. O fogo andou perto. Fogo posto, como se veio mais tarde a saber.

Nessa noite, Maria nem saiu do quarto. Nem se aventurou fora da casa. Nem quis saber. Uma semana depois, deu de novo entrada no hospital.

Os eucaliptos ainda não foram arrancados e também ainda ninguém percebeu se o técnico do INCF já lá os foi ver. Os eucaliptos lá continuam. A crescer.