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Crónica

Guerra sem nome (notícias de uma cidade maravilhosa)

Ano após ano, o número de crianças vítimas de um país e de uma guerra aumenta Foto

Reuters/Ueslei Marcelino

Em janeiro deste ano, uma bala de origem desconhecida atingiu-a no rosto. Os pais comiam. A menina brincava. Aos dois anos foi-se-lhe a vida. Semanas depois, outra menina, de sete anos, foi igualmente morta por uma bala no tórax. Em março, no recreio, uma adolescente tombava vítima de um disparo. Em abril, morreu um menino com uma bala na barriga, e em julho uma menina de 11 anos foi literalmente trespassada pela morte. Logo depois um bebé foi atingindo por um tiro ainda dentro da barriga da mãe. Todas estas crianças estavam no sítio errado, ainda que esse lugar fosse um jardim, uma escola, uma casa, um restaurante ou um carro.


Todos estes miúdos foram colhidos por balas perdidas. E todos têm um nome: Sofia, Fernanda, Maria Eduarda, Paulo, Vanessa, Arthur e Renan – a mais recente das sete crianças que pereceram no Rio de Janeiro desde o início do ano. Sete inocentes. Vítimas de um país e de uma guerra, ainda que esse país se tenha esquecido de anunciar a guerra ou de lhe dar um nome.

André chegou a Portugal pouco depois de Vanessa ter sido vítima de uma dessas balas perdidas. É ele, fotógrafo profissional, jornalista, quem me fala dessa menina que morreu apenas por brincar no recreio da escola. Na altura do seu funeral, em julho, no Rio de Janeiro já tinham sido atingidas 470 pessoas por balas perdidas, sendo que, entre estas, 80 acabaram por morrer. Desde então o número não parou de aumentar, nem houve como parar, como interromper a escalada de violência.

André veio para Portugal para ficar. Longe do Rio de Janeiro. Longe de uma guerra. Nos últimos meses que passou na sua cidade, apanhou um tiroteio que o fez ficar quatro horas dentro do carro. No período de dois meses, cinco pessoas morreram à volta da sua casa. O copo transbordou quando um dia chegou a casa e se viu sem nada, incluindo computador, máquinas fotográficas, arquivos.

Ainda que a violência não seja de todo um assunto desconhecido para os brasileiros em geral, e para os cariocas em particular (também para o André, cuja família foi vítima de rapto nos anos 90), a velocidade e a intensidade com que esta tem evoluído nos últimos tempos fizeram com que a vida no Rio de Janeiro se tornasse insuportável. Com pelo menos onze tiroteios por dia, os cariocas estão a perder a vontade de viver na cidade maravilhosa, onde cada deslocação é precedida de uma consulta a uma aplicação de telemóvel (como “Fogo Cruzado”) que assinala não o trânsito, mas o número de tiroteios que poderão encontrar na estrada.

É verdade, como lembra André, que os cariocas acabam sempre por se acostumar à violência. “Adaptam-se, privam-se de fazer coisas, de ir a certos lugares. Mas é cada vez menos confortável. Há cada mais gente a sair. Nos últimos meses, há quem tenha ido a dez festas de despedida.”

Dez dias depois do último conflito na Rocinha, uma sondagem feita pela “Folha de S. Paulo” garantia (com uma margem de erro de quatro por cento) que 72 por cento dos entrevistados estavam disponíveis para sair da cidade. 90 por cento sentem-se inseguros à noite na rua. 65 por cento mudaram as rotinas. 67 por cento ouviram um tiro recentemente. 30 por cento viram algum disparo. 24 por cento tem um parente ou amigo entre as vítimas. André fala-me desse Rio violento, acossado, derrubado, sangrento e cruel sentado no Jardim do Tourel, em Lisboa.

O horizonte tingindo pelas cores de fim de tarde criam uma imagem bonita. Ele olha na direção das colinas opostas, eleva a máquina que traz a tiracolo e faz um disparo. É simples. Ninguém cai. Ninguém morre. Ninguém lhe aponta uma pistola. Ninguém lhe dá um esticão. Ninguém o rouba. A leveza do gesto é “estranha”, tal como a possibilidade de trazer uma máquina pendurada ao pescoço e de a poder erguer de modo livre, sem temer a morte. André ainda se está a habituar à paz numa cidade maravilhosa.