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Expresso

Crónica

Escrevo agora para me despedir deles

Luís Barra

Escrevo agora para me despedir deles. Para agradecer tê-los conhecido, terem-me feito perceber que mesmo quando estamos sozinhos e somos esquecidos é possível encontrar força na planta que um dia insisitirá em nascer. Eles sabem, já o viram. Eles são a gente de Pedrógão

Chego a Lisboa, entro em casa de madrugada, ninguém na rua, nenhum ruído. Mas eu tenho rua, tenho casa. Eles não, ficaram sem nada, ou quase nada. Acendo a luz, que eu também tenho. Eles não. Tento não fazer barulho, mas quero que a minha chegada se oiça. E ouvem, tenho quem me receba. A porta abre, duas crianças correm e abraçam-me. Acordei-as. Abraço as crianças, mando-as para a cama, que elas também têm.

A viagem demorou quase duas horas. Na mochila trago bem mais do que três dias de trabalho duro. Está cheia de cinza, cheira a lume. Nunca vi fogo. Nunca queimei a pele, só com o sol, aquele olho ruivo que me perseguiu e assustou. Olho à volta e não sei o que fazer. Reconheço a casa, os móveis. Não me reconheço a mim. Carrego comigo a Adelaide, que salvou sete e acolheu a viúva de joelhos. Convido-a para sentar-se no sofá, dividindo espaço com Cesaltina, a mulher que molhava os cebolos mortos, acreditando na força das raízes, intocadas pelo incêncio.

Lembro-me de Vítor, de quem nada vi, aquele que morreu na cama, sem chão e com o teto sobre o corpo desfeito. Um homem de 56 anos que saiu de casa num saco azul. E do filho do João e da Eliana, olhar fixo não sei onde, a acariciar o caixão do pai, à porta do cemitério. Há tanto lugar para se morrer e eles caíram sem ar justamente na porta do cemitério! Com o cão, também morto, a guardá-los. Estão todos ali. Comigo. Já não me largam.

Foi difícil? Custou? Não, a mim, não me custou nada. Custou-lhes a eles. As casas, as árvores, os animais. A mim não me custou nada, mas a casa parece pequena para tanta gente. Cada vez chegam mais na madrugada de terça para quarta-feira. Ainda estranham o meu sotaque, abrem os olhos quando os chamo, miram-me, como se perguntassem "de onde apareceu essa?". Vim do Brasil, demorei a chegar a Pedrógão Grande, mais ainda a passar por Nodeirinho, Vila Facaia e Pobrais, que raio de nome tão clarividente.

Escrevo agora para me despedir deles. Para agradecer tê-los conhecido, terem-me feito perceber que mesmo quando estamos sozinhos e somos esquecidos é possível encontrar força na planta que um dia insisitirá em nascer. Eles sabem, já o viram. Por isso, ficam comigo, mas já sabem que terão de ser guardados na memória. Porque eu, no fundo, também continuo lá, sentada naquela paragem de um autocarro que um dia vai voltar a passar. E quando passar, entraremos, eu e eles, sem que nenhum de nós lá esteja. Porque já passámos. Eu e eles, passarinho, como disse um dia o poeta, muito longe, lá na minha terra.