Siga-nos

Perfil

Expresso

Crónica

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

O rompe-corações. Por Clara Ferreira Alves

Chip Somodevilla/ Getty Images

“Os deuses parecem ter amado excessivamente a família Kennedy. E, de certo modo, continuamos a ter saudades não do que Kennedy foi realmente mas do que que Kennedy representou realmente.” John F. Kennedy faria 100 anos esta segunda-feira se fosse vivo. Clara Ferreira Alves prosa sobre o mito, a beleza e a juventude. E a mortalidade

Já? Cem anos do nascimento de John Fitzgerald Kennedy? O 35º presidente dos Estados Unidos da América? Um século? O tempo passa.

Não sei onde estava quando o primeiro homem deu o primeiro passo na lua, sei onde estava quando assassinaram o presidente Kennedy. Na casa dos meus pais, junto ao fogão da cozinha. Prosaico demais.

Não sabia bem quem era o presidente Kennedy, não estava, como se diz agora, no meu radar. Era criança pequena. Não me lembro do acontecimento, lembro-me das consequências do acontecimento. A minha mãe gritou mataram o Presidente Kennedy, e começou a chorar. Aquele choro por um estranho fez-me impressão. Não me lembro de ver o acontecimento na televisão da altura, a televisão era altamente censurada e o horário noturno estava vedado a crianças, mas lembro-me de ver os funerais solenes, aquele cavalo sem cavaleiro, aquela viúva com a cara velada de negro, e as dois meninos bem aperaltados que sem se saberem órfãos já tinham aquele ar desolado dos órfãos, com os botões dos fatos bem apertados. Uma tristeza desfazia-se em cinza, depois do fogo apagado. Camelot esfumara-se nuns segundos. O mundo chorava tanto como a minha mãe. E estava, como ela, um pouco apaixonado por JFK, o rompe-corações.

JFK no dia em que foi assassinado

JFK no dia em que foi assassinado

REUTERS FILE PHOTO

Mataram o Presidente Kennedy! E depois mataram o irmão dele, Robert Fitzgerald Kennedy. Desse crime lembro-me melhor. Vi-o na televisão ao vivo e a preto e branco.

Começara a tragédia dos Kennedy, a família real americana. O que o mundo chorava sentidamente não era tanto a perda de um político mais ou menos ilustre, ou de um sentido claro para a política americana. O que o mundo chorava era outra coisa. A beleza e a juventude cortadas rentes por uma bala de um desconhecido a que puseram o nome de Lee Harvey Oswald, um lunático com putativas ligações a Moscovo. O mistério da morte de Kennedy nunca foi, sem será, esclarecido, e esse mistério importou sempre menos do que as teorias da conspiração e obsessões a que deu azo, satirizadas num filme de Woody Allen. E a lenda, claro. A lenda foi construída pela viúva com a minúcia do ressentimento e o desvario do desgosto, e com a consciência imperial da exceção americana. Começou logo a seguir à morte. A lenda do príncipe perfeito emoldurada, para consumo geral, numa narrativa do herói do século XX. Os defeitos e menoridades do Kennedy humano, os erros, as infidelidades, as mentiras, as dúvidas, cederam perante um perfil de coragem, título de um livro deste autor na sua ascensão imparável para a Casa Branca. Um perfil traçado por grandes mestres. Os amigos, os historiadores, os conselheiros, os observadores, os analistas, a família, a viúva. A sobrevivente do fato Chanel cor-de-rosa manchado de sangue. Eis um caso em que a realidade não pode ser absorvida por nenhuma ficção.

JFK, à direita, com os irmãos, da esquerda para a direita, Joseph Kennedy Jr., Kathleen Kennedy e Rosemary Kennedy

JFK, à direita, com os irmãos, da esquerda para a direita, Joseph Kennedy Jr., Kathleen Kennedy e Rosemary Kennedy

HANDOUT/ Reuters

Reparo hoje que tudo o que soube e continuei a saber sobre JFK, das amantes partilhadas com a Máfia à crise dos mísseis de Cuba, das tardes de vela em Hyannis Port à morte de um filho na infância, do suicídio de Marilyn Monroe à dependência dos analgésicos, da fortaleza da mãe Rose à maldade do pai Joseph, tudo o que sei sobre este filho favorito de um clã de irlandeses católicos e rijos talhados para o poder como uma pedra para a estátua, se deve à posteridade. A posteridade dilatou a lenda e a narrativa, tingiu-a de nostalgia. O retrato final é superior ao retrato inicial, esboçado pelos coevos. John Fitzgerald Kennedy, nascido a 29 de Maio em Brookline, Massachusetts, tornou-se um mito grego. Nunca chegaremos a saber verdadeiramente quem foi.

STRINGER

O que sabemos é que durante um tempo glorioso, uma qualquer idade doirada, um homem simbolizou todas as vitórias dessa categoria axiológica tão apreciada pelo povo americano a que chamam largamente bem. A certeza do bem. A beleza do bem. A clareza do bem. JFK era o defensor dos pobres e dos oprimidos, o defensor da liberdade e da justiça, o vendedor de sonhos e o homem que pôs outro homem na lua. A Nova Fronteira dos direitos civis. JFK era o corpo solar de uma esperança como a América, depois dilacerada por guerras, marchas e motins sangrentos, nunca mais conheceu. O homem que enfrentara o mal e vencera. Sendo o mal, na crise cubana, a Rússia soviética de Kruschev. A América entretém com a Rússia uma relação adúltera, império que engana império. O Vietname desapareceu atrás do retrato daquele homem de maxilar duro, olhos escuros, cabelo sombreado pelo vento. A beleza ajuda. Nixon, no famoso debate em que suou as estopinhas e foi humilhado, nunca poderia ganhar num frente a frente da televisão, nunca poderia iludir a crueza das luzes e das câmaras. Nixon, o homem feio e de nariz achatado, contra o homem apolíneo no porte e dionisíaco em segredo. Tanto, na política americana, não passa de encenação e espetáculo. Da admiração da força, da beleza ou do dinheiro. John Fitzgerald Kennedy tinha a força, a beleza e o dinheiro. Como não haveria de ter o poder?

A vida muda num instante, soubemos em Dallas. Quando visitei a cena do crime anos mais tarde, numa das minhas peregrinações americanas, o lugar parecia-me acanhado, pequeno para tanta História. Um montículo de relva, uma estrada, uma curva, um armazém. Ao contrário do cenário áspero do 11 de Setembro, Ground Zero, o cenário de Dallas não mexe com as emoções ou parte os corações. Não é um cenário operático ou trágico. É apenas o lugar escolhido para uma trágica coincidência de acontecimentos. E para a afirmação do que julgamos iludir com a beleza e a juventude, a mortalidade dos seres.

JOHN F KENNEDY PRESIDENTIAL LIBRARY / HANDOUT

A saga Kennedy continuaria sem o seu protagonista, e a tragédia também. O filho dele, tão belo como um príncipe encantado, acabaria por morrer jovem como o pai. Como o tio. Os deuses parecem ter amado excessivamente a família Kennedy. E, de certo modo, continuamos a ter saudades não do que Kennedy foi realmente mas do que que Kennedy representou realmente, a possibilidade da eternidade.

Ora a eternidade é um trompe l´oeil.