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Crónica

E quem era o Lourenço Marques? Por Clara Ferreira Alves

O pássaro que nasce livre não sabe o que é cativeiro. Hoje é o dia 25 de Abril. Ou ontem. Ou amanhã. Não interessa. As pessoas fizeram planos para o intervalo sem trabalho. O tempo estará bom? Um areal na Grécia ou no Brasil, uma escapada, como lhe chamam os operadores turísticos, a Roma ou a Londres, uma viagem à Ásia compensada por uns dias de férias, uma semana numa pousada ou nas termas, uns dias na praia

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

Não deveria estar a escrever sobre a liberdade e a revolução? O cravo vermelho? A grilheta rebentada pelos militares de que ninguém se lembra a não ser eles mesmos e o grupo de saudosistas e esquerdistas que desfila pela Avenida da Liberdade com a lágrima seca no olho? Um jovem pensa na data de 25 de Abril e pensa em lazer, em noitada, em alegria sem horário, que são componentes químicos da liberdade. Um dia, esta data, e todas as datas são uma abstração, algarismos sem pertença, será igual à de 1640, valorosamente intitulada da Restauração. E um dia, quando o mundo contemporâneo desta data de 1974 estiver morto e enterrado há várias gerações, alguém dará a sugestão. A data deve deixar de ser feriado porque ninguém precisa de feriados para nada. Isto no caso do planeta ainda ser vivo. Portugal terá outras preocupações. O mundo terá outras preocupações. À velocidade acelerada a que caminhamos, muitas das coisas que agora nos parecem sólidas serão gasosas, diáfanas como a fantasia. Nesse dia, quando ninguém precisar de desfilar para lembrar o 25 de Abril, quando ninguém conseguir imaginar a esterilidade do passado, o colonialismo, a guerra, o salazarismo, a prisão política, a tortura da dissidência, a resistência à ditadura, nesse dia em que ninguém se lembre a que cheira o mofo, nesse dia o 25 de Abril terá cumprido a missão e poderá desaparecer como símbolo dos dias de veraneio que precedem a semana do primeiro de Maio.

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