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A resistência a Trump é feita por milhões. Mas tem um nome: Sally Yates

Alex Wong / Getty Images

Martim Silva, diretor-executivo do Expresso, olha para os perturbadores acontecimentos recentes nos Estados Unidos e para o que podemos esperar da presidência Trump

Martim Silva

Martim Silva

Diretor-Executivo

Ao fim de 27 anos a trabalhar no Departamento de Justiça dos EUA, Sally Yates estava a dias de deixar o lugar. Nos últimos dois anos foi, por nomeação de Obama, a vice-ministra da Justiça. Agora, ocupava interinamente o cargo de procuradora geral (equivalente a ministra), à frente do Departamento de Justiça, enquanto Jeff Sessions, nomeado por Trump, não é aprovado pelo Senado.

No fim de semana, depois da ordem executiva do Presidente Trump suspendendo a entrada de refugiados no país e suspendendo a entrada de oriundos de sete países de maioria muçulmana, Yates tomou a decisão da sua vida.

O mais normal, a poucos dias de sair do ministério em que trabalhou ao longo de quase três décadas, era não levantar ondas. Era compreensível e humano que o fizesse.

Mas Yates, atormentada, e depois de refletir ao longo do fim de semana, escolheu o caminho mais difícil. O caminho que a sua consciência ditava.

O que a ministra interina fez foi um puro ato de resistência perante uma ordem executiva que considerava de duvidosa legalidade e constitucionalidade. Yates escreveu aos responsáveis do departamento que dirigia dando conta disso mesmo. A ordem não era para cumprir.

“Neste momento, não estou convencida de que a defesa da ordem executiva seja consistente com essas responsabilidades, nem estou convencida de que a ordem executiva seja legal. Enquanto for procuradora-geral interina, o Departamento de Justiça não apresentará argumentos a favor da ordem executiva, a menos que me convençam de que é apropriado fazê-lo”

O que Sally Yates fez foi o mesmo que centenas de milhares de mulheres e homens fizeram nas últimas semanas, das mais variadas formas. Foi resistir. Foi imediatamente demitida e substituída. Era normal que acontecesse. Mas o que conta e o que fica é que não vergou.

Não foi ainda há quinze dias que Trump jurou sobre a Bíblia e foi empossado Presidente. A sucessão de acontecimentos tendo a Casa Branca como epicentro tem sido de tal forma vertiginosa que episódios como a polémica à volta do número de populares presentes na inauguration ou o apagar de páginas da internet em espanhol parecem agora longínquos e claramente menores.

O que tem acontecido é uma escalada, em que cada dia acordamos um degrau acima. Ou abaixo.

Olhe-se para este lado do Atlântico. Até um acontecimento terrível como o Brexit – claramente em contra-ciclo com a evolução histórica da humanidade, em que o contacto entre civilizações e povos e com o que é diferente é um motor da evolução – é um exemplo de civilidade e urbanidade.

A força de uma democracia não se mede pela capacidade dos seus cidadãos de decidirem sempre bem na altura de votar. Todos podemos deixar enganar-nos. O voto é essencial na democracia mas a democracia não se esgota no voto.

A força de uma democracia mede-se, e muito, pela capacidade de resistência dos seus cidadãos. Pela capacidade de serem eles a barreira última entre a civilização e a barbárie quando os eleitos perdem essa noção.

O que está a acontecer nos Estados Unidos mostra, por paradoxal que pareça, a força da democracia norte-americana.

Mas que não haja ilusões.

Trump não vai parar. Nem afrouxar. Nem mudar o seu comportamento. Ele sempre foi assim nos seus negócios e na sua vida. Trump viveu os últimos 40 anos a fazer parangonas dos jornais. Não é agora que vai deixar de alimentar-se disso.

Além do mais, os estudos de opinião mais recentes mostram que a sua política de fecho de fronteiras e anti-imigração conta com um largo apoio popular.

O choque entre estas duas legitimidades, entre estes dois polos, só vai acentuar-se nos próximos tempos.