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Crónica

As sociedades que querem continuar a viver em paz não devem ter ilusões sobre a guerra

“O que é que as capitais europeias podem fazer no meio de toda esta violência em Alepo? Se não estivermos dispostos a agir militarmente, nada”, escreve Miguel Monjardino. Vale a pena ler

Uma breve nota sobre a Síria e a conversa com Pedro Mourinho e Sara Pinto na SIC Notícias:

1. Alepo cairá nas mãos da forças de Damasco e dos seus aliados em Teerão, Líbano e Moscovo nos próximos dias.

2. A vitória militar numa guerra urbana que dura há 5 anos representará um grande triunfo político para Damasco. A constelação de grupos revolucionários sunitas e rebeldes que combatem contra o regime de Bashar al-Assad está a caminho de deixar de representar uma ameaça existencial para a sobrevivência de Damasco.

3. Porém, a queda de Palmira e dos poços de petróleo à volta da cidade para o Daesh é um embaraço político para Moscovo e Damasco. Por duas razões. A primeira é tornar excessivamente claro que a verdadeira prioridade de Bashar al-Assad na guerra não tem sido o Daesh mas sim os outros grupos armados sunitas. A segunda mostrar que Damasco não tem o número de tropas e milícias suficientes para controlar a capital, Alepo e uma parte do país e lutar contra os revolucionários do Daesh, Al Qaeda e outros grupos rebeldes sunitas ao mesmo tempo. O número de baixas das forças armadas sírias durante a guerra tem sido muito elevado.

4. Esta situação ao nível táctico e operacional no terreno e o custo financeiro da guerra e da reconstrução de algumas zonas, sugere que o grau de dependência do regime sírio em relação a Teerão, Hezbollah e Moscovo vai aumentar ainda mais.

5. É importante ter em conta que os interesses de Damasco, Teerão e Moscovo não são coincidentes. Todas estas capitais estão dispostas a pagar um preço elevado em sangue e dinheiro para manter o regime de Bashar al-Assad. A determinação desta coligação foi superior à da Turquia, Arábia Saudita e Qatar que tentaram usar a guerra civil síria para derrubar o regime sírio e criar um baluarte sunita na costa do Mediterrâneo. Dito isto, o Kremlin não tem grande interesse em ver a guerra pelo controlo de todo o território sírio continuar.

Moscovo aproveitou o recuo da administração Obama no Médio Oriente e a aposta estratégica de Washington na negociação do acordo nuclear com o Irão para intervir militarmente na Síria. O principal objectivo de Vladimir Putin é melhorar a sua posição estratégica na Europa: levantamento das sanções económicas, financeiras e tecnológicas impostas pelos EUA e a União Europeia, negociação do estatuto geopolítico da Ucrânia e impedir que tropas NATO sejam estacionadas nos estados da Aliança Atlântica a leste. Ou seja, a Rússia não quer aumentar o seu empenhamento militar na guerra síria. O interessa a Vladimir Putin é voltar a dar à Rússia um papel indispensável na política internacional.

Damasco e Teerão olham para o problema de outra forma. O mesmo pode ser dito dos grupos de revolucionários e rebeldes sunitas que combatem em território sírio. A sua determinação em continuar a combater mantém-se.

6. O que é que as capitais europeias podem fazer no meio de toda esta violência? Se não estivermos dispostos a agir militarmente para defender interesses ou valores, a resposta é "Nada!". Como Tucídides escreveu na sua "História da Guerra do Peloponeso" – esse grande clássico sobre a política, a estratégia e a natureza humana –, "a guerra é um professor muito violento". Esta é uma lição que as sociedades europeias que decretaram ter abolido o problema do uso da força militar para conquistar ou manter o poder político vão ter de aprender. Restam os gestos como este em Paris e as redes sociais que geram emoções. O que está em jogo, porém, não são as emoções mas sim o poder. A paz, essa, levará mais algum tempo a chegar às cidades, vilas e aldeias sírias.

7. As sociedades que querem continuar a viver em paz não devem ter ilusões sobre a guerra. Temos muitas nas sociedades europeias. Estamos um pouco como Tróia antes da chegada de Agamémnon, Menelau, Nestor, Ulisses, Idomeneu, Diomedes e Aquiles com os seus violentos Mirmidões. Esta é uma boa altura para ler ou reler a "Ilíada" de #Homero.