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Expresso

A cartilha feminista de Marcelo

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Temos um Presidente que admite publicamente ser feminista porque acredita na defesa dos Direitos Humanos e jurou a Constituição. E isso gera conforto quando ouvimos um dos candidatos a Presidente dos EUA dizer alarvidades sobre a metade feminina do mundo

Nunca tinha ouvido um Presidente da República admitir publicamente que poderia ser feminista. Ou melhor, nunca tinha ouvido essa palavra proferida por um homem chefe de Estado.

Dia 10 de outubro de 2016 é a data em que ouvi Marcelo Rebelo de Sousa dizer preto no branco que os Direitos das Mulheres “são assuntos de Direitos Humanos”. As interlocutoras eram (quase todas) as embaixadoras acreditadas em Portugal e no público estavam numerosos estudantes [uma palavra sem género...] do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas... que maioritariamente queriam ouvir a intervenção do PR na conferência “Mulheres e Diplomacia”.

Os estudantes ouviram o PR e devem ter retido que os direitos das mulheres são Direitos do Homem. Marcelo lembrou que as 22 embaixadoras acreditadas em Portugal só tinham conseguido chegar ao topo das suas carreiras profissionais porque tinham tido direito a “educação básica e secundária em igualdade de circunstâncias com os homens”.

Lembrou ainda que as 22 embaixadoras acreditadas em Portugal só tinham conseguido chegar ao topo das suas carreiras profissionais porque tinham tido direito a frequentarem o “ensino superior em igualdade” de circunstâncias com os homens. E também porque tinham tido direito a igualdade de acesso às provas de ingresso na sua carreira profissional.

Mas Marcelo também disse que “a posição das mulheres nos serviços diplomáticos de relevo está longe de desejável paridade”. Com um PR que admitiu ser feminista ficamos a saber que o Presidente acha que em Portugal e no mundo ainda existem poucas mulheres em todos os cargos de topo e em quase todas as áreas profissionais.

E são as pessoas que vivem no mundo quem mais perde com isso porque o olhar das mulheres sobre o espaço público é uma mais valia para toda a sociedade.

No caso concreto da diplomacia – tema da conferência onde Marcelo admitiu ser feminista – o PR foi assertivo ao afirmar que o contributo das mulheres diplomatas foi decisivo para colocar no mesmo patamar de “importância da Segurança e Defesa”, questões como a “diplomacia da água, segurança alimentar, segurança energética, reforço do poder das mulheres”, entre outras.

Quem ataca os direitos de uma mulher ataca os Direitos Humanos de 3,7 mil milhões de pessoas. As mulheres são metade da população do mundo, metade das pessoas que vivem no nosso país, metade da força de trabalho, metade da inteligência humana, metade dos afetos, metade.

Elas são muito mais do que a simples metade em quase todos os países do mundo. Elas são [sempre] as maiores vítimas em caso de violação, discriminação e segregação. Elas são as maiores vítimas da epidemia do analfabetismo. Elas são as maiores vítimas do desemprego, dos baixos salários.

Não escrevo Nós porque, apesar de tudo, tive a sorte de nascer num país europeu e numa época onde muitos mulheres já tinham lutado para conquistar Direitos para todas nós. Mas podia ter tido o azar de nascer no mesmo ano em que nasci e no Afeganistão... e a minha vida teria sido muito diferente.

Passaram quatro décadas sobre o 25 de Abril de 1974, que abriu as portas ao período de maior mudança de atitudes, comportamentos e mentalidades na sociedade portuguesa da segunda metade do século XX. As mulheres portuguesas só conquistaram o direito de voto em condições de igualdade com os homens depois do 25 de Abril de 1974. A mudança vivida também passou pela igualdade de acesso das mulheres a sectores profissionais que até aí eram domínio masculino: diplomacia, Forças Armadas, forças policiais, magistratura, etc.

Só que apesar de todas essas conquistas, e de o PR ter admitido publicamente ser feminista, ainda há um longo caminho a trilhar em defesa dos demais direitos para as mulheres. Em áreas tão distintas quanto a educação, salários, saúde, violência doméstica, não esquecendo a utilização da imagem.