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Crónica

A dolorosa viagem pelo mundo negro da Gralheira

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Maciço da Gralheira, entre S. Pedro do Sul e Arouca

foto pedro soares

Vários deputados visitaram na quinta-feira três dos concelhos mais devastados pelas chamas (Arcos de Valdevez, S. Pedro do Sul e Arouca). Pedro Soares, do BE, presidente da Comissão Parlamentar do Ambiente (e geógrafo de profissão), dá o seu olhar pessoal sobre a destruição da paisagem, da economia e do futuro de muita gente

Atravessei o Maciço da Gralheira, a caminho do São Macário há poucas semanas, antes dos violentos incêndios deste agosto. Uma paisagem extraordinária, constituída por um complexo conjunto de elevações, entre os rios Douro-Paiva e Vouga-Sul, de uma beleza original fabulosa, com superfícies declivosas sucessivas, ligeiramente convexas, onde se descobrem nos vales, profundamente encaixados, pequenas aldeias onde predominam construções de xisto e granito.

Foi doloroso voltar a fazer esse percurso na passada quinta feira, entre S. Pedro do Sul e Arouca, na visita da Comissão Parlamentar de Agricultura a algumas das zonas mais afetadas pelos recentes incêndios florestais. A paisagem da Gralheira passou a ser negra, literalmente, com áreas a perder de vista sem qualquer vegetação verde.

Descemos à aldeia do Soito, na freguesia de S. Martinho das Moitas. Uma das moradoras contou-nos a impotência dos bombeiros para suster as chamas. Várias casas destruídas, animais calcinados, bens perdidos e, principalmente, um enorme desânimo, misturado com revolta e angústia, duramente vincado nas palavras de quem viveu tamanho drama.

Na aldeia do Soito, S. Pedro do Sul, um curral foi consumido pelas chamas, calcinando o animal que lá se encontrava (à esquerda, junto ao muro

Na aldeia do Soito, S. Pedro do Sul, um curral foi consumido pelas chamas, calcinando o animal que lá se encontrava (à esquerda, junto ao muro

foto pedro soares

Antes tínhamos estado no Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG), onde arderam seis mil hectares de floresta e mato. A partir do Mezio, vê-se a cobertura vegetal natural drasticamente afetada. O presidente da Câmara de Arcos de Valdevez lamenta os estragos no bosque do Ramiscal, uma das jóias da biodiversidade do único Parque Nacional do país, e mantém a esperança num novo plano de valorização do território do PNPG.

Ao final do dia, em Arouca, acolhe-nos a informação de que 58 por cento da floresta do concelho, cerca de 17 mil hectares, tinham ardido nos últimos dias, com um impacto ambiental, económico e social difícil de quantificar, mas seguramente muito grande.

Os incêndios florestais são o maior flagelo da nossa floresta. Entre 1990 e 2012 foram destruídos pelo fogo 2,5 milhões de hectares de floresta. Em contrapartida, o eucalipto tem tido uma rápida progressão. Passou de cerca de 241 mil hectares na década de 1970 para 740 mil hectares em 2006 e recentemente para cerca de 812 mil hectares.

Todas as entidades foram muito claras na necessidade absoluta de medidas urgentes para o ordenamento e gestão da floresta, como passos essenciais para que os ciclos anuais de incêndios sejam controlados. Não compete às autarquias a possibilidade de tomar posse das parcelas abandonadas, o que constituiria mais um problema do que uma solução. O papel que devem desempenhar é o de se envolverem no planeamento e gestão dos territórios florestais, e não apenas das áreas urbanizáveis.

De Arcos de Valdevez a Arouca, passando por S. Pedro do Sul, há um clamor que se concentra numa pergunta que precisa de ser respondida: depois de milhões de hectares ardidos de floresta, com vidas, bens e recursos consumidos no combate a tantos incêndios, ao longo de anos e anos, que interesses tão poderosos continuam a impedir que a floresta seja ordenada, a monocultura de espécies de crescimento rápido seja controlada, o Estado incentive e apoie a organização dos pequenos produtores florestais e medidas sérias de prevenção sejam levadas a cabo?

Temos todos a obrigação de exigir uma resposta.