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Crónica

O menino de ninguém que nos pôs todos a olhar para Alepo

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De que serve colecionar crianças-símbolo da dor? Há um ano, um menino sírio morreu numa praia turca. Na quarta-feira, outra criança sem voz foi retirada dos escombros da batalha de Alepo. Inflamam-se as redes sociais e a Internet com a dor e a inação. Até quando?

Alepo. Já ouvimos o nome desta cidade tantas vezes. Outra vez. Outra criança. Outro espanto de morte. Omran não fala, não grita, não chora. Para quê? Do fundo dos seus cinco anos de guerra, já percebeu que ninguém o ouve, ninguém quer saber. Omran está em todos os jornais, todos os sites, partilhado pelas redes sociais como se de uma estrela pop se tratasse. Envolto em pó, retirado dos escombros de uma guerra suja, Omran procura limpar as mãos no banco da ambulância. Omran tem sangue no rosto, mas não pede ajuda, água, nada. Tenta resolver sozinho a imundície que o sufoca. Nós? Nós olhamos de longe, protegidos pela distância, pelos ecrãs da imaterialidade. Oh, pobres de nós, doi-nos a alma. Afinal, nada podemos fazer. Não podemos?

A imagem de Omran sentado no interior de uma ambulância vazia foi difundida pelo grupo Aleppo Media Center (AMC) na quarta-feira. Opositor de Bashar al-Assad, o AMC explica que a criança foi ferida num bombardeamento russo à cidade síria. O correspondente do jornal britânico “The Telegraph” acrescentou que o nome completo do menino é Omran Daqneesh e que tem cinco anos, citando fontes médicas. Com o menor terão sido regatados três adultos feridos durante o ataque ao bairro de Qaterji. Mas do que nos serve esta informação? São estas as respostas de que precisamos? São estas as perguntas que devemos fazer?

Há cerca de um mês que nenhum comboio humanitário consegue entrar nas zonas sitiadas da síria, segundo as Nações Unidas. O impensável ajuda os senhores da guerra a aguçarem as suas garras. Esta semana, o Irão permitiu que os russos usassem o seu território para bombardear a síria. Desde 1979 que tal não acontecia. Alianças de chumbo são firmadas enquanto Omran tenta limpar as mãos no fundo da ambulância. E nós? Olhamos de longe, enquanto suspiramos pelas acrobacias de Simone Biles, bem mais efervescentes do que o olhar parado do menino sírio. Estamos em plena silly season, tolos a observar um mundo que se derrete entre fogos, desigualdades e violência.

Há menos de um ano, um miúdo sírio morreu numa praia turca. Também daquela vez, as redes sociais clamaram por justiça, apontaram dedos à inação, cantaram-se loas aos injustiçados e chorou-se a dor dos refugiados. Muito se lamentou, muito se criticou. Pouco se fez. O cemitério líquido do Mediterrâneo continua a afogar crianças, mães, pais, futuros. Quem se recorda de Alan Kurdi? Era esse o nome da criança-ícone. Agora é a hora de Omran. Quanto tempo vai durar o impacto do grito surdo do menino sírio? Este ainda está vivo. Temos mais um símbolo. Para quê?